SERRA LEOA: novo começo para pequenos agricultores?

Distrito da Kambia, Serra Leoa, 30/11/2009 – Chamam-lhe “Marie Nerica”, referindo-se a uma nova estirpe de arroz. Mas quando a nova estirpe de arroz, desenvolvida pelo galardoado investigador da Serra Leoa, Monty Jones, foi introduzida na sua zona pelo Ministério da Agricultura, Maria Kamara não quis saber dela. Eventualmente, experimentou plantar alguns alqueires ao lado das variedades locais, e está encantada com os resultados.

“Cultivo agora um terreno com cinco hectares e produzo tanto que estou a vender (o arroz) ao governo como semente para outros agricultores. Também vendo ao público e pago a outros agricultores que trabalham na minha propriedade agrícola,” disse Kamara.

“Resistimos todos ao novo arroz porque vinha dos brancos e estávamos preocupados com o facto de não termos os competências para o cultivar; além disso, não queríamos perder toda a estação numa cultura experimental, especialmente se se viesse a tornar um fracasso.”

Kamara é um dos milhares de agricultores da Serra Leoa que estão a beneficiar de uma renovada importância atribuída ao trabalho de extensão agrícola por parte do Ministério da Agricultura da Serra Leoa.

Novo plano para a agricultura

O Ministro da Agricultura, Dr. Sam Sesay, está a tentar dirigir o trabalho do Ministério de acordo com os quatro pilares do Programa Abrangente de Desenvolvimento Agrícola em África da União Africana (CAADP): investigação agrícola, melhor acesso aos mercados, aumento da produtividade dos pequenos agricultores e expansão de uma melhor gestão da terra e de sistemas de distribuição de água seguros.

Recentemente, o país assinou um acordo a nível do CAADP, adoptando formalmente a iniciativa da União Africana, elaborada em Maputo em 2003, que visa assegurar o desenvolvimento agrícola africano como catalisador para o crescimento sócio-económico. Em termos gerais, o objectivo do CAADP é eliminar a fome e reduzir a pobreza através da agricultura.

A implementação ministerial do CAADP, segundo Sesay, efectuar-se-á através do Plano Nacional de Desenvolvimento de Agricultura Sustentável (NSADP). “A boa notícia acerca do NSADP é que inclui temas transversais como o género e a juventude.” Numa entrevista concedida à IPS, Sesay explicou que se estava a dar prioridade às mulheres porque na Serra Leoa a maioria dos agricultores eram mulheres, sendo elas que produziam a maior parte dos alimentos no país, usando metódos e ferramentas tradicionais, enquanto os seus parceiros masculinos geralmente controlavam o cultivo de culturas destinadas à exportação, geradoras de rendimento.

“Isto quer dizer que as (mulheres) estavam em desvantagem,” disse o Ministro da Agricultura “e, por esse motivo, integrou-se a mecanização no primeiro sub-programa do NSADP, de forma a aumentar a produtividade através de tecnologias apropriadas.

Brima J Bangura, Director Assistente de Expansão e Operações no Terreno do Ministério da Agricultura, disse que Kamara e outras mulheres na sua área não eram as únicas na mira do Ministério.

“Temos como objectivo 195 organizações compostas por agricultores em todo o país e a maior parte destas organizações são sobretudo grupos de mulheres. Entregamos-lhes tractores, cultivadoras, transplantadoras, culturas alimentares como arroz, milho e mandioca, culturas destinadas à exportação como castanha de cajú, café e cacau. Também distribuimos fertilizantes e insecticidas,” disse Bangura à IPS.

Resultados desencontrados nesta fase

Marie Kargbo, que planta arroz em seis hectares no distrito de Kambia, diz que recentemente começou a receber total apoio do governo.

“O governo enviou um tractor que lavrou a minha propriedade e as dos membros da nossa associação; tembém nos entregou dois alqueires de sementes de arroz, fertilizantes e pesticidas.”

Kargbo é chefe de uma organização composta por agricultores com 54 membros, e também presidente da Ala das Mulheres do Congresso de Todos os Povos na Kambia. “Antes, a vida das mulheres agricultoras era muito difícil, mas agora a produção de arroz tem sido bem sucedida porque temos recebido insumos do governo, desde sementes de arroz até cultivadoras, fertilizantes e pesticidas.”

Embora viva no mesmo distrito, a experiência de Marie Kamara tem sido um pouco diferente.

“Deram-me um tractor no ano passado depois de exercer pressão sobre o Ministério. Quando chegaram com o tractor, já tinha contratado pessoas para lavrar a terra, porque pensei que o tractor nunca mais chegava e a chuva já tinha começado a cair,” explicou.

‘Prometeram-nos que iriam entregar um tractor, mas quando estes vieram para o distrito, não recebi nada, só um pequeno número de pessoas é que foram selecionadas e autorizadas (a usar) os tractores.”

Tem outra queixa. “Agora, preciso de um armazém para guardar o arroz depois da colheita. Também preciso de uma debulhadora, porque a Nerica é difícil de debulhar. Tivemos pesadas perdas depois da colheita, que eu não posso continuar a ter se quiser ser uma agricultora comercial sustentável.

Atenção aos detalhes

As observações de Kamara sublinham o cuidado que é necessário ter com a prestação de apoio agrícola bem sucedido aos agricultores.

Maseray Conteh, agricultora de arroz em Makeni, disse à IPS que, na sua zona, as pessoas efectivamente recebem ajuda do Ministério. No princípio do ano, os tractores limparam os seus três hectares de terra para cultivo.

“O arroz cresceu muito bem e, na altura da colheita, consegui obter a ceifadora combinada do Ministério mas, infelizmente, a máquina estragou o meu arroz. Só consegui salvar 40 alqueires de arroz, por comparação aos 70-80 alqueires que colho manualmente,” lamentou-se.

“Disseram-me que, se tivesse plantado o arroz em filas, a ceifadora não causaria estragos. Espero que nos mostrem como plantar em filas.”

O Ministro da Agricultura, Sam Sesay, diz estar consciente dos desafios. “Todas estas situações já existem há muito tempo e agora estamos a tentar ultrapassá-las,” declarou.

“Estas lacunas serão resolvidas em breve. O NSADP está na sua fase inicial e, quando estiver implementado em pleno, vai resolver todos os problemas que os agricultores estão a sentir agora.”

O Ministro sublinhou que os objectivos do NSADP eram aumentar a produtividade agrícola, promover a agricultura comercial através do uso do sector privado, melhorar a distribuição dos serviços de investigação e extensão agrícolas e encorajar a gestão eficaz e eficiente dos recursos.

No orçamento do próximo ano, perto de $2.5 milhões de dólares serão encaminhados para um maior número de organizações compostas por agricultores – 442 –, por comparação às 195 que fazem parte do projecto neste momento.

Sesay disse que, em conformidade com o NSADP/CAADP, já tinham desenvolvido um sistema de comercialização para pequenos agricultores, referindo que se trata de “um programa especifico que pode atrair os grupos de agricultores, particularmente mulheres, a funcionarem gradualmente como companhias de responsabilidade limitada e a tornarem-se a espinha dorsal do sector privado na Serra Leoa.”

“Em breve organizaremos formação sobre indústrias agro-alimentares para que estas mulheres sejam capazes de funcionar como entidades comerciais colectivas.”

“Isto vai ter que mudar. Vamos concentrar a nossa atenção na irrigação e os nossos agricultores, a maioria dos quais são mulheres, vão poder cultivar pelo menos três vezes por ano enquanto reabilitamos as infra-estruturas de armazenagem e transformação.”

Marie Nerica e milhares de mulheres agricultoras na Serra Leoa estão à espera que o o NSADP seja implementado até aos mínimos detalhes, oferecendo à agricultura do país um novo rosto.

Mohamed Fofanah

Mohamed Tiamieu Fofanah is a freelance journalist. He contributed articles on politics and national affairs to Awoko newspaper and several magazines in Sierra Leone. Mohamed lives in Freetown, Sierra Leone.

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