MUDANÇA CLIMÁTICA-URUGUAI: Deve trabalhar em cooperação com países vizinhos

Raúl Pierri, 23/11/2009 – O Uruguai deve fixar em sua agenda os esforços contra o aquecimento global e trabalhar de forma coordenada com seus vizinhos da América do Sul, afirma um dos cientistas consultados para o Primeiro Informe Regional sobre Mudança Climática, elaborado pelo Terramérica e apresentado ontem.

 - Informe GEO

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O aumento do nível do mar e a possível salinização das fontes de água potável são os principais desafios deste país, que deve prever formas de adaptação para a agricultura e a pecuária, disse em entrevista coletiva o cientista Mario Bidegain, professor e pesquisador da Unidade de Ciências da Atmosfera da Faculdade de Ciências da Universidade da República.

Bidegain disse que na América do sul enquanto países centrais como Bolívia e Paraguai sofrerão especialmente um aumento das temperaturas, as nações com zonas costeiras, como Argentina e Uruguai, sofrerão mais os efeitos da elevação do nível do mar. Enquanto isso, o Brasil investe milhões de dólares em esforços para estudar a suportar impactos, com a savanização da Amazônia, e promete reduzir entre 36,1% e 38,9% as emissões de gás de efeito estufa até 2020.

O especialista disse que o Uruguai não escapará do cenário mundial. O último informe do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC), de 2007 – atualizado a cada cinco anos – prevê em seu cenário mais benigno aumento da temperatura média anual entre dois e 2,5 graus até 2050. “Isto não é pouco”, alertou Bidegain.

O informe especial do Terramérica – serviço de informação ambiental e de desenvolvimento produzido pela agência IPS (Inter Press Service) e publicado por 20 jornais da região – foi elaborado com base nas respostas de 23 especialistas em mudança climática. Estes receberam amplo questionário via correio eletrônico, que se complementou com conversas telefônicas. Vários desses especialistas são membros do IPCC, como Bidegain, que foi revisor dos Informes do Grupo de Trabalho I (Bases Físicas do Clima-2007) e do A Mudança Climática e a Água (2008).

O documento “América Latina diante dos efeitos irreversíveis de um planeta mais quente”, de 40 páginas e disponível na Internet, tem a intenção de servir de balanço periódico da situação regional em matéria de aquecimento global, contando com a opinião de especialistas, cientistas e funcionários, representantes da sociedade civil e de organismos internacionais.

O trabalho foi apresentado ontem em Montevidéu por sua redatora, Cristina Canoura, e pela editora regional da IPS para a América Latina, Diana Cariboni, quando faltam poucos dias para a 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontecerá de 7 a 18 de dezembro em Copenhague. Na capital dinamarquesa, delegados de todo o mundo buscarão um acordo para reduzir as emissões contaminantes depois de 2012, quando expiram os compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional que obriga a reduzir os gases causadores do efeito estufa.

“Um aspecto preocupante para o Uruguai é o aumento do nivel do mar. Nesse caso há mais incerteza ainda do ponto de vista cientifico, porque existem muitas discussões e até hoje os modelos que prevêem esse tipo de variável não são totalmente confiáveis em nível mundial”, afirmo Bidegain. O IPCC estimou para o final deste século elevação de 60 centímetros no nível do mar, embora outros cientistas considerem que é muito cauteloso e alertarem que o aumento pode chegar a até mais de um metro.

Isto é preocupante para o Uruguai, disse o cientista, considerando que neste país foi constatado aumento de 10 centímetros nos últimos 60 anos. Agora seria de, “pelo menos, seis vezes mais. Isto tem grande impacto”, afirmou. “Naturalmente, isto tem efeitos de todo tipo que as pessoas nem imaginam na vida cotidiana. O aumento do nível do mar não causará apenas inundações costeiras, mas um processo de salinização das lagoas, bem com da desembocadura do rio Santa Lucía (sul), onde estão as captações de água corrente” de Montevidéu, acrescentou.

O cientista destacou a necessidade de priorizar os esforços de adaptação sobre as iniciativas de mitigação. “A mudança vai ocorrer. Os gases-estufa que já emitimos vão continuar na atmosfera. O que vemos agora não é por causa do que emitimos hoje, mas pelo emitimos nas décadas anteriores”, explicou.

“Um aquecimento nos próximos 50 anos é inevitável. Isso precisa ficar claro. É inevitável, independe do que fizermos. O que se negociará em Copenhague é um acordo para conseguir uma redução ao menos voluntária de gás-estufa e assim tentar fazer com que esse aquecimento seja menor, mas, lamentavelmente, continuará por muitas décadas”, disse Bidegain. O cientista explicou o conceito de irreversibilidade manejado no informe do Terramérica.

“Há cientistas no mundo dizendo que, com aumento da temperatura média acima de dois graus o sistema climático global pode tomar um novo estado de equilíbrio, que não se sabe qual é, no qual todos vão sofrer. Mas, depois, mesmo com reduções voluntárias ou coordenadas dos gases-estufa, não se poderá voltar ao clima atual”, afirmou Bidegain. “Nossa sociedade está baseada no consumo de combustíveis fósseis que, quando queimados, sejam carvão ou petróleo, emitem gás-estufa. Temos de pensar em uma nova forma de sociedade, em novo estilo de vida”, afirmou.

O cientista destacou que o Uruguai conseguiu avanços, especialmente com a criação este ano do Sistema Nacional de Resposta à mudança climática, embora destacando a necessidade de fixar planos concretos e de longo prazo para a agricultura e a pecuária, principais setores econômicos do país que serão afetados. O trigo e a cevada, cultivos de inverno, serão os produtos mais prejudicados, segundo especialistas na matéria. “Deve-se pensar nisso com vistas para o futuro, como o Uruguai vai cobrir essa falta. Praticamente não teremos trigo para fazer pão. Vamos substituí-lo por outro cultivo? A mudança climática nos apresenta oportunidades e desafios”, afirmou.

Um dos especialistas ouvidos no informe do Terramérica, Agustín Gimenez, disse que “o efeito mais evidente e negativo da mudança climática no Uruguai e na região (Pampa argentino e no sul do Brasil) é o aumento da variação climática e maior ocorrência de eventos extremos”. Gimenez é coordenador nacional da Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento de Agro-clima e Sistemas de informação do Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária.

O informe do Terramérica indica que a América Latina e o Caribe podem sofrer uma perda de renda agropecuária de até 12%, em um cenário de mudança climática leve, e de até 50% num cenário mais grave. Bidegain também falou da necessidade de estes problemas terem prioridade nos planos dos futuros governos do Uruguai, que se para realizar no próximo da 29 o segundo turno das eleições presidenciais.

Terramérica é uma plataforma multimídia de comunicação que oferece informação em português, espanhol e inglês em texto, áudio e imagens. Conta com patrocionio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e do Banco Mundial. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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