EDUCAÇÃO-ZÂMBIA: bicicletas ajudam as raparigas a irem mais longe

NDAPULA, Zâmbia, 30/11/2009 – Nove quilómetros para ir e para vir, faça chuva ou faça sol. É essa a distância que Suzanne Chisulo tem de andar todos os dias para ir à escola. Chisulo é uma das 120 raparigas que têm problemas para chegar à Escola Comunitária de Ndapula. Muitas das raparigas faltam às aulas pelo menos duas vezes por semana. “Não podemos culpá-las por não estarem presentes,” disse com compreensão Amos Muliswa, coordenador da escola em Ndapula, apontando o dedo para as acidentadas colinas cobertas por uma distante neblina azul. “É dali que a Suzanne e as outras raparigas vêm, da aldeia de Kapilipili, a nove quilómetros de distância.” A distância foi o factor que forçou Muliswa e um punhado de pais, entre os quais os chefes da aldeia, Kachepa, Chikwampu, Chitumbo e Kalimakwenda, a construírem a escola em 2003. Naquela altura, a escola mais perto estava localizada a 30 quilómetros de distância. Estima-se que só 20 por cento das crianças que entram na escola primária nas zonas rurais da Zâmbia eventualmente completam o décimo segundo ano. A principal razão para esta situação são as longas distãncias que as crianças têm de percorrer para ir e vir da escola. As raparigas como Chisulo enfrentam o risco adicional de violação durante o caminho para as aulas. “Algumas crianças andam 20 quilómetros por dia para irem para a escola; no total, gastam mais de cinco horas na estrada. Durante este período, estão sujeitas a abusos verbais, insultos e mesmo ataques fisícos se forem raparigas,” disse à IPS o Ministro Adjunto da Educação da Zâmbia, Clement Sinyinda. Esta situação não acontece só na Zambia, mas em toda a África rural. O impacto do abandono escolar precoce, especialmente entre as raparigas, é severo. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) refere que, em todo o mundo, as raparigas que terminam a sua educação formal não só recebem salários mais altos, mas também é mais provável que levem os filhos a vacinarem-se, lhes proporcionem melhor nutrição, e tenham taxas de mortalidade infantil e materna mais baixas quando comparadas com as parceiras que não conseguiram acabar a escola primária. A académica zambiana, Elizabeth Mumba, afirma que as raparigas que completam o ensino superior estão mais capacitadas “para participarem plenamente no desenvolvimento económico e social do país, e dele beneficiarem”, além de conseguirem proteger-se melhor contra o VIH/SIDA. Kazuko Otsu, investigador convidado da Universidade de Educação de Hokkaido, no Japão, observou que “as longas distâncias na Zâmbia entre casa e escola, e a falta de saneamento adequado para as raparigas, podem constituir factores importantes que afectam o lado da oferta. Além disso, o assédio sexual pelos rapazes mais velhos e professores parece ser um problema grave nalgumas escolas.” Para ajudar as raparigas a evitar este destino, a Ajuda Mundial em Bicicleta, uma organização sediada em Chicago, chegou a África com uma iniciativa que vai ajudar muitas raparigas a, pelo menos, completarem o nono ano do ensino formal. Recentemente, a Escola Comunitária de Ndapula tornou-se a primeira escola no continente a beneficiar deste programa, quando chegou um camião com 100 bicicletas que foram distribuídas – a maior parte delas a raparigas que vivem em aldeias remotas. Suzanne Chisulo foi das primeiras recipientes.

Olhe lá, essa é a minha bibicleta. Moses Nyeleti, dono de uma mercearia na aldeia de Kalimakwenda, observou que a bicicleta não só iria permitir a sua filha Agnes chegar à escola rapidamente como também iria ajudá-lo a trazer mercadorias para a loja da família, levar produtos agrícolas para o mercado mais facilmente, carregar água do poço na aldeia mais próxima e levar parentes doentes à clínica. Mas as bicicletas são ‘propriedade com encargos’ no sentido que não devem ser usadas abusivamente. ‘Para chegar até aqui, tive de pedir autorização à minha filha e explicar o significado da viagem’ explicou Nyeleti. Andrew Chengo, agricultor de algodão na aldeia de Chikwampu, cujo filho de 10 anos também recebeu uma bicicleta, acrescentou que as bicicletas não podem ser usadas para excursões de bebida. “Logo que eles encontram a bicicleta parada fora de um bar confiscam-na. Também não pode ser usada para ir buscar sacos de carvão ao mercado,” declarou Chengo, que acrescentou, “Esta bicicleta é regida por regras!”

“Antes de receber a bicicleta costumava acordar às quatro da manhã para chegar à escola com as minhas amigas antes das sete, quando começam as aulas. A viagem era especialmente má porque, às vezes, encontrávamos rapazes maus que nos perseguiam e forçavam aquelas que eram apanhadas a fazer coisas más,” explicou Chisulo com muito embaraço.

Rita Daka, uma orfã que vive com a avó na aldeia de Kapilipili, admitiu que, antes de receber a bicicleta, costumava estar tão cansada depois de ir e vir a pé da escola que não tinha vontade de ir à escola no dia seguinte.

“Com a nova bicicleta, posso ir à escola com regularidade,” disse. O projecto está a ter um bom começo.

Lewis Mwanangombe

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