ADIS ABEBA, 30/11/2009 – Cerca de 100 milhões de pessoas em África sofrem de esquistossomíase, uma doença crónica causada por um parasita associado a caracóis de água doce. O verme esquissoma causa uma doença debilitante que pode danificar os orgãos internos e impedir o crescimento e o desenvolvimento cognitivo das crianças. Os impactos sócio-económicos negativos desta condição só são ultrapassados pela malária, apesar de poder ser controlado por uma única dose anual do medicamento praziquantel.
Sanaa Botros, professora de farmacologia no Ministério de Investigação Cientifica egípcio, é uma das principais investigadoras do tratamento da esquistossomíase e de outras doenças tropicais.
Foi uma das cinco mulheres recentemente reconhecidas pela União Africana pelos seus contributos científicos.
IPS: Quais são alguns dos resultados da sua pesquisa?
SANAA BOTROS: (Durante muito tempo no Egipto), o único medicamento disponível para tratar a esquistossomíase era importado. Uma empresa local desenvolvou um medicamento para esta doença. Procedi à comparação com o medicamento importado e demonstrei que ambos tinham um efeito curativo. Agora estamos a usar em todo o país o medicamento produzido localmente, o que poupou muito dinheiro ao país.
Penso que, quando podemos dizer ao governo que o medicamento produzido em casa é idêntico ao importado para tratar a doença, é um grande feito.
Parte da minha outra pesquisa debruçou-se sobre um dos medicamentos introduzidos recentemente para a esquistossomíase, cujos fabricantes afirmavam que tinha uma taxa de cura de 98 a 100 por cento.
Quando estudei o medicamento, verifiquei que não era eficaz. Com base no meu relatório, o governo suspendeu a distribuição deste medicamento e um outro país africano desistiu do seu plano de aquisição do medicamento.
IPS: A senhora é membro da Rede Africana de Medicamentos e Inovações no Diagnóstico (ANDI). Qual é a finalidade desta rede?
SB: Quando iniciámos este trabalho, encontrámos uma grande capacidade dispersa, sem articulações.
Posso estar a fazer um bom trabalho (sobre a esquistossomíase) no Egipto, mas outra pessoa na África do Sul pode não saber nada sobre mim ou sbore aquilo que estou a fazer. Temos excelentes relações de trabalho com países como a Nigéria e a Guiné, especialmente sobre a malária. Mas estes esforços não estão harmonizados.
Para os cientistas africanos, é muito importante harmonizar estes esforços.
IPS: Algumas pessoas dizem que a União Africana tem descurado a área da investigação tecnológica e científica. Partilha dessa ideia?
SB: Na verdade, acredito que essa atitude está a mudar bastante. Verifico que isso se passa ao nível da ANDI. Estamos a trabalhar há perto de um ano e agora estamos em vias de formular um plano de negócios para implementação. Posso dizer que há a percepção que, se não promovermos a ciência e tecnologia ao nível da União Africana, não vamos conseguir ter desenvolvimento.
IPS: Na sua opinião, quais foram as consequências da reduzida prioridade atribuída à ciência até agora?
SB: Não pode haver desenvolvimento se não se focar a investigação, ciência e tecnologia.
IPS: Como é que vê o papel das mulheres na área da investigação cientifica em África?
SB: No meu instituto, assim como no Egipto, temos uma elevada percentagem de mulheres cientistas. Mas isso não quer dizer que esteja tudo bem.
Temos vereadoras, mulheres polícia e mulheres a trabalhar em campos diferentes. Mas também temos problemas a nível da representação das mulheres no parlamento.
A nível africano, julgo que nós, as mulheres, temos de envidar muito mais esforços para assegurar que o nosso papel aumente. Sei que muitas organizações não governamentais trabalham em prol da autonomização das mulheres em África. Mas não temos criado articulações suficientes entre os diferentes países.
IPS: Qual foi o período mais difícil da sua carreira?
SB: Quando iniciei a minha profissão como jovem cientista, depois de ter feito o meu doutoramento. As pessoas não me conheciam, e quando lhes pedia para patrocinarem a minha investigação, rejeitavam-me, perguntando “Quem é a Sanaa Botros do Egipto?”.
Penso que o facto de ser africana e mulher contribuiu, em parte, para tal situação.
IPS: O que é que o prémio da União Africana significa para si?
SB: Tem um enorme sigfnificado, porque a apreciação e o reconhecimento do continente significa que África está a olhar para mim e isso motiva-me a fazer mais e ter a consciência que o continente espera mais de mim.
Quando trabalhamos como farmacêuticos nos laboratórios, não nos sentimos recompensados porque não vemos os doentes a serem curados, como acontece com os médicos. Isto representa uma recompensa.
IPS: Se as raparigas das aldeias rurais ou de bairros pobres nas zonas urbanas algures em África lhe perguntarem como é que podem seguir os seus passos, o que é que lhes diria?
SB: Façam tudo para terem educação. Felizmente, quando era criança e jovem, tive excelentes professores, que incentivaram os meus interesses, o que me ajudou imenso a chegar à situação que actualmente tenho.
Portanto, julgo que os professores são personalidades fundamentais que influenciam o futuro das raparigas africanas.

