MUDANÇA CLIMÁTICA: O modelo dinamarquês

Copenhague, 25/11/2009 – Ainda não é um fato que em dezembro se chegará a um acordo internacionalmente vinculante para reduzir emissões de gases que provocam o efeito estufa. Mas está claro que, se existe um lugar no mundo que merece ser o cenário de sua assinatura, este é Copenhague, a capital dinamarquesa. Graças a um esforço extraordinário do governo e da sociedade civil para melhorar a eficiência na geração e no consumo de energia, e a enormes investimentos em fontes de energias renováveis, a Dinamarca é atualmente o único país que consegue desvincular crescimento econômico das emissões de gás-estufa.

Estatísticas oficiais mostram que, entre 1980 e 2000, o produto interno bruto dinamarquês cresceu 78%. No mesmo período, o consumo energético do país foi praticamente o mesmo. Isto significa que a intensidade energética – proporção de consumo de energia em relação ao PIB – caiu 40%. As emissões dinamarquesas de gás-estufa, especialmente o dióxido de carbono (CO²), também diminuíram substancialmente, cerca de 20%. Segundo a Agência Internacional de Energia, a Dinamarca é o terceiro país da União Europeia com menor relação entre seu PIB e as emissões de carbono. Os dois que a antecedem são Suécia e França. Ambos (especialmente, o segundo) dependem muito da geração de energia nuclear, que se presume estar livre de carbono.

O desenvolvimento exemplar da Dinamarca é consequência do aumento da eficiência na geração e no consumo de energia, mas também do crescimento de fontes energéticas renováveis, em particular o vento, usadas para produzir eletricidade. Anne Grete Holmsgaard, parlamentar pelo Partido Popular Socialista, de oposição, disse à IPS que um dos fatores mais importantes no aumento da eficiência do consumo de energia no país é a cogeração de eletricidade e calor. “Praticamente todos os geradores dinamarqueses funcionam de modo dual”, disse Holmsgaard, que também é uma das principais legisladoras ambientais da Dinamarca.

“A cogeração de eletricidade e calor garante um uso mais eficiente dos combustíveis na produção. Nos geradores mais eficientes podemos atingir eficiência de até 90%”, acrescentou. Atualmente, os geradores combinados de calor e eletricidade constituem um dos métodos mais comuns de reciclagem de energia. Enquanto as centrais elétricas convencionais deixam que o calor que produzem como derivado da eletricidade flua para a natureza mediante torres de refrigeração, drenando a água quente para os rios ou por outros meios, os geradores combinados o capturam para usá-lo na calefação doméstica ou industrial.

Além disso, nos anos 80 a Dinamarca introduziu elevados padrões de eficiência para edifícios, programas de etiquetas para produtos elétricos e campanhas públicas para promover a economia doméstica e industrial. Desde então, estes padrões são constantemente atualizados e melhorados. “Também pagamos impostos muito altos pelo consumo de energia”, disse Holmsgaard à IPS. A Dinamarca lançou seu programa de eficiência energética na década de 70, no final da primeira crise do petróleo.

“Nesse momento éramos quase completamente dependentes do petróleo e de outros combustíveis fósseis”, disse à IPS Steen Gade, presidente do Comitê Dinamarquês de Meio Ambiente e Planejamento e do Trust de Economia de Energia Dinamarquês. Até meados da década de 70, a Dinamarca gerou 90% de sua eletricidade queimando petróleo importado. A queima de carvão extraído no país gerava os 10% restantes. “O objetivo de nosso primeiro Plano Dinamarquês de Energia consciente, de 1976, foi aumentar nossa segurança de fornecimento e reduzir nossa dependência dos combustíveis fósseis”, disse Gade.

As preocupações ambientais não tiveram nenhum papel na concepção desse plano. Na verdade, o principal objetivo foi melhorar primeiro a eficiência na geração de eletricidade e calor, e converter os geradores do país de petróleo para carvão. “A energia renovável somente teve um papel marginal no fornecimento de energia nesse momento”, afirmou Gade. O plano seguinte, em 1981, deu ênfase na intensificação do desenvolvimento da recuperação do petróleo e do gás desde o mar do Norte. Mas, simultaneamente o plano lançou a construção e operação de turbinas eólicas e unidades de biomassa, iniciando a atual história de sucesso em matéria de geração de energias renováveis na Dinamarca.

Para 1990, antes que o mundo industrializado começasse a pensar em reduzir as emissões de gás-estufa, um novo plano dinamarquês de energia fixou o objetivo de reduzir em 20% as emissões de CO² entre 1998 e 2005. “Os instrumentos mais importantes do plano Energia 2000 foram aumentar o fornecimento de energia renovável, bem como a utilização dos geradores combinados de calor e eletricidade, e mais economia de energias”, afirmou Gade à IPS. Desde então, a cota de energia renovável – eólica, geotérmica, solar, biogás e de biomassa – aumentou de maneira constante na Dinamarca, e agora representa 28% do fornecimento elétrico total do país.

“Para este aumento da energia renovável foi essencial a decisão adotada em 1985, de renunciar à energia nuclear”, disse Holmsgaard. “Se a Dinamarca tivesse seguido o exemplo, digamos, da França, e começado a construir centrais nucleares, teríamos bloqueado o desenvolvimento de nosso setor de energia renovável”, acrescentou. Segundo a legisladora, até 2020 o país terá reduzido em pelo menos 4% seu consumo de energia, em relação a 2006. “Mas, podemos ir mais longe e diminuir até 45% o consumo de energia até 2050. É apenas uma decisão política”, enfatizou.

Entretanto, apesar de sua eficiência exemplar, o sistema energético dinamarquês tem falhas. Dorthe Vinther, vice-presidente da Energinet, uma empresa pública independente que possui as principais redes de eletricidade e gás natural na Dinamarca, disse à IPS que a rede dinamarquesa ainda “não é suficientemente inteligente para coordenar de maneira flexível a oferta e a demanda, e nem para compensar as flutuações que dependem da meteorologia e que são típicas das energias eólica e solar”.

Segundo Vinther, essas flutuações no abastecimento de energias renováveis tornam difícil atender a demanda básica. “Para conseguir esse objetivo precisamos de melhor previsão meteorológica, que nos permita melhorar nosso programa e manejo da oferta de energia eólica ou solar”, acrescentou. Além disso, “a rede deve ser capaz de armazenar eletricidade em fases de maior fornecimento de energia eólica e solar, e de distribuí-la em períodos de baixo fornecimento, para atender constantemente a demanda básica”, afirmou. Vinther disse que essa rede e a previsão são fatores a serem considerados na criação de um futuro mercado internacional de energias renováveis, especialmente a eólica.

“A integração de energia eólica em grande escala exige uma forte rede internacional de transmissões e eficientes mercados elétricos internacionais, para comercializar e equilibrar a energia eólica em uma área geográfica ampla”, disse Vinther. “Para um projeto internacional dessas características, também precisamos de sistemas energéticos coerentes, para aumentar a flexibilidade e a eficiência econômica, e reduzir o impacto ambiental. E necessitamos de redes inteligentes”, enfatizou. (IPS/Envolverde)

* Este artigo é parte integrante de uma série produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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