MULHERES-CHILE: A marca de Bachelet

Santiago, 02/03/2010 – Quando a médica Michelle Bachelet foi eleita presidente do Chile, em 2005, milhares de mulheres fizeram sua essa vitória e festejaram nas ruas usando imitações da faixa presidencial. Hoje, homens e mulheres valorizam os avanços de gênero, concretos e simbólicos, que ela impôs. A primeira mulher presidente deste país de 17 milhões de habitantes encerra seu mandato, no dia 11 deste mês, com um histórico índice de 83% de popularidade, mais do que já conseguiu qualquer de seus antecessores e com poucos antecedentes no mundo.

Nesse dia, Bachelet, da Concertação de Partidos pela Democracia, de centro-esquerda, no poder desde o retorno à democracia em 1990, fechará um capítulo da história política do Chile, ao passar o comando a Sebastián Piñera, eleito pela direitista Coalizão pela Mudança.

Graças à sua gestão, o Chile será o país latino-americano que mais progressos poderá mostrar na reunião de representantes dos governos do mundo, que começa hoje em Nova York e vai até dia 12 deste mês, na Comissão da Condição Jurídica e Social da Mulher que vai analisar como estão os compromissos assumidos em Pequim há 15 anos.

Em setembro de 1995, foi realizada na capital chinesa a Conferência Mundial sobre a Mulher, cuja Plataforma de Ação estabeleceu 12 prioridades, uma delas a de promover a participação feminina no poder político e na tomada de decisões.

Bachelet aparece como o modelo mundial do que esse poder nas mãos de uma mulher pode significar para o progresso de todas as demais.

Os benefícios femininos com a reforma no sistema previdenciário de 2008, como uma pensão básica para as donas de casa pobres que nunca trabalharam e um bônus para cada filho nascido vivo, figuram entre os principais êxitos de sua gestão pela paridade de gênero.

Outro legado desta chefe de Estado socialista, presa e torturada na ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), é o Sistema de Proteção Integral à Primeira Infância, O Chile Cresce com Você, que apoia pais, mães, filhos e filhas desde a gestação até os quatro anos de idade.

Também se destaca a multiplicação das salas em creches ou jardins de infância gratuitos, que facilitam a entrada feminina no mercado de trabalho, bem como a aprovação da lei que elimina a brecha salarial entre homens e mulheres e a que dá benefícios trabalhistas às domésticas.

“O governo de Bachelet foi um elo a mais dos avanços que os quatro governos da Concertação realizaram em matéria de igualdade de gênero” nos últimos 20 anos, disse ao TerraViva a especialista em política María de los Ángeles Fernández, que escreve um livro sobre a liderança da mandatária.

Porém, apesar de compartilhar méritos, a contribuição de Bachelet, de 59 anos, é crucial em diversos planos, disse.

“No simbólico, causou impacto nos modelos dos papeis de meninos e meninas, já que sua chegada à Presidência representa a ampliação do horizonte de possibilidades para as mulheres”, disse Fernández, diretora-executiva da Fundação Chile 21.

Além disso, “através de seu discurso, deu status de política de Estado aos temas de gênero, que, no geral, na América Latina, não são políticas públicas de categoria diante das econômicas e de defesa”, ressaltou.

“Meu dever é proteger as mulheres do Chile”, esta é uma das frases de Bachelet que Fernández mais se lembra.

Segundo a especialista, a mandatária também “tornou visíveis” as mulheres por meio do critério paritário que aplicou na formação de seu gabinete, que termina com 45% de ministras, apesar das sucessivas mudanças.

Sua preocupação ficou evidente quando foi ministra da Saúde e da Defesa no governo de Ricardo Lagos (2000-2006).

“Na pasta da Defesa, um de seus temas preferidos foi a incorporação das mulheres nas tarefas das três armas”, recordou.

Alguns políticos e especialistas explicam sua popularidade por sua simpatia, espontaneidade e proximidade com as pessoas. Um dirigente da oposição direitista a rotulou como “dona de casa simpática” e o acadêmico da Universidade Diego Portales do Chile e da norte-americana New York University, Patricio Navia, deu, em julho de 2009, a um artigo de opinião o título “A carinhocracia de Bachelet”.

“O chileno é machista, e no começo a trataram mal por ser mulher e agora todos a aplaudem” porque “perceberam que é mulher muito preparada e fez tudo certo”, disse ao TerraViva Nelson Carrizo, vendedor de flores de 75 anos.

Pilar Montoya, secretária de 43 anos e próxima à direita, pensou que Bachelet seria incapaz de superar os problemas que surgiram inicialmente, por ser mulher. “Todos nós nos surpreendemos com o bom governo que fez”, disse ao TerraViva esta mãe de dois filhos, que se declarou “orgulhosa” da forma como representou o país no exterior.

Além de reverter o estrepitoso fracasso do plano de transporte para a capital, o Transantiago, projetado na administração anterior, no começo de seu governo teve de aplacar históricos protestos estudantis e de outros setores.

Quando se acirravam as críticas por seu suposto déficit de liderança, Bachelet se declarou vítima de “Feminicídio político”, uma espécie de assassinato de imagem pública, em alusão ao crime cometido contra as mulheres por razão de gênero.

Com um estilo horizontal, a presidente se caracterizou por criar comissões assessoras com representação de todos os setores envolvidos para agilizar a elaboração de suas políticas públicas.

Também é destaque seu manejo da economia, que permitiu poupar parte dos recursos obtidos com o alto preço do cobre, principal produto de exportação do Chile, que foram usados para entregar bônus em dinheiro às famílias mais pobres, quando, em 2009, foram sentidos no país os efeitos da crise financeira mundial.

“Pela primeira vez, a grande aspiração dos movimentos de mulheres no Chile, de integrar a agenda política, foi conseguida com a chamada agenda de gênero” do governo Bachelet, disse ao TerraViva a ministra do Serviço Nacional da Mulher, Carmen Andrade.

Para Andrade, a introdução desta variável transversal em todas as políticas públicas não se explica apenas porque Bachelet é mulher, mas por ser uma “mulher comprometida com os temas da igualdade social e de gênero”.

A ministra destaca a capacidade de Bachelet para “transformar” os problemas concretos das pessoas em “políticas públicas, programas e ações”.

Apesar de avaliar positivamente sua gestão, o movimento de mulheres cobra duas grandes dívidas: a falta de uma política integral de prevenção e atenção quanto à violência doméstica e sexual e o pleno exercício dos direitos sexuais reprodutivos.

Bachelet conseguiu garantir a entrega gratuita da pílula anticoncepcional de emergência a todas as mulheres que a solicitarem nos serviços de saúde, mas por causa das pressões conservadoras em sua própria coalizão, nunca incluiu em seu programa a despenalização do aborto terapêutico.

O Chile é um dos poucos países do mundo que criminaliza a interrupção voluntária da gravidez mesmo quando a vida da mãe corre risco.

Outros aspectos pendentes são a ampliação da participação política das mulheres e a redistribuição do poder econômico.

“Hoje, pela primeira vez, foi ultrapassada a barreira dos 40% de mulheres no mercado de trabalho, mas estas continuam concentradas em determinados ofícios, que são os pior remunerados, e quase não há mulheres nas diretorias das empresas”, reconheceu Andrade. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *