Direitos Humanos: Recrudesce a repressão contra minoria árabe no Irã

Washington, 12/05/2005 – Pelo menos 50 pessoas da minoria árabe no Irã morreram vítimas da repressão contra os protestos registrados em abril na província de Khuzestão, afirmou a organização de direitos humanos Human Rights Watch. O informe foi divulgado nesta terça-feira, enquanto cresce a tensão entre o governo dos Estados Unidos e o regime iraniano, que desde 1979 segue ao pé-da-letra as normas do Islã xiita. A HRW exigiu de Teerã que admita no Khuzestão, na fronteira com o Iraque, a presença de jornalistas independentes e observadores ligados aos direitos humanos.

A organização, com sede em Nova York, também reclamou a imediata libertação do jornalista iraniano de ascendência árabe Yusuf Azizi Banitaraf. Ele foi preso em Teerã no dia 25 de abril, em uma entrevista coletiva convocada pelo independente Centro para a Defesa dos Direitos Humanos para chamar a atenção para os abusos oficiais cometidos no Khuzestão. "As autoridades iranianas novamente demonstraram sua disposição em silenciar os que denunciam violações de direitos humanos", afirmou a Divisão para o Oriente Médio da HRW. "Temos informação séria de que o governo utilizou força letal, realizou prisões arbitrárias e tortura no Khuzestão", acrescentou a organização.

A violência se concentra na capital da província, Ahwaz, mas se propagou a outras cidades. A repressão começou no dia 15 de abril e continuou durante toda a semana seguinte. Como a província esteve fechada, a imprensa estrangeira, organizações de direitos humanos e outros observadores dependeram de informes do governo e de moradores locais para poder fazer seu trabalho. Os protestos começaram pela circulação de uma carta aparentemente escrita há sete anos e atribuída ao então vice-presidente Mohammad Ali Abtahi, na qual defendia a retirada dos árabes dessa região, rica em petróleo e gás, e do assentamento de persas no local. Tanto o governo quanto Abtahi garantem que a carta é falsa.

De acordo com diversas informações, os manifestantes, cerca de 400 dos quais foram presos, saquearam edifícios do governo e delegacias de polícia e iniciaram incêndios. Sites de oposição na Internet afirmaram que 160 pessoas foram mortas nos incidentes, mas o governo insiste que apenas cinco morreram. Houve aproximadamente 1.200 prisões, segundo fontes locais da HRW. Teerã atribuiu os distúrbios a "estrangeiros" e "hipócritas", numa referência à organização rebelde Muhjahidin-e-Khalq (MEK), mantida pelo ex-presidente iraquiano Saddam Hussein até sua detenção há dois anos. O vínculo deste grupo com as forças de ocupação norte-americana no Iraque é ambíguo. Especialistas regionais indicam que os árabes do Khuzestão têm razões para estarem descontentes com o governo central.

Porém a proximidade da província com o Iraque e a crescente tensão entre Irã e Estados Unidos acrescentam mais lenha à fogueira. A velocidade com que o governo do presidente George W. Bush condenou a repressão iraniana ajuda a consolidar essa percepção. "Do nosso ponto de vista, essa preocupação e as prisões têm a ver com a negação dos direitos das minorias no Irã", disse o porta-voz do Departamento de Estado, Adam Ereli. "A supressão dos direitos das minorias obviamente deve ser denunciada", acrescentou. Washington, que ainda não adotou formalmente a "mudança de regime" como sua política oficial para o Irã, está cada vez mais convencido – apesar das gestões de Alemanha, França e Grã-Bretanha – de que Teerã está decidido a adquirir armas nucleares, eventualidade que Bush considera "inaceitável".

O pessimismo a respeito das negociações entre Irã e os países europeus e diante das dificuldades de impor sanções pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, levaram o governo norte-americano a examinar ataques militares contra alvos considerados de importância nuclear para Teerã. A revista New Yorker informou no ano passado que os Estados Unidos haviam infiltrado guerrilheiros do MEK no Irã para localizar essas instalações com vistas a um ataque. Uma operação desse nível seria uma opção de alto risco, e contraproducente, pois desataria uma onda de apoio ao regime islâmico, afirmou o próprio Richard Perle, um falcão neoconservador próximo do vice-presidente, Dick Cheney, e do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld.

A ala neoconservadora do governo norte-americano se inclina por incentivar uma mudança de regime, e confia na possibilidade de surgir um movimento pró-democracia semelhante ao Sindicato Solidariedade, artífice da queda do comunismo na Polônia, ou à Revolução Laranja da Ucrânia, triunfante no ano passado. O Congresso dos Estados Unidos já destinou vários milhões de dólares para esse fim, e o Departamento de Estado começou na semana passada a receber propostas e solicitações de organizações que utilizariam esse dinheiro. Setores de linha ainda mais dura dentro do governo em Washington propõem ações encobertas com um apoio mais ativo do MEK e promovidas através de distúrbios a cargo de comunidades minoritárias encobertas que constituem a metade dos 70 milhões de habitantes do Irã.

Entre estas figuram os árabes do Khuzestão, os turcomanos do nordeste, os tayikos ao longo da fronteira com o Afeganistão, os baluchistaneses da fronteira com o Paquistão, os azeríes e curdos do noroeste e os árabes awazi. Além disso, no Khuzestão já foram registrados distúrbios no Baluchistão e no Curdistão iraniano. Os árabes do Khuzestão constituem hoje, depois de uma forte imigração persa, a metade da população, mas sofrem dificuldades econômicas, desemprego desproporcional e discriminação. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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