Londres, 17/05/2005 – A violência que deixou cerca de 500 mortos no final de semana na república centro-asiática do Uzbequistão está controlada, mas é provável que ressurja, advertem observadores. Os distúrbios populares, reprimidos a sangue e fogo pelo exército, respondem a problemas sócio-econômicos profundamente arraigados, e o endurecimento da repressão pode desatar uma forte reação de extremistas islâmicos, acrescentaram. "O Uzbequistão tem um pequeno movimento islâmico que está proscrito, bem como todos os partidos de oposição", disse à IPS Margot Light, da Escola de Economia e Ciência Política em Londres. "Entretanto, neste país existe uma longa história de repressão política com o pretexto do perigo fundamentalista islâmico", alertou.
Os enfrentamentos começaram sexta-feira, na cidade de Andizán, com a repressão de protestos exigindo a anulação de um julgamento contra empresários islâmicos e pedindo a renúncia do presidente Islam Karimov, que tem o apoio da Rússia e dos Estados Unidos. Os choques com forças militares deixaram uma grande quantidade de vítimas civis que fontes independentes calcularam em 500. Karimov garantiu que morreram apenas 10 militares e "muitos mais" insurgentes. No final de semana o foco da crise mudou para a localidade de Karasu, onde manifestantes assumiram o controle dos escritórios centrais do governo. Em seguida, forças militares cercaram o povoado.
O regime de Karimov "é muito capaz de sufocar os atuais distúrbios, mas estes não desaparecerão para sempre", disse Light. "Os extremistas islâmicos que tiveram de fugir do Uzbequistão se refugiaram no Afeganistão e lançaram vários ataques através do Tajiquistão e do Kirguizistão", acrescentou a analista. Portanto, os movimentos em território afegão podem ser cruciais no processo. "Afirma-se que esse movimento islâmico foi eliminado depois da guerra" lançada pelos Estados Unidos contra o regime radical islâmico do Talebã no final de 2001, "mas as simpatias que tinha não desapareceram por completo", advertiu. A violência ressurge "em qualquer país onde são partidos políticos são proscritos", e além deste contexto, "os extremistas podem mobilizar pessoas facilmente", ressaltou Light.
"Isto implica um grave perigo, porque os que se opõem ao regime não têm a quem pedir ajuda, salvo a movimentos extremistas", acrescentou a especialista. A acadêmica considera provável que Moscou continue apoiando Karimov, porque "o fundamentalismo islâmico preocupa muito a Rússia e outras repúblicas centro-asiáticas". Mas em particular "é possível que a Rússia exija uma resposta menos violenta" aos distúrbios, especulou. A violência já se propagou, e muitos temem que o processo continue. "Isso pode piorar, em lugar de melhorar", disse á IPS Jennifer Moll, do Centro de Política Exterior, um centro de estudos britânico com inclinação pelo primeiro-ministro Tony Blair. "Há muito tempo há um mal-estar por causa da pobreza, do desemprego e outros problemas sociais", ressaltou.
A renda nacional per capita no Uzbequistão é de US$ 1.800 anuais, mas as iniqüidades não cessam. A minoria de origem russa, por exemplo, goza de maior prosperidade do que o restante da população. Vinte e dois por cento da população urbana e 28,7% da rural são pobres, segundo dados divulgados nesta segunda-feira pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Os mais pobres são os muçulmanos sunitas, que constituem 88% dos 28 milhões de habitantes. O Uzbequistão é rico em petróleo e algodão, mas os muçulmanos vêem poucos benefícios proporcionados por essa produção sob o governo de Karimov, consagrado presidente no dia 24 de março de 1990, um ano antes da dissolução da União Soviética, da qual esta república fazia parte.
Os atuais distúrbios se agravaram com a prisão de islamitas. "Karimov atribuiu a revolta a eles", disse Moll. "Mas as pessoas comuns estão descontentes com a pobreza e o desemprego. Foram as dificuldades que empurraram algumas pessoas para o extremismo islâmico". Karimov não considerou tais frustrações, acrescentou. "Isolou-se cada vez mais" e assim "provocará, pelo menos, mais distúrbios e uma maior expressão da raiva" popular. O vizinho Kirguizistão se verá particularmente afetado, considerou Moll. O governo uzbeko precisa de controle em algumas áreas de sua fronteira, e milhares de refugiados fugiram, aparentemente, para território do Kirguizistão. O alarme soou na maioria dos países da Ásia Central, concluiu a especialista. (IPS/Envolverde)

