COPENHAGA, 14/12/2009 – Poucos estão mais conscientes da devastadora herança que um fracasso implica do que os grupos de negociadores africanos que se encontram na capital dinamarquesa para alcançar uma posição final sobre as alterações climáticas. Quando as negociações se iniciaram no dia 7 de Dezembro, o Grupo Africano tinha divulgado números em linha com a posição dura adoptada na conferência preparatória de Barcelona, no mês passado.
“África exige cinco por cento do PIB das nações industrializadas todos os anos, devido à sua dívida histórica e à continuação de condições prejudiciais,” disse à IPS o presidente do G77, o sudanês Lumumba Di-Aping.
“Em termos gerais, estamos a falar de dois triliões de dólares todos os anos até 2050, destinados à adaptação, mitigação, e transferência de tecnologia.”
“Não pensamos que seja uma elevada quantia, visto que os Estados Unidos gastaram 2.2 triliões de dólares para salvar Wall Street.”
Lumumba transmitiu a exigência de uma grande redução das emissões.
“Muitos países não querem que as temperaturas subam além dos 1.5 graus centígrados,” disse à IPS, uma posição que prenunciou a traçada pela ilha-estado de Tuvalu, na sua controversa proposta depois da cimeira ter começado.
Os países desenvolvidos, assim como o Brasil, a África do Sul, a China e a Índia – que apresentaram um compromisso conhecido como Documento de Beijing -, estão relutantes em considerar trabalhar contra este objectivo preferindo, em vez disso, discutir medidas tendentes a manter o aquecimento global abaixo dos dois graus centígrados.
“Mas as alterações climáticas vão atingir África a 150 por cento da média mundial,” disse Lumumba. “Portanto, na realidade, teremos os efeitos de um aumento de 3 graus ou mais. Isto quer dizer que estamos a ser obrigados a aceitar uma injustiça.”
Na sua opinião, qual é a probabilidade de o mundo aceitar estas exigências surpreendentes? Lumumba: “Não aceitaremos que matem as nossas populações.”
O Grupo Africano tem um desafio nas mãos para apresentar uma posição unida em Copenhaga; ser solidário com o Grupo dos 77 e com o bloco da China será ainda mais difícil.
“Por agora, nada foi acordado,” disse Bisi Tapere, negociador da delegação nigeriana, sobre a posição conjunta do G77. “Às vezes, temos de concordar em divergir. Os venezuelanos afirmaram que discordavam do rumo proposto mas, no final, teremos de chegar a um consenso.”
Contudo, África não tem ferramentas para pressionar os países industrializados caso a exigência do continente seja rejeitada, admitiu Tapere.
Não prevê que as necessidades muito diversas dos países africanos ameacem necessariamente uma posição unida, nem mesmo para a Nigéria, o segundo maior exportador de petróleo em África, que corre o risco de perder dinheiro com as reduções de emissões de combustíveis fósseis.
“Não será bom para as nossas receitas, de modo nenhum,” diz. “Mas não me oponho às reduções que propomos. As receitas petrolíferas descerão, mas é mais importante ter receitas regulares do que a actual situação, em que cada país faz aquilo que quer. Se África estiver unida, no final, será bom para nós. A Nigéria não precisa de lutar só para si, estamos a lutar colectivamente para África. A nossa voz foi ouvida e vai ser mais ouvida ainda, visto que temos fortes ataques para lançar.”
Mas, com as negociações em andamento, os sinais são preocupantes. Os rumores de divisões no campo africano deviam ter sido resolvidos de forma decisiva numa série de conferências de imprensa convocadas pelo Grupo Africano que foram canceladas, o que sugere que os negociadores estão a deparar-se com dificuldades para encontrarem uma fórmula comum.
Quando a exigência constante num documento dinamarquês, que escapou para o domínio público, apelando a compromissos vinculativos por parte das economias emergentes, foi seguida pela proposta preliminar apresentada por Tuvalu no dia 9 de Dezembro, os países africanos mais pobres manifestaram de forma bem evidente o seu apoio. Países-chave como a China e a Índia recusaram categoricamente considerar a proposta.
Os negociadores africanos não excluíram a possibilidade de abandonarem Copenhaga se as suas exigências não triunfarem. “Não estamos a planear um abandono faseado como aconteceu em Barcelona,” disse Lumumba. “Vamos ouvir o que têm para dizer e apresentar os nossos contra-argumentos. No entanto, se não chegarmos a lado nenhum, não hesitaremos em levantarmo-nos e sairmos da sala.”
E se ninguém der ouvidos a África? Lumumba hesita: “É muito simples… então saberemos porque estamos a morrer.”

