BUKAVU, 07/01/2010 – As centenas de cooperativas de poupança e crédito que funcionam no Sul de Kivu deviam oferecer uma oportunidade para desenvolver a agricultura e combater a insegurança alimentar na província, mas poucos agricultores têm conseguido tirar partido dessa oportunidade. Félicien Zozo Rukeratabaro, promotor de direitos humanos da Acção Social e Rural, uma ONG sediada na principal cidade provincial, Bukavu, afirma que “Nem um único agricultor em pequena escala consegue ter acesso ao apoio financeiro ou ao crédito de qualquer destas cooperatives, que se preocupam essencialmente com transações especulativas e actividades que só lhes trazem benefícios imediatos.”
“Todas as cooperativas têm condições estruturantes para o acesso ao crédito. Mas, na maior parte das vezes, as garantias exigidas não podem ser providenciadas pelos agricultores em pequena escala que, frequentemente, são muito pobres”, disse à IPS.
“Como é que vamos ficar ricos? E como é que vamos conseguir produzir mais de forma a vender os excedentes e poupar ou pagar o crédito concedido – se não conseguimos obter o apoio financeiro inicial das cooperativas?”
A questão é colocada por Augustine Baliahamwabo, que produz “lenga-lenga”, um legume consumido em grandes quantidades no leste. Também produz mandioca na sua exploração agrícola, na aldeia de Kabare.
Baliahamwabo disse à IPS que “produz cerca de 500 kg de lenga-lenga e emprega três mulheres na aldeia que vendem o produto em Bukavu. Estas mulheres, cada uma das quais carrega cerca de 100 quilos de legumes à cabeça ou nas costas, caminham perto de 55 quilómetros de Kabare até Bukavu, ondem vendem os legumes por aproximadamente 25 dólares, obtendo um lucro de 10 dólares na venda do fardo de cada mulher.”
“Tudo o que preciso é conseguir pagar a mais agricultores e organizar a distribuição dos legumes e da mandioca que produzo em duas estações. Nesse caso, conseguiria produzir mais. Mil dólares permitir-me-iam tornar-me independente depois de um ano de trabalho,” explicou, indicando que emprega trabalhadores agrícolas diariamente.
Desde o início das guerras que têm assolado o leste da RDC, a província do Sul de Kivu tem conhecido a insegurança alimentar, particularmente devido à diminuição da produção agrícola.
“Nenhuma destas cooperativas se interessa por nós. Mas somos nós que alimentamos toda a cidade de Bukavu e também as nossas próprias aldeias,” afirma Jardon Ngabo Y'eka, produtor de batata doce e de cenoura em Ngweshe, uma aldeia a 70 quilómetros de Bukavu. “Não conseguimos produzir o suficiente para vender e, às vezes, somos obrigados a limitar-nos à agricultura de subsistência, apesar de termos acesso a grandes áreas que podíamos usar para produzir mais alimentos e satisfazer as necessidades do mercado.”
“Na realidade, as cooperativas não nos pedem que lhes demos garantias de pagamento dos empréstimos. Têm simplesmente receio porque, na maioria, somos muito pobres. Mas ainda temos terra que podemos usar como garantia”, disse Ngabo Y'eka à IPS.
“Também tenho uma pequena produção agrícola onde obtenho leite de duas vacas e oito cabras, mas isso é só para consumo familiar. Tudo isso pode servir de garantia de pagamento de uma pequena quantia de 1.000 dólares”, acrescentou.
Vénantie Mucuba é uma agricultora noutra aldeia localizada a 45 quilómetros de Bukavu. Disse à IPS, “Se conseguisse um empréstimo de 1.500 dólares, que deveriam ser pagos no prazo de um ano, podia produzir uma média de duas toneladas de feijão. Utilizaria esse dinheiro para contratar pelo menos dez agricultures, comprar sacos de 50 quilos e organizar o transporte do feijão até Bukavu. Aí, venderia o produto e obteria um lucro de mais de 2.000 dólares até ao fim do ano.”
Mas Charles Kabashali, director da Sociedade Mútua Cristã de Poupanças e Crédito, que também não concede crédito agrícola, vê as coisas de forma diferente. “O nosso envolvimento com os produtores que, na sua maioria, residem nas aldeias, é uma boa coisa,” disse à IPS. No entanto, “não há segurança nem electricidade ou infraestruturas nessas zonas que permitam que as cooperativas apoiem eficazmente os agricultores em pequena escala, ao mesmo tempo que sejam protegidos de qualquer perda de capital investido pelos membros das cooperativas.”
Aimée Busime é directora da Cooperativa de Crédito e Poupança do Sul de Kivu. “Se os agricultores em pequena escala formassem grupos, podíamos ajudá-los a ter acesso a crédito não excedendo 2.000 dólares cada um. Mas têm de fornecer uma garantia pessoal, isto é, um deles tem de apresentar garantias suficientes para pagar o crédito concedido”, explicou à IPS. “Eles é que têm de se organizar e não devemos pressioná-los no sentido de satisfazerem as condições que lhes permitam obter crédito”, acrecentou.
Por seu lado, Chikos Mushamuka, um residente de Bukavu, disse à IPS: “Na realidade, essas cooperativas podiam mostrar um pouco de boa vontade. Nesse caso, podiam incentivar a economia agrícola de toda a província de forma significativa.”
“Em todas as aldeias, e até mesmo em Bukavu, várias centenas de agricultores em pequena escala estão a produzir legumes, feijões, leite de vaca, batata doce, bananas, carne de cabra, e de porco, assim como peixe capturado no Lago Kivu. Isto pode alimentar mais de três milhões de pessoas,” aponta Mushamuka.
Acrescenta que “o apoio concedido a estes agricultores combateria efectivamente a insegurança alimentar, especialmente em Bukavu, onde muitas poucas famílias têm uma nutrição de qualidade ou refeições regulares.”
*Primeiro de dois artigos sobre os obstáculos que os pequenos agricultores na RDC enfrentam.

