Roma, 27/11/2009 – “Não é preciso ir longe, está entre nós”, disse o chefe da Divisão de Gênero da chancelaria holandesa, Robert Dijksterhuis, a uma audiência principalmente feminina.

Robert Dijksterhuis, Jac SM Kee, Monia Azzalini,Paula Fray, Thenjiwe Mtintso y Laila Al-Shaik. - Miren Gutiérrez/IPS
Várias pessoas comprometidas com a temática da violência contra as mulheres participaram de uma conferência organizada em Roma pela IPS, com apoio da chancelaria italiana e da prefeitura romana, para discutir o papel dos meios de comunicação na difusão do problema.
Mais de 70% das mulheres do planeta foram agredidas física ou sexualmente por um homem em sua vida, em geral marido, companheiro ou outro conhecido, segundo o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres (Unifem). A violência contra as mulheres com idades entre 15 e 44 anos causa mais mortes e invalidez do que o câncer, a malária, os acidentes de transito e a guerra combinados, diz o estudo “Violência contra a mulher no mundo”.
Na África do Sul, a cada seis horas uma mulher é assassinada por um conhecido. Na Guatemala, a média diária chega a duas. Na cidade de São Paulo uma mulher é agredida a cada 15 segundos. Em países como a Colômbia ou regiões com a conflitiva província sudanesa de Darfur, as violações são moeda corrente. O flagelo não existe apenas nas nações em desenvolvimento, mas também nos países industrializados.
Nos Estados Unidos, 83% das meninas entre 12 e 16 anos sofrem algum tipo de agressão sexual nas escolas públicas e uma em cada três mulheres é morta por seu companheiro a cada ano. Nos países da União Europeia, entre 40% e 50% das mulheres ao alvo de uma proposta, algum tipo de agressão sexual ou um contato físico indesejado em seu trabalho.
Há muito pouco tempo a sociedade civil, os meios de comunicação e os políticos uniram esforços para mudar a percepção do fenômeno e tentar derrubar o muro da indiferença e as más interpretações que o rodeiam, segundo o Unfpa. “A comunicação pode ser uma das ferramentas mais poderosas” para lutar contra esse tipo de violência, disse o vice-chanceler da Itália, Vincenzo Scotti. A mídia que teve êxito no tratamento de vários temas sobre saúde poderia desempenhar um papel maior na luta contra a violência, diz o estudo “Mudar normas sociais e culturais que favorecem a violência”, da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Por outro lado, a exagerada vitimização das mulheres na mídia confunde a percepção da situação real, com demonstra o artigo “Influencia da violência mediática na juventude”, publicado pela Sociedade de Psicologia Norte-americana. O problema, além do mais, é exacerbado pela falta de representação feminina nos meios de comunicação e pela deformação de seu papel social.
A organização Media Monitoring Africa, que promove um jornalismo justo, critica a falta de mulheres na mídia e o tipo de tratamento que recebem, em geral como vitima sou como familiares de alguém. “A influência das mulheres no jornalismo é um dos temas centrais das investigações”, diz o estudo “The Gender of Journalism” (O gênero do jornalismo), realizado por Mônica Djerf-Pierre na Suécia.
A Suécia ocupa um destacado quarto lugar no índice sobre situação de gênero elaborado pelo Fórum Econômico Mundial. Mas mesmo nesse país “o setor jornalístico continua dominado por homens’. As mulheres constituem metade dos profissionais, segundo o estudo, mas três de quatro chefes são homens. Em outras nações, a situação é pior. Os direitos de comunicação devem fazer parte desses esforços, disse Jac SM Kee, coordenadora de Assessoramento pelos Direitos das Mulheres, da Associação para o Progresso das Comunicações.
A organização reclama a incorporação das tecnologias da comunicação e da informação à luta contra a violência e que atenda as intersecções entre os direitos de comunicação e das mulheres, vinculados a este problema. Mona Azzalini, do Global Media Monitoring Project (Projeto Global de Observação de Mídias) se referiu à pesquisa mundial que realizará no ano que vem sobre a participação das mulheres nos meios de comunicação. A iniciativa “promove uma mudança na forma como se descreve as mulheres” e a criação de uma “rede de organizações” para lutar contra a discriminação e os estereótipos.
O último estudo, feito em 2005, concentrou-se em quatro assuntos: representação das mulheres como sujeitos de informação, as jornalistas, o conteúdo das noticias, incluídos casos de estereótipos e de discriminação, e práticas jornalísticas. O estudo de 2010 é comparado com o de 2005, que mostrou que 21% das fontes são mulheres e que 83% dos especialistas citados são homens. Além disso, a perspectiva feminina é escassa: 14% das fontes políticas consultadas são mulheres e 20% em matéria econômica. Inclusive em questões de violência contra a mulher, 64% das vozes ouvidas são masculinas.
“Ser vitima significa debilidade, e debilidade significa violência. A mídia ama a violência”, disse Laila Al Shaikhli, apresentadora da rede de TV pan-árabe Al Jazeera, que se referiu à dificuldade de realizar uma reportagem quando as mulheres são reticentes a falar e elas mesmas participam de um ciclo de discriminação, educando seus filhos com os mesmos modelos. O resultado disto é que a imagem das mulheres fica distorcida. Na Itália, por exemplo, “80% das pessoas formam sua opinião com base na televisão”, disse a vice-presidente do Senado italiano, Emma Bonino.
“E não estou satisfeita em como as imagens das mulheres são transmitidas em nossos meios de comunicação. É uma imagem humilhante. Não há mulheres trabalhadoras. O papel da mídia é uma parte importante de qualquer estratégia que queira lançar-se para combater a violência contra a mulher. Não é marginal ou complementar, é essencial formar a ideia das mulheres”, acrescentou. O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, controla cerca de 90% das audiências da televisão através de seu império Mediaset e a televisão estatal RAI.
A embaixadora da África do Sul na Itália, Thenjiwe Mtintso, falou do ponto de vista de uma ativista de gênero e ex-jornalista durante o apartheid (sistema de segregação racial contra a maioria negra) sobre a definição do que é notícia e quem a transmite. Não são as mlheres, disse. E isto é algo que precisa mudar para que acabe a violência, ressaltou.
O desafio de informar
Durante a conferência a IPS lançou o manual “Informando sobre violência de gênero”.
“A violência contra as mulheres apresenta particulares desafios para os meios de comunicação e a sociedade pela forma com que é reduzida à esfera privada, frustrando as discussões públicas e sufocando o debate na mídia. Apesar disso, estes têm o potencial de jogar um papel de liderança em mudar as percepções”, diz a introdução feita pela diretora da IPS para a África, Paula Fray.
O manual se refere a temas com as práticas religiosas e tradicionais daninhas, a violência doméstica, a violência sexual e de gênero, o feminicídio, o trabalho, o tráfico e o assedio sexual, os conflitos armados, a aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida), o abuso infantil, o papel das mulheres, o sistema de justiça penal e o custo da violência de gênero. Contém historias reais que ilustram como estes temas e estas tendências podem ser abordados pelos meios de comunicação. ( IPS/Envolverde)
* Miren Gutiérrez é editora-chefe da IPS

