COMÉRCIO: cada um defende seu jogo

Genebra, 03/12/2009 – Bastaram três minutos para o representante comercial dos Estados Unidos, Ron Kirk, descrever a situação do comércio internacional e fixar a posição de seu país em uma negociação que soma oito anos, mas que é insuficiente para forjar um acordo.

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A cada ministro foram concedidos três minutos para apresentar sua posição na Sétima Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio, que terminou ontem em Genebra.

Esta reunião aconteceu com atraso de dois anos. Deveria ser realizada a cada dois anos, mas os ministros pularam uma depois da realizada em Hong Kong em 2005. A rodada de conversações lançada em Doha em 2001 para definir uma série de regras que levem à liberalização do comércio mundial ainda não desembocou em um acordo. Muitos pensaram que três minutos seria muito pouco para os ministros descreverem as complexidades desta paralisação que boa parte do mundo atribui à inflexibilidade dos Estados Unidos.

Depois do habitual protocolo, Kirk usou parte de seus três minutos para dizer de modo sucinto e direto que o comércio “pode ter um papel importante no restabelecimento da prosperidade mundial”, referia-se, claro, à parte do mundo ocupada pelos Estados Unidos. “É necessária a criação de novos fluxos comerciais e significativas aberturas de mercados, particularmente em mercados emergentes-chave, para cumprir a promessa de Doha. Buscamos sinais concretos de que outros membros estejam prontos para unirem-se a nós nesse compromisso”, disse Kirk.

O Fundo Monetário Internacional informou que “58% do crescimento econômico mundial de agora até 2014 serão aportados por Brasil, China, Índia, Argentina, África do Sul e os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean)”, recordou Kirk. Mas os Estados Unidos querem muito mais acesso aos mercados das nações em desenvolvimento (particularmente das economias emergentes) do que elas estão dispostas a permitir. Automóveis da General Motors inundando as ruas de Nova Déli e Xangai suporia um acordo melhor para os Estados Unidos do que para essas cidades, e não porque os carros ocupam muito espaço.

O argumento é que, se as mercadorias chinesas podem inundar os Estados Unidos, esse, por sua vez, deveria inundar esse mercado com as suas, devido ao crescente poder aquisitivo dos consumidores chineses. Durante muito tempo afirmou-se que era válido haver regras distintas para as duas partes, com base no principio de tratamento “comum mas diferenciado”. Agora, Washington vê mais pontos em comum do que divergências. Não há muitas esperanças de que o governo de Barack Obama consiga resultados que destravem a Rodada de Doha.

“Ainda esperamos pelo grande discurso de Obama sobre comércio”, disse à IPS Pradeep Mehta, secretário-geral da Cuts International, organização de acompanhamento de temas comerciais. “Sua posição é que está disposto, mas não pronto. Ainda não designou seu embaixador na OMC”, acrescentou. Washington precisa obter um acordo que possa “vender” internamente. Mas o mesmo acontece com todos os demais membros da OMC. “Basicamente, todos têm de voltar e vender um acordo” em seu país, disse à IPS Theresa Carpenter, diretora-executiva do Centro para o Comércio e a Integração Econômica, em Genebra.

“Não será uma situação com um ganhador e muitos perdedores. E dentro de cada comunidade nacional haverá alguns que se beneficiarão e outros que nem tanto”, afirmou Carpenter. Porém, apesar destas diferenças, ela se mostra otimista sobre uma eventual convergência. “Estamos perto de um acordo; não há um colapso total das conversações”, ressaltou. Além do jargão e dos opacos acrônimos que povoam os debates da OMC, descobrir quais são os problemas é muito mais simples do que se pode pensar, mas não é fácil resolvê-los.

Quando se diz que Washington adota uma posição rígida no tocante ao acesso ao mercado de produtos industriais (setor conhecido como Nama), o que está pedindo é que as economias emergentes aceitem reduzir ou eliminar as tarifas sobre importações de uma série de bens que aos Estados Unidos interessa particularmente vender. Isso porque parece improvável um acordo muito ambicioso. “As negociações sobre reduções tarifarias estão em uma fase na qual é muito difícil gerarem novas e importantes oportunidades de mercado para os exportadores norte-americanos”, disse à IPS Simon Evenett, professor de comércio internacional e economia na Universidade de St. Gallen, na Suíça.

“Eles dizem que isto não é suficiente. Ou reduzimos as tarifas – que não é muito do agrado geral fazer – ou mantemos uma série de negociações por setor onde tentamos uma tarifa zero, ou muito baixa. Os Estados Unidos pressionam muito agressivamente por essas propostas”, acrescentou Evenett. Segundo este especialista, o maior destes setores é o químico. “Cobre cerca de mil tipos diferentes de produtos. Os Estados Unidos buscam uma tarifa zero ou perto de zero nesse setor em particular”, ressaltou. Inevitavelmente, este é um tema importante tanto para Índia como para China, dois países com uma forte produção de medicamentos que podem sofrer um golpe se Washington abrir caminho dessa maneira.

Automóveis e autopeças são outro aríete que os Estados Unidos querem introduzir em Nova Déli e Xangai, com a General Motors e seus gigantes primos da debilitada indústria do transporte veicular. Outros tipos de bens que Washington quer vender sem tarifas são bicicletas, eletrodomésticos, eletrônicos, pescados e derivados, produtos florestais, gemas e jóias, máquinas industriais, vestuário e calçado. “Em todas estas áreas haverá proposta de tarifa zero. Mas, são apenas propostas. Isto não e aceito”´, disse Evenett. Naturalmente, referindo-se a Índia e China.

Em muitos destes setores, esses dois países têm uma forte produção que se reflete nas exportações. E ninguém quer comprar o que já fábrica e vende por si mesmo. “Comprar norte-americano” é uma prática polêmica inclusive dentro dos Estados Unidos. Para o resto do mundo, a ideia de evitar a produção própria e comprar a norte-americana não gera controvérsia: nem mesmo merece a pena ser considerada. (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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