San Salvador, 19/01/2010 – Ambientalistas de El Salvador não duvidam em apontar os responsáveis por uma mina gerenciada por uma multinacional canadense na hora de indicar quem está por trás do assassinato de três ativistas contra a mineração de ouro e prata no centro do país. Estes crimes foram cometidos entre junho e dezembro de 2009, no departamento de Cabañas (centro), onde a empresa Pacific Rim El Salvador, subsidiária da canadense Pacific Rim Mining Corp (PacRim), realiza atividades de exploração de jazidas desses metais desde 2002.
Em 2008, as autoridades salvadorenhas negaram a essa firma autorização de exploração da mina El Dorado, 65 quilômetros a nordeste da capital, após uma campanha maciça contra a atividade mineradora, à qual aderiram organizações, autoridades, moradores e até a hierarquia da Igreja Católica salvadorenha. A PacRim processou o Estado em US$ 700 milhões, em consequência dessa decisão.
O primeiro ativista assassinato foi Marcelo Rivera, de 37 anos, membro da Associação Amigos de San Isidro Cabañas e um dos líderes da oposição às operações da PacRim na região. Seu cadáver foi encontrado dentro de um poço no dia 30 de junho. A segunda vítima foi Ramiro Rivera (sem parentesco com Marcelo), do Comitê Ambiental de Cabañas, morto em 20 de dezembro a tiros de fuzis M-16, na localidade de La Trinidad, dentro do município de Sensutepeque, capital do departamento.
Seis dias depois, no mesmo povoado e com o mesmo tipo de arma foi assassinada Dora Alicia Sorto, de 32 anos e também integrante do Comitê. Ela estava grávida de oito meses e voltava para sua casa, após lavar roupa em um riacho próximo, quando seus assassinos a interceptaram. Seu filho de dois anos que estava junto ficou ferido. Hector Berríos, advogado e membro da Mesa Nacional Frente à Mineração Metálica, afirmou que a motivação dos crimes está claramente vinculada à atividade que as vítimas desenvolviam contra a mineração em geral e contra a PacRim em particular.
“A pergunta a ser feita é quem sai beneficiado com esta campanha de terror” contra os opositores da mineração, disse Berríos à IPS. Contudo, admitiu que é muito difícil estabelecer o alegado vínculo entre os assassinatos e a multinacional. A PacRim divulgou um comunicado, no dia 4 deste mês, de sua sede central na cidade canadense de Vancouver, refutando “inequivocamente as acusações” de grupos ambientalistas salvadorenhos que a vinculam com as mortes em La Trinidad, dizendo que são injustas e negando a existência de provas que liguem os assassinatos com a firma.
A empresa assumiu versões de setores da imprensa salvadorenha que vinculam os “trágicos incidentes” com “uma disputa antiga entre duas famílias locais”, e pediu a todas as partes que confiem na justiça. Ramiro Rivera já tinha sofrido um atentado no dia 7 agosto, tendo a partir daí recebido proteção policial. Mas, quatro meses depois, os agentes que o acompanhavam nada puderam fazer com suas armas curtas contra os fuzis M-16 com que vários homens dispararam.
Berríos assegurou que a estratégia de atemorizar os que protestam contra a mineração de metais é um padrão que as multinacionais do setor utilizam em outros países da America Latina e do Mundo, embora não tenha dado exemplos. “Mas a violência não vai deter esta luta em que estamos para proteger o meio ambiente e a saúde das pessoas”, afirmou.
No entanto, Miguel Angel Rivera, irmão de Marcelo e também membro de sua associação, disse que os assassinatos espalharam o medo entre alguns integrantes do movimento contra a mineração, mas que ele continuará apesar do temor que tem por sua filha e mulher. “Quando minha menina de oito anos vai à escola, penso que está segura. Mas à noite, qualquer carro que passe me faz pensar o pior”, disse à IPS durante uma vigília realizada em La Trinidad para levantar o ânimo da comunidade e dos ambientalistas após os assassinatos.
Rivera disse que sua decisão de prosseguir é porque “sabemos que estamos do lado certo”. Além disso, para ele abandonar agora a luta seria como se todo o trabalho de seu irmão “tivesse sido em vão”. A Procuradoria para a Defesa dos Direitos Humanos (Estatal) criticou a Polícia Nacional Civil e a Promotoria Geral, ao qualificar como “negligente” sua investigação sobre as três mortes.
Howard Cotto, subdiretor da Polícia, disse à IPS que a acusação não procede. “Negligência seria não investigar ou descartar linhas de investigação, mas não é o caso”, afirmou. Acrescentou que “a investigação segue seu curso e não é possível estabelecer data para esclarecer os fatos”. Cotto disse ainda que a polícia não pode, sem provas, afirmar que há uma ligação entre os assassinatos e os protestos contra a mineração, mas essa é uma das hipóteses com que lida.
O que se confirmou é que os dois homicídios de dezembro em Trinidad foram executados por assassinos profissionais, com armas de grosso calibre. Porém, não se sabe quem são os autores intelectuais que os contratou. No caso de Marcelo Rivera, já há quatro autores materiais presos, contra os quais começará um julgamento no mês que vem. Entretanto, os mandantes ainda não são conhecidos. Desde que a PAcRim começou seu projeto de exploração em El Dorado, organizações ambientalistas, religiosas e moradores da área mantêm uma campanha constante contra as atividades da empresa, por considerarem que a mineração de metais tem consequências negativas para a saúde e o meio ambiente.
O livro “O lado escuro do ouro, impacto da mineração em El Salvador”, escrito por Florian Erzinger, Luis González e Angel M. Ibarra, publicado em dezembro de 2008, diz que a América Central sofre uma “nova febre do ouro” pela excepcional alta de até US$ 1 mil a onça do metal. No caso salvadorenho, desde 2006 foram aprovados 29 projetos de prospecção e as 11 mineradoras estrangeiras que os controlam já conseguiram permissão de exploração em 25 casos. Mas, nos fatos, a negativa de autorizar as atividades da PacRim supõe a paralisação de todos os pedidos posteriores.
O governo de Elias Antonio Saca (2005-2009), da direitista Aliança Republicana Nacionalista (Arena), viu inicialmente com bons olhos a chegada de empresas e investimentos para explorar as riquezas minerais do país, o menor da América Central e o único da área sem litoral atlântico, mas tendo no Pacífico. Porém, retrocedeu na hora de dar as autorizações para extração, devido à força e extensão da oposição a essa atividade, quando o país vivia uma campanha eleitoral que finalmente a Arena perdeu, em março de 2009, para a esquerdista Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional.
Desde que Mauricio Funes assumiu a Presidência, em 1° de junho, insiste que não vai aprovar essas permissões. “Meu governo não vai autorizar nenhum projeto de mineração”, afirmou no dia 11 deste mês, ao abrir o ano escolar em Sesuntepeque, e garantiu que “vamos esclarecer” os assassinatos dos ambientalistas, cuja tarefa elogiou.
O livro sobre o impacto da mineração assegura que, no total, os 25 projetos que solicitam permissão para começar a atividade projetam extrair cerca de 12 milhões de onças de ouro e 78 de prata. No processo seriam utilizados 22 milhões de litros de água e aplicadas 950 toneladas de cianureto, um tóxico mortal.
É precisamente o impacto sobre as fontes de água, que já é visível desde que começaram as explorações, e o efeito sobre a saúde do uso de cianureto e outros produtos tóxicos que levaram as comunidades destas áreas a se mobilizarem contra a chegada da mineração. IPS/Envolverde

