AMBIENTE-EUA: o dilema do crescimento zero e o desemprego

Atlanta, EUA, 12/11/2009 – A possibilidade de uma catástrofe ambiental leva muitos políticos, acadêmicos e cidadãos a reformular o modelo, antes incólume, de uma economia baseada no conhecimento constante. Isto ocorre porque para setores cada vez mais amplos da população, especialmente a da maior potência mundial, os Estados Unidos, fica claro que é preciso consumir menos recursos naturais para minimizar os perigos que ameaçam de morte o planeta.

A grande pergunta é: como os Estados Unidos podem passar para uma economia de “crescimento zero” que se sustente e na qual não aumente o desemprego? Se a população consome menos bens e serviços, isso significará menos trabalho na indústria manufatureira, na venda e no fornecimento de bens e serviços? “É uma boa pergunta, porque neste momento enfrentamos níveis insustentáveis de consumo”, disse à IPS Johnm Talberth, presidente do Centro para a Economia sustentável. “Se não consumirmos o suficiente, toda a economia entra em colapso e é preciso mudar”, acrescentou.

Nesse sentido, o governo de Barack Obama promove empregos “verdes” na produção de energia de fontes renováveis, com a eólica e a solar, de maneira a garantir ao seu país a manutenção de sua competência econômica, ao mesmo tempo em que aborda problemas como a mudança climática. Mas, os empregos verdes avançam apenas até certo ponto, principalmente substituindo os mais sujos nos setores do petróleo, carvão e reatores nucleares. Isto não basta para compensar a possível perda de trabalhos que implica a redução do consumo geral neste país.

Muitos cidadãos norte-americanos já começam a reduzir seu consumo, embora não necessariamente por uma preocupação ambiental, mas pelo terrível estado da economia, mesma razão pela qual cada vez mais restaurantes e comércios fecham suas portas. Quando se compra menos, as autoridades das cidades, cujos orçamentos dependem de impostos sobre as vendas, reduzem serviços com cuidados com os espaços públicos e os policiais.

Nas últimas décadas constatou-se uma tendência mundial à globalização, à centralização, à especialização e à produção em massa. O argumento econômico para a centralização é a eficiência: menos pessoas produzindo mais mercadorias. Essa prática redundou em desemprego. “A passagem de indústrias pequenas para indústrias grandes reduziu a demanda de mão-de-obra”, disse Talberth.

“Saímos de três décadas ou mais de concentração em uma política econômica de globalização. Como sabemos, isto levou a um grande desestímulo da base manufatureira norte-americana, e prejudicou comunidades de todo o mundo. Se deixarmos a globalização para passarmos à ‘localização’, criaremos uma quantidade fantástica de novos empregos”, acrescentou.

Judy Wicks, fundadora da Aliança Empresarial para as Economias Locais vivas, descreveu a visão de uma nova modalidade de produção segundo a qual “os postos dedicados à fabricação de bens desnecessários destinados a consumidores autômatos serão substituídos por empregos valiosos que ajudem a construir a autonomia local”. Wicks acrescentou que “a maioria de nossos alimentos é importada e processada por grandes empresas de outros lugares. Necessitamos não só apoiar nossos agricultores locais mas também os trabalhos e as companhias que distribuem os produtos frescos e processam nossos alimentos, para que os enlatados de nossa loja procedam de nossa localidade”.

A massagista Gloria Tatum, de Decatur, no Estado da Geórgia, chegou a essa conclusão no ano passado, quando a procura por seus serviços diminuiu. Foi então que decidiu cultivar verduras no jardim em frente sua casa. Em 208 colheu mais da metade dos alimentos que consumiu, e espera chegar a três quartos no próximo ano. Segundo Wicks, “isto significará mais empresas e muitos mais proprietários. A propriedade das empresas de distribuirá de uma maneira muito mais ampla”. Isto é, os benefícios do consumo comunitário chegarão mais às famílias e menos a acionistas corporativos e instituições financeiras, explicou.

“A economia local coloca no mercado produtos realmente únicos e apoia a inovação local. As dinâmicas econômicas locais apoiam seus artistas locais, seus músicos, sua cultura local. Suas comunidades criam produtos únicos que expressam a cultura local”, afirmou. “Pode ser um grande vinho, um grande queijo, uma nova moda, qualquer coisa em que uma comunidade acredita, para que sua economia crie coisas que celebrem o ser humano e não os produtos básicos”, afirmou Wicks.

“Nossa economia deve crescer, mas nossos investimentos deveriam ser verdes. Deveríamos investir muito para melhorar a eficiência energética dos edifícios e das indústrias, em energia eólica e solar, em transporte de massa”, disse James Heintz, do Instituto de Pesquisas sobre Economia Política da Universidade de Massachussets, em Amherst. “Uma parte disto seria a modernização da infraestrutura elétrica nacional. A rede está muito centralizada e é muito velha. Não pode ser adaptada à energia solar e eólica. Todos estes investimentos criarão empregos e ajudarão a mantê-los nas áreas da economia que já existem”, acrescentou.

O presidente Barack Obama e o Congresso legislativo dos Estados Unidos aprovaram um pacote de estímulo incluído na Lei Norte-americana de Recuperação e Reinvestimento (Arra). A lei prevê investimento de US$ 100 bilhões “para apoiar este tipo de investimento verde”, disse Heinz. O especialista considera que essa lei “não cria apenas investimentos em empregos verdes”, mas também dispõe que certas instalações hoje em uso sejam abandonadas “para que a economia avance no futuro”, disse Heintz. “Os padrões de eficiência energética para os edifícios novos produzem retorno com muita rapidez, graças à economia de energia. Em cinco anos se recupera o investimento”, assegurou.

Porém, o dinheiro previsto pela Arra para edifícios energeticamente eficientes não bastará para todas as construções nos Estados Unidos. Isso levará pelo menos 30 anos, disse Heintz. “É preciso criar incentivos agora para que a economia passe para um tipo de produção e consumo que melhorem muito a eficiência no uso dos escassos recursos que temos, e exija menos do meio ambiente de modo que os ecossistemas possam assimilar a contaminação”, acrescentou. A eficiência energética também permitirá que as famílias economizem dinheiro, afirmou.

Talberth, do Centro para a Economia Sustentável, afirmou que os Estados Unidos necessitam também de investimentos sociais. Alguns sugerem que no futuro a sociedade possa concluir que não é preciso nem desejável que toda a população economicamente ativa trabalhe tanto. Isto é, que se pode produzir coletivamente tudo o que é preciso, com menos trabalho e menos empregados. “Se temos toda a população a salvo da pobreza e da fome, recebendo cuidados médicos e educação, não há motivos para todos trabalharem 40 ou 60 horas por semana. Tem de haver mais tempo para o lazer”, disse Talberth. “Isto significa trabalharmos menos”, segundo Wicks. “Muitas vezes as pessoas estão desesperadas por dinheiro porque querem comprar todo esse lixo. Talvez, se mudarmos nossos valores, não necessitemos de tanto dinheiro e tampouco de trabalhar tanto”, acrescentou.

* Este artigo é parte integrante de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org). (IPS/Envolverde)

Matthew Cardinale

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