ORIENTE MÉDIO: Israel pode demolir estádio palestino

Jerusalém, 04/12/2009 – O primeiro estádio nacional de futebol da Cisjordânia corre o risco de ser demolido se um tribunal israelense der razão a colonos judeus residentes nas proximidades, apesar de a construção ser financiada pela Federação Internacional de Futebol (Fifa), Alemanha e França. A Associação Palestina de Futebol pretendia inaugurar o estádio Faisal Husseini no final deste mês, mas as autoridades de Israel ordenaram a paralisação das obras. A construção ocupa 1,2 hectare no povoado cisjordano de El Bireh, junto ao assentamento judeu de Psagot, construído no começo dos anos 80 quando Israel começou uma política de colonização sobre as localidades palestinas.

O estádio praticamente concluído, com capacidade para oito mil pessoas, converteu-se, assim, no último exemplo de como se usa a burocracia para deixar de lado as aspirações palestinas na Cisjordânia ocupada por Israel há 42 anos. Os colonos nacionalistas judeus de Psagot objetam a construção do estádio e, de fato, a simples existência do povo palestino. Embora Psagot (cúpula, em hebreu) tenha se instalado em El Bireh na década de 80, para os colonos judeus são os palestinos que viveram como intrusos durante gerações na localidade onde fica o estádio.

Agora, os colonos decidiram dar mais um passo e não apenas objetar o direito dos palestinos de planejar suas vidas e de onde jogar futebol. Recorreram ao Alto Tribunal Israelense de Justiça de Jerusalém com o argumento de que o estádio ameaça o futuro desenvolvimento de seu assentamento. Até agora, a seleção nacional da Palestina estava obrigada a jogar suas partidas longe de sua terra natal, na Jordânia ou no Qatar. No mês passado, com toda festa o estádio realizou sua primeira partida internacional, em um encontro entre as seleções femininas da Jordânia e da Palestina. Ao jogo compareceram o primeiro-ministro palestino, Salam Fayyad, e o presidente da Associação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, destacada personalidade que esteve à frente do Aparato de Segurança Preventiva na Cisjordânia.

A Fifa financia a construção geral do estádio, enquanto Alemanha e França pagaram pela construção das arquibancadas. A infraestrutura, as luzes e o placar correm por conta do município de El Bireh, proprietário do terreno. Há um ano, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, colocou a pedra fundamental do estádio, junto com Fayyad. A jurisdição pelo território da Cisjordânia é fonte de batalhas legais, políticas, diplomáticas e inclusive armadas entre palestinos e israelenses, em geral pelos planos de Israel de expandir seus assentamentos, quase sempre ganhas por este último.

O futuro da Cisjordânia também foi o xis da questão dos acordos de paz de Oslo, celebrados em 1993. A zona, denominada “Área C” pelo tratado, permanece sob controle israelense até que se negocia a paz definitiva. Essa é a base atual da batalha jurídica e burocrática pelo estádio, vinte anos antes de Oslo, o município de El bireh solicitou autorização à Administração Civil Israelense, ou seja, às autoridades da ocupação, para concretizar o sonho de construir o Faisal Husseini. Sete anos depois, o Conselho Nacional de Planejamento e Construção e o Conselho Supremo de Planejamento de Israel deram sua aprovação definitiva. Entretanto, a saga do estádio não terminou ali.

Parece que o definitivo nunca o é nas batalhas entre colonos judeus e palestinos, mesmo quando o projeto tem apoio pleno da Fifa e aprovação do governo israelense. No dia 11 de outubro, funcionários da Administração Civil israelense, acompanhados por soldados, entregaram no estádio uma ordem de suspensão da obra. O documento diz que os trabalhos na arquibancada acontece “sem permissão. Pela presente, obriga-se, de acordo com a lei de Planejamento de 1966, a cessar a atividade e o uso sobre esse terreno, e a demolir o edifício e restaurar a localidade ao seu estado prévio no prazo de sete dias”. Foi advertido ao município de El Bireh que se não cumprir a ordem “serão tomadas todas as medidas legais contra a municipalidade, incluindo a demolição da estrutura, por conta do município”.

O terreno onde fica o estádio estaria dentro da zona definida como Área C , “uma designação política que supostamente seria temporária”, explicou à IPS Samih Al Abed, ex-ministro de planejamento da Autoridade Palestina e integrante das equipes de negociação de paz com Israel. Os colonos de Psagot, com apoio da Regavim – uma organização defensora dos assentamentos – solicitaram ao Alto Tribunal, em novembro, que ordenasse ao Ministério da Defesa israelense e à Administração Civil a demolição do estádio.

Diante do tribunal, os solicitantes apresentaram a hipótese de “10 mil palestinos enraivecidos saíssem ao fim de uma partida e desafogassem sua Irã ou frustração na vizinha Psagot”. Regavim se define como um “movimento apolítico dedicado preservar os terrenos estatais e os recursos territoriais nacionais”. O tribunal aprovou uma ordem judicial que congelou a continuação da obra até que o tema sega reconsiderado na próxima semana. Funcionários de El Bireh afirmam que a objeção ao estádio tem outros motivos. Veem uma conexão entre a ordem de suspensão da obra com outra medida adotada pelo governo israelense: o congelamento parcial dos assentamentos anunciado pelo primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

A Autoridade Palestina nega-se a voltar à mesa de negociação com Israel enquanto não cessar por completo a construção de assentamentos, inclusive na ocupada Jerusalém oriental. “É um caso típico de pressão israelense. O momento não é nenhuma coincidência. Como disseram, voltem a negociar ou os castigaremos. Faremos o que for preciso para perturbar suas vidas”, disse Samih al Abed. “Isto pode se converter em um importante problema diplomático entre Alemanha e Israel”, disse um funcionário alemão ao jornal Haaretz, de Telavive. “Imagine um projeto com financiamento internacional ser demolido. Seria um escândalo político”, ressaltou. IPS/Envolverde

Jerrold Kessel

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