Caracas, 27/11/2009 – Venenoso, voraz e fecundo, o peixe-leão (Pterois voligtans), originário do oceano Pacífico, incursionou com força como espécie de fora nas águas do mar do Caribe e do golfo do México, ameaçando alterar ecossistemas, tradicionais bancos de pesca e áreas de mergulho mais além, no Atlântico norte e sul.
“É um peixe bonito, atraente, que chega a medir 45 centímetros de comprimento, de corpo colorido com tons vermelhos e pardos com listas brancas, além de chamativas barbatanas dorsais junto às quais possui, assim como na região anal e pélvica, perigosas espinhas venenosas”, descreveu à IPS o biólogo Juan Posada, responsável pelo departamento de biologia de organismos da Universidade Simon Bolívar, de Caracas.
Em 2004, fio encontrado nas Bahamas, em 2007 em Cuba e nas ilhas Turcas e Caicos, em 2008 no Haiti, República Dominicana, Porto Rico, Belize e na ilha colombiana de San Andrés, e em 2009 no México, Honduras, Costa Rica, Panamá e, em setembro e outubro, nas ilhas holandesas de Aruba e Bonaire, diante da costa nordeste da Venezuela.
“Pode ter chegado também vindo nas águas de lastre de algum navio mercante, mas é menos provável. As populações de peixe-leão provavelmente descende dos que fugiram do aquário e avançam graças às suas características e porque no Atlântico não têm predadores naturais, como os grandes peixes do Pacífico”, disse Posada.
O peixe “é extremamente versátil e sem predadores progride com facilidade diante de outras espécies. Em primeiro lugar é críptico, habita preferencialmente entre arrecifes de coral, onde espera outros animais que nem mesmo o reconhecem como um peixe, abre a boca e come tudo o que passa pela frente”, disse à IPS Oscar Lasso, icitiologista da Fundação de Ciências Naturais La Salle, da Venezuela.
Mas pode viver ainda a 175 metros de profundidade, e ao crescer é praticamente imune por estar eriçado de espinhos venenosos. De preferência come pequenos peixes, invertebrados, filhotes de lagosta, que são abundantes devido à proibição de sua pesca em diversas áreas do Caribe, e é particularmente voraz, ameaçando áreas de pesca inteiras. “Pode aumentar até 30 vezes o tamanho de seu estômago. Dentro de um exemplar capturado nas Bahamas foram encontrados 17 filhotes de pargo, de três centímetros. Se no Pacífico um adulto chega a 38 centímetros de comprimento, no Caribe são encontrados exemplares com 45 centímetros, o que dá uma ideia de seu êxito como espécie invasora”, alertou Lasso.
Além disso, destacou o especialista, é extremamente fecundo. Uma fêmea, como ocorre com outras espécies, pode por um milhão de ovos, e como em casos semelhantes, os ovos podem ser devorados, mas os do peixe-leão têm mais oportunidade de sobreviver porque as fêmeas não desovam em temporadas, mas durante todo o ano. Os ovos, fecundados, flutuam e se espalham ajudando os filhotes a irem cada vez mais longe. “Por experiência, é praticamente erradicar a espécie, chegou para ficar, será preciso conviver com o problema e tentar manejá-lo”, disse Posada.
A dificuldade para seu manejo está nas fortalezas do peixe, incluído o veneno protéico que fica em uma espécie de cápsula entre as duas púas de cada espinho e que é disparado ao simples contato com o mais longo deles. Embora o veneno não seja letal para humanos, produzi intensa dor na área afetada, e geralmente náuseas, vomito, enjôos, dor de cabeça, ansiedade e, talvez, influa em arritmias, com efeito durante horas e até dias”, explicou Posada.
Entre os cuidados básicos para os afetados estão limpar a ferida com soro salino para eliminar restos de espinhos e glândulas venenosas, tomar um analgésico e mergulhar a área afetada em água o mais quente possível durante 30 minutos, pois o veneno se desnaturaliza com o calor, aconselha Posada. “O mesmo principio de desnaturalizar o veneno funciona para que captura um peixe e deseja comê-lo, pois é comestível, sua carne é boa, mas não chega a substituir espécies próprias do Atlântico e do Caribe, que destrói”, acrescentou. Inclusive, Posada brincou dizendo que “pensamos que uma maneira de propiciar sua redução é espalhar o boato de que sua carne é um poderoso afrodisíaco”.
Lasso chamou a atenção para a força destruidora de espécies estrangeiras introduzidas, de maneira acidental ou pelas águas de lastre (usada para estabilizar os navios) das embarcações mercantis, tomadas no local de partida e descarregada sem maiores controles, no passado, nos portos de destino. Assim chegou, por exemplo, o blenio hocicudo (Omobranchus punctatus), possivelmente levado para Trinidade por cargueiros desde a Índia no século XIX, detectado no golfo de Paria que separa essa ilha da Venezuela, há cerca de 80 anos e que compete pelo habitat, embora não com a voracidade do peixe-leão, desde o litoral do México ao do Brasil.
Os ictiologistas apostam na informação aos pescadores, para mergulhadores esportivos ou profissionais, para autoridades, navegantes, comunidades litorâneas e consumidores, sobre os riscos da introdução de espécies de fora. O exemplo, na Venezuela com em dezenas de outros países, é o da tilápia, em sua variedade negra ou de Moçambique (Oreochromis mossambicus) ou hídrica de quatro variedades que a produz vermelha ourosada, e que teve impacto negativo na fauna aquática de rios, lagoas, lagunas e estuários.
Lasso recordou que quando há algumas décadas foram introduzidos 800 exemplares da variedade moçambicana na lagoa de Patos, no nordeste venezuelano, existam nesse pequeno corpo de água outras 30 espécies de fauna aquática. Cinco anos depois, 80% delas haviam desaparecido.
Os pesquisadores insistiram que “a presença e introdução de espécies de fora, como mascotes, para contemplação, decorativas ou com propósito de fazer dinheiro rapidamente, como foi o caso da tilápia, costuma ter efeitos prejudiciais para o entorno e, lamentavelmente, o peixe-leão seguramente ajuda nisso”. Sobre quanto afetará o Caribe, sua pesca e seu turismo, ainda não é possível prever. Apenas acaba de aparecer um novo pirata neste mar povoado de historias de pirataria. (IPS/Envolverde)


