Caracas, 25/05/2005 – A Telesul, emissora de televisão de Estados latino-americanos impulsionada pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, deu seu primeiro passo formal com a intenção, segundo seus diretores, de emular a rede árabe Al Jazeera e depois do lema "nosso norte é o Sul". "Após 513 anos nos olhando com olhos estrangeiros, nós latino-americanos começamos a nos ver com nossos próprios olhos", disse nesta terça-feira, no ato de apresentação do novo canal regional, seu diretor, Aram Aharonián, um jornalista uruguaio há 18 anos radicado na Venezuela. Na nova empresa de televisão, sociedade entre Argentina, Cuba, Uruguai e Venezuela, já foram investidos US$ 10 milhões em instalações, tecnologia, equipamentos e aluguel do satélite NSS (News Skies Satelitte) 806, afirmou o ministro venezuelano da Informação e presidente da Telesul, Andrés Izarra.
O lançamento do sinal consistiu na transmissão de um vídeo de dez minutos sobre o que a Telesul pretende ser, através de uma rede nacional de televisão na Venezuela e réplicas em emissoras de outros países da região. As primeiras imagens ilustraram o discurso de movimentos sociais e da esquerda latino-americana: declarações de indígenas, manifestações de rua contra políticas liberais e o imperialismo norte-americano, gente que vai à escola em bairros populares, algum cartaz de fundo com fotos de Ernesto Che Guevara, o guerrilheiro argentino-cubano, e Salvador Allende, o presidente chileno derrubado em 1973 pelo general Augusto Pinochet. A Telesul "será, sim, tendenciosa, no sentido de resgatar a integração latino-americana, a diversidade e a pluralidade, contra o pensamento único e o papel hegemônico das emissoras privadas, contra o latifúndio dos meios de comunicação", disse Ahronián à IPS.
Chávez apoiou fortemente a idéia, desde o ano passado, e em vários fóruns internacionais perguntou: "Por que o que sabemos de nós deve ser dito por uma televisão do Norte, como a (rede norte-americana por cabo) CNN? Por que essa ditadura dos meios de comunicação?". Hugo Chávez também comentou que ficou sabendo pela CNN da derrubada do presidente equatoriano Lucio Gutiérrez, em abril. Diante da pergunta de jornalistas querendo saber se a nova emissora se dedicará a multiplicar mensagens de televisões estatais, Aharonián disse que se for usada para transmitir apenas os discursos de Chávez ou de outros presidentes "se terá de partir do princípio de que ninguém a assistirá. Se se tornar propagandística iremos todos, e se tornaria outra coisa", acrescentou.
O programa de dez minutos levado ao ar será repetido em canais de televisão de vários países como promoção até que no dia 24 de julho, quando se comemora o nascimento do libertador Simon Bolívar, comece a transmitir alguns programas para, em meados de setembro, iniciar a transmissão durante as 24 horas do dia. A informação ocupará até 40% da programação, segundo a direção da Telesul, que inclui o brasileiro Beto Almeida, o colombiano Jorge Botero e o cubano Ovídio Cabrera, com um noticiário, uma revista informativa e de análise pelas manhãs, crônicas, entrevistas, comentários e noticiários a cada meia hora. Outras atrações previstas são "Memórias em Desenvolvimento", com cinema latino-americano, "de Cantinflas a Fernando Solanas"; "Marcapassos", sobre viagens turísticas através da região, e "Nojolivud", com filmes de países de fora da região e também de Hollywood.
Também está prevista a emissão de "Vozes na Cabeça", dedicado à música. "Cinexepção", que mostrará estréias de filmes; "Subte", no qual se relatará a experiência de sobreviver nas metrópoles latino-americanas; "Trabalho e Terra", com ênfase nas questões agropecuárias, e "Memórias do Fogo", programa de documentários. No ano passado, "foram feitos 646 documentários na América Latina, segundo um inventário em nosso poder, e somente 21 foram exibidos. A Telesul se propõe receber produções audiovisuais de canais privados e estatais, nacionais ou locais, comunitários, de universidades e produtores independentes. Além disso, terá um braço promotor da produção latino-americana denominado "Fábrica Latino-Americana de Conteúdos". A "direção de programação estará aberta para receber trabalhos, e insistiremos em que não só os conteúdos sejam de qualidade, como também as formas", disse Aharonián.
Quando estiver em pleno funcionamento, no final deste ano, a Telesul poderá ser vista em toda América, Europa ocidental e no extremo noroeste da África, garantem seus dirigentes. "Este é um desafio com o qual sempre sonhamos", disse Gabriel Marota, subsecretário de Mídia do governo argentino de Néstor Kirchner. "Contamos em ter um olhar diferente de nossa realidade, e que esta seja uma televisão de Estados e não de governos", acrescentou. A Venezuela tem 51% do capital acionário da Empresa Multiestatal Telesul Sociedade Anônima, 20% são da Argentina, 19% de Cuba e 10% do Uruguai. "Além da operação financeira ou comercial, os Estados têm na Telesul uma intenção política, que é fomentar a integração de nossos povos", insistiu Izarra, que, diante da notória ausência do Brasil nessa fase, destacou que o projeto está aberto à incorporação de todos os latino-americanos.
A Venezuela colocou o dinheiro inicial, enquanto os demais sócios entraram com horas de programação, equipes de trabalho e pessoal, explicou Izarra. Botero, responsável pela área informativa, disse que já foram abertas sucursais em Brasília, Bogotá, Caracas e La Paz, e em breve serão abertas as de Buenos Aires, Havana, Cidade do México, Montevidéu e Washington. "É uma primeira tentativa contra a hegemonia maciça na América Latina, para ver se podemos romper a cerca do latifúndio dos meios de comunicação", concluiu Aharonián.
(IPS/Envolverde)

