Santiago, 04/03/2010 – Enquanto diminuem as cenas de saques em algumas das cidades mais atingidas pelo terremoto e pelo tsunami que afetaram o centro e o sul do Chile, no dia 27 do mês passado, centenas de pessoas se organizam para socorrer voluntariamente os atingidos. Segundo o último informe do Escritório Nacional de Emergência (Onemi), as vítimas fatais desses fenômenos chegam a 802, além de milhares de feridos e dois milhões de desabrigados. No site do Ministério das Relações Exteriores (www.minrel.cl) apareceu uma primeira lista de mortos.
Quatro dias depois da tragédia ainda se descobre localidades arrasadas, especialmente na costa das regiões de El Maule e Bío-Bío, entre 200 e 500 quilômetros ao sul da capital, e continuam as buscas por desaparecidos. Lentamente vão se normalizando os serviços básicos e amplia-se a distribuição de ajuda, que para as vítimas e autoridades locais demorou. Também vão diminuindo os casos de pilhagem.
Diante dos saques e incêndios em supermercados, lojas, escritórios públicos e casas particulares, ocorridos depois do tremor, a presidente, Michelle Bachelet, mobilizou mais de 11 mil soldados e decretou Estado de Exceção em El Maule e Bío-Bío. O rádio e a televisão informaram sobre roubos de comida a eletrodomésticos e artigos eletrônicos, como televisores, especialmente em Concepción, capital de Bío-Bío.
O toque de recolher nas cidades de Talca e Concepción parece ter contribuído para que aos poucos a calma retorne aos locais devastados. Mas algumas famílias decidiram se armar por conta própria para enfrentar eventuais ataques de outros moradores. Também há denúncias de revenda de produtos a preços exorbitantes. As imagens dos militares assumindo o controle das cidades lembraram as piores cenas da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990).
Porém, o temor das pessoas chegou a tal ponto que moradores da combativa cidade de Concepción, berço de líderes de esquerda que lutaram contra o regime militar, chegaram a aplaudir a chegada das Forças Armadas. Na capital, setores comerciais fecharam suas portas, na terça-feira, diante de boatos de assaltos. Por isso, o governo pediu tranquilidade aos moradores, advertindo que a justiça será severa com os que se aproveitarem da tragédia.
“Estou impressionada com a ausência do Estado nos dois primeiros dias da tragédia”, disse à IPS Paulette Dougnac, de 27anos, ainda em estado de comoção após viver o terremoto em Concepción, dormir em uma montanha enfrentando fortes réplicas do tremor e experimentar o desespero para conseguir água e comida, tendo depois se dirigido a Santiago. “Não havia ninguém para dar informação, para nos ajudar. Por isso houve o descontrole. Tenho familiares aos quais nada chegou ainda”, disse.
“Às seis da manhã ouvi o intendente da região Jaime Tohá dizer que não havia risco de tsunami e pedia para as pessoas ficarem tranquilas em suas casas, quando o fenômeno já havia ocorrido. Não sabia de nada. Isso causa desconfiança nas pessoas”, criticou Dougnac. “As pessoas se sentiam abandonadas, se perguntando como não havia um plano para enfrentar estas tragédias se é sabido que o Chile é um país sísmico?”, perguntou.
Por outro lado, a Marinha e a Onemi continuam envolvidas em uma polêmica por causa das responsabilidades sobre o tardio alerta de tsunami. “Foi incrível a pilhagem. Não foi por necessidade, mas por maldade”, disse à IPS Paulina Saavedra, cuja família vive em Arauco, localidade costeira de Bío-Bío que sofreu os embates do terremoto e do tsunami. “O piano da casa dos meus pais saiu pela janela, os móveis da cozinha foram para outro cômodo, ficou tudo no chão e as ruas do lugar se desnivelaram”, contou a jovem.
Em diversos lugares há gente que continua implorando água e comida, enquanto os sanitaristas anunciam a chegada de doenças infecciosas. Bachelet reconheceu ontem que a ajuda não chegou na velocidade necessária devido a problemas de comunicação e transporte. Depois de destacar que a magnitude da tragédia é “enorme”, por isso toda ajuda é pouca, o sociólogo Alberto Mayol esboçou à IPS uma explicação para os numerosos saques.
Além de responder, em alguns casos, ao oportunismo criminoso, Mayol acredita que “no Chile existe uma matriz cultural, uma forma de ver vida política e social, que de alguma forma vincula o fato de ter sofrido uma dor imensa, uma injustiça ou uma tragédia, com a possibilidade de acesso a certos direitos”. Isto “provém um pouco da cultura cristã e do modelo econômico, que assume que o que está mal merece mais direitos e apoio do Estado”, disse o acadêmico da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do Chile.
“Então, quando ocorrem as tragédias, e praticamente toda a comunidade se vê afetada, a demanda por ajuda é muito grande, em consonância com o nível de dor existente. Isto cria a legitimidade de poder fazer o que não se está recebendo, de fazer justiça com as próprias mãos”, acrescentou Mayol. A seu ver, outro fato que deverá ser profundamente analisado depois da emergência é a participação das Forças Armadas especificamente na “forma com é pedida a sua presença”. Uma “coisa é os militares poderem ajudar, o que está muito certo, outra é serem convocados para a ordem pública”, disse. Do seu ponto de vista, é necessário estudar “a busca permanente dos militares como força salvadora em tempos de crise”.
Na outra ponta, multiplicam-se as iniciativas de socorro por parte de organizações sem fins lucrativos e humanitárias, como Fundação Um Teto para o Chile, Lar de Cristo, Caritas Chile e Cruz Vermelha, bem como de federações universitárias. Entre sexta-feira e sábado, será realizado o Teleton “Chile ajuda o Chile” que, durante 24 horas, vai arrecadar 15 bilhões de pesos (US$ 20 milhões) para construir 30 mil casas de emergência para as vítimas. Esta campanha é liderada pelo popular animador de televisão Mario Kreutzberger, conhecido como “Don Francisco” e radicado nos Estados Unidos, e consiste na coleta de dinheiro entre a população em um programa de televisão.
O presidente da Confederação da Produção e do Comércio, Rafael Guilisasti, que se reuniu com Bachelet e outros dirigentes empresariais ontem, manifestou o compromisso do setor privado com a reconstrução do país. Não há problemas de abastecimento, disse o ministro da Fazenda, Andrés Velasco. IPS/Envolverde

