Nairóbi, 24/05/2005 – Pelo menos 25 jornalistas foram mortos em diferentes partes do mundo este ano por realizarem seu trabalho, enquanto cada vez mais governos da África cerceiam os meios de comunicação, afirmou o Instituto Internacional de Imprensa (IPI, sigla em inglês). Aproximadamente 400 delegados participam em Nairóbi, desde domingo e até esta terça-feira, da 54ª Assembléia Geral do IPI, onde analisam a situação da liberdade de imprensa no mundo. O instituto, com sede em Viena, é uma rede de jornalistas, editores e outros trabalhadores dos meios de comunicação que lutam por uma maior liberdade para realizarem seu trabalho e para melhorar a qualidade da tarefa jornalística.
"A liberdade de imprensa é sufocada pelos governos e este é um sinal muito perigoso", disse o diretor do IPI, Johann Fritz, ao abrir a reunião, afirmando que cada vez há mais governos que adotam leis repressivas para controlar o trabalho dos jornalistas. Segundo o instituto, 25 profissionais da imprensa foram assassinados desde janeiro. No ano passado, foram 78 mortes em todo o mundo, contra 64 de 2003 e 54 de 2002. Na abertura do encontro, o presidente queniano, Mwai Kibaki, garantiu que seu governo está comprometido com a liberdade de imprensa. "Temos um debate em andamento sobre a necessidade de criar consenso sobre um contexto legal apropriado que proteja a liberdade de imprensa, enquanto são estabelecidas todas as salvaguardas necessárias para garantir que as liberdades sejam exercidas com responsabilidade para o bem da imprensa e do público em geral", afirmou.
Entretanto, nem todos têm uma visão tão positiva da situação no Quênia, sobretudo depois de uma série de incidentes com a imprensa nos últimos dias, como o ataque a golpes contra um fotógrafo por parte da mulher do próprio presidente, Lucy Kibaki, no início deste mês. Paradoxalmente, este incidente ocorreu na véspera do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, comemorado em 3 de maio. Ao que parece, a senhora Kibaki se queixava por uma notícia referente à sua família. No ano passado, o governo proibiu vários funcionários públicos de falarem com a imprensa depois que alguns veículos informaram sobre um suposto caso de corrupção na administração de Kibaki. Membros do gabinete foram implicados em um escândalo de conflito de interesses nas licitações para elaboração de passaportes e na construção de um laboratório forense.
A organização norte-americana Freedom House, que supervisiona a liberdade de imprensa no mundo, considerou como "não-livre" a situação do jornalismo no Quênia, em seu relatório do mês passado. Em 2004, este país havia recebido a nota de "parcialmente livre". A situação da Nigéria também foi discutida na assembléia geral do IPI. O ativista e prêmio Nobel de literatura, o nigeriano Wole Soyinka, apresentou um informe sobre as constantes hostilidades contra jornalistas em seu país. Também denunciou vários casos de torturas durante o regime do ultimo ditador militar nigeriano, Sani Abacha (1993-1998). Soyinka exortou os jornalistas africanos a se unirem para condenar a repressão contra os meios de comunicação em todo o continente. Por sua vez, o presidente de Ruanda, Paul Kagame, acusou a mídia internacional de concentrar sua cobertura nos aspectos negativos da África.
"Uma das razões pelas quais a África não foi capaz de atrair investimento estrangeiro direto é a constante cobertura negativa pela imprensa", disse Kagame em seu discurso, intitulado "A informação sobre a África da mídia ocidental". O presidente ressaltou que as redes internacionais dedicaram muito mais espaço ao genocídio em Ruanda, em 1994, do que aos esforços de seu governo para reconstruir o país durante os 10 anos seguintes. Mais de 800 mil integrantes da minoria tutsi e hutus moderados morreram no conflito civil nesse país. "Agora, estamos mostrando ao mundo que temos a vontade e a firmeza para ressurgirmos das cinzas. Repatriamos e recolocamos cerca de quatro milhões de refugiados. Lamentavelmente é algo que a imprensa ocidental não vê", afirmou. (IPS/Envolverde)

