Cairo, 04/03/2010 – Os governos árabes intensificam os esforços para reduzir o consumo de tabaco, mas enfrentam a férrea resistência dos consumidores. “É uma região difícil se considerarmos a aceitação social do uso do tabaco, a diversidade de conceitos culturais e as novas tendências, com maior liberdade das mulheres, o que contribui para aumentar o consumo”, disse Fatimah El-Awa, assessora da Iniciativa Liberte-se do Tabaco, um programa da Organização Mundial da Saúde (OMS).
De fato, é difícil imaginar o mundo árabe sem seus motoristas de táxi fumando um cigarro atrás do outro, seus cafés cheios de fumaça ou o ruído do onipresente narguile. O consumo de tabaco no Oriente Médio é dos mais altos do mundo. “Nunca renunciarei aos meus Cleópatra”, disse o carpinteiro egípcio Moahmmad Hemly, em referência à marca de cigarros que fuma. Um maço custa US$ 0,45, um dos mais baratos do mundo. Especialistas em saúde estabelecem uma forte correlação entre pobreza e consumo de tabaco.
Há menor prevalência de fumantes nos países ricos do Golfo, segundo pesquisa da OMS na região, realizada em 2001, enquanto o consumo é consideravelmente maior na área do Levante e no Iêmen, mais pobres. O Levante inclui Egito, Jordânia, Iraque, Líbano, Palestina e Síria. Mais da metade dos homens sírios fuma e o Iêmen supera todos os da região, com 77% de viciados. As últimas pesquisas feitas pelas autoridades de algumas nações árabes mostram menores quantidades de fumantes, mas El-Awa alerta que isso não é necessariamente prova de redução no consumo de tabaco.
“Lamentavelmente, não existe ferramenta centralizada na região para medir o consumo de tabaco entre adultos, por isso a OMS depende em grande parte dos dados fornecidos pelos ministérios da Saúde”, disse El-Awa à IPS. “Há muitos fatores que contribuem para a variação dos resultados, incluindo tamanho e área da amostra, cidade versus campo”, acrescentou.
Numerosos governos árabes começaram a controlar o tabaco na década de 70, embora a maioria dos países não tivesse leis até a década passada. Entre as primeiras medidas estão as advertências nos maços de que fumar é prejudicial à saúde e as restrições publicitárias. Os funcionários da saúde reconhecem que seus esforços não conseguem diminuir a quantidade de fumantes. Nos últimos tempos, as nações árabes começaram a unir-se ao Convênio marco da OMS para Controle do Tabaco, que estabelece rígidas pautas para os 168 signatários.
O Convênio ajudou a impor controles, mas as leis não foram tão contundentes como esperavam os funcionários da OMS, especialmente sobre as restrições de fumar em locais públicos e o tamanho dos avisos nos maços sobre danos à saúde. Mas houve avanços, disse El-Awa. Egito e Jordânia acrescentaram imagens dos danos do tabaco no pacote de cigarros, seguindo pauta do Convênio da OMS. Muitos países da região proibiram a publicidade e a venda de tabaco para menores.
Os Emirados Árabes Unidos começaram a implementar em janeiro a proibição de fumar em espaços públicos. A iniciativa seguiu medidas similares nas cidades sagradas sauditas de Medina e Meca, e no Bahrein, Egito, Jordânia e Catar. O cumprimento das proibições é difícil. “Não é fácil fazer cumprir as normas”, disse Fouad M. Fouad, coordenador de projeto do Centro de Estudos sobre Tabaco, com sede em Damasco, onde está para entrar em vigor uma proibição de fumar em locais públicos, sancionada em novembro.
Por exemplo, um decreto de 1996 que proíbe fumar em instituições estatais, hospitais e aeroportos não é respeitado. “Donos de restaurantes e bares temem a proibição e alguns disseram que vão resistir porque a maioria de seu lucro provém da shisha” (narguile), disse Fouad. “Muitos outros são céticos quanto às possibilidades de o governo fazer cumprir a lei em um lugar onde as pessoas acendem cigarros em escritórios, universidades, táxis e, inclusive, hospitais, e onde o consumo de tabaco é um imperativo social e rito de passagem para a idade adulta”, acrescentou.
O baixo preço do tabaco prejudica os esforços para controlar o consumo na região, disse Fouad. Outro motivo de preocupação é o consumo entre mulheres jovens, para as quais fumar é uma aparente expressão de independência. Essa é uma das consequências do avanço dos movimentos femininos nas conservadoras sociedades árabes, especialmente o uso do narguile. “As mulheres e os jovens são dois grandes setores sociais que entraram no ‘mercado’ de fumantes na última década. A maioria usa narguile para fumar tabaco perfumado”, disse Fouad. “O atrativo e a atitude social que tem o uso do narguile atenta contra os esforços” para diminuir o consumo de tabaco.
O assunto exigirá firme determinação política. Mas a vinculação de altos funcionários com a indústria do tabaco deixa dúvidas. As fábricas estatais de cigarros, como a egípcia Eastern Company, produzem milhões de cigarros por ano e obtêm lucros consideráveis. “O governo produz cigarros enquanto o Ministério da Saúde diz para não fumar”, disse Helmy. “É uma hipocrisia”, ressaltou. IPS/Envolverde

