Ambiente: Camponeses mexicanos são perseguidos

México, 24/05/2005 – A guerra desatada no México por cortadores de florestas contra indígenas ambientalistas desta vez causou as mortes de um menino e um jovem, enquanto continuam as detenções de camponeses, denunciadas como arbitrárias por organizações não-governamentais locais e internacionais. "Há um ataque sistemático e abusivo contra os camponeses ecologistas. Os últimos fatos reafirmam a perseguição de que são alvo, a repressão que sofrem e a impunidade existente", disse à IPS Verônica Bassot, porta-voz da Tlachinollan, organização defensora dos direitos humanos que trabalha com os grupos camponeses. O corte de árvores é agressivo nas serras do sudeste do Estado de Guerrero, onde 11 de seus 17 municípios indígenas são catalogados por estudos oficiais como altamente marginalizados e um deles como o mais pobre do país. Seus habitantes são mestiços ou indígenas das etnias naua, miexteca e tlapaneca.

Imagens de satélite provam que nessas áreas se perdeu, entre 1999 e 2000, cerca de 86 mil hectares dos 226.203 que estavam cobertos de florestas, segundo relatórios do grupo ambientalista internacional Greenpeace. Nesta verdadeira guerra não declarada, um menino de 9 anos e seu irmão, de 20, foram mortos na noite da quinta-feira passada durante um ataque a tiros em meio às montanhas de Guerrero. Ambos eram filhos de Albertano Peñalosa, dirigente da Organização de Camponeses Ecologistas da Serra de Petatlán e Coyuca de Catalán (OCESP), que ficou ferido nessa ocasião, bem como outros dois filhos seus.

No dia seguinte, o exército mexicano deteve três dos companheiros de Peñalosa, sob a acusação de ter assassinado um filho de um cortador de árvores, somando-se assim a outro membro da organização, Felipe Arreaga, que está preso desde novembro pela mesma acusação, e a quem a Anistia Internacional considera preso de consciência. "Aqui nas montanhas há caciques poderosos (que cortam a madeira) que fazem o que querem, inclusive com certa proteção dos militares que patrulham a região", afirmou a porta-voz da Tlachinollan por telefone desde seu escritório nas serras de Guerrero. "O governo do Estado (desde 1º de abril encabeçado por Zeferino Torreblanca, do esquerdista Partido da Revolução Democrática) e o presidente mexicano, Vicente Fox, não estão agindo e por isso nestas montanhas reina a impunidade e o medo", denunciou Bassot.

Todos os camponeses das serras de Guerrero hoje detidos e os pais dos dois assassinados na semana passada, são companheiros na OCESP de Rodolfo Montiel e Teodoro Cabrera, que foram presos e torturados pelos soldados em 1999 por suposta posse de armas e drogas. Estes dois camponeses finalmente foram libertados em 2001 por ordem do presidente Fox que, afirmando que ambos tinham problemas de saúde, determinou o perdão de suas condenações. Montiel e Cabrera receberam, quando ainda estavam na prisão, o prêmio Goldman, criado por organizações norte-americanas e considerado o Nobel na área ambiental, e também o prêmio Chico Mendes, criado em memória do sindicalista e ambientalista brasileiro assassinado em 1988.

Outro indígena mexicano ganhador este ano do Goldman (dotado de US$ 125 mil) foi Isidro Baldenegro, preso em março de 2003 acusado de portar armas e drogas, e libertado em junho de 2004, após múltiplas denúncias de irregularidades e depois que vários grupos ambientalistas e humanitários o declararam "preso de consciência". Segundo grupos humanitários locais e estrangeiros, os membros da OCESP são perseguidos somente por se oporem á destruição da floresta, que é levada adiante em grande parte por grupos que cortam árvores ilegalmente. Os camponeses detidos agora são acusados de terem participado do assassinato, em 1998, de um filho de Bernardino Batista, líder de organizações de cortadores. "São casos repletos de injustiças e irregularidades dos quais participam militares e policiais como braços dos cortadores", afirmou a porta-voz da Tlachinollan.

Em um comunicado divulgado domingo, esse grupo defensor dos direitos humanos denunciou que os riscos enfrentados pelos camponeses ecologistas "são conseqüência da ausência de atenção por parte das autoridades estatais e federais. É vergonhoso que os defensores do meio ambiente sejam perseguidos e sua luta seja criminalizada", ressaltou. No México, "usa-se o sistema judicial para silenciar ou desestimular as vozes dissidentes e a oposição da sociedade civil, recorrendo a falsas ou infundadas acusações", afirmou a Anistia Internacional, com sede em Londres, a propósito da reiteração de camponeses presos no México. Relatórios do grupo Tlachinollan indicam que nas serras de Guerrero "o exército apoderou-se como autoridade que assume o controle policial e militar".

Os militares "se metem com as comunidades indígenas e com suas hortas, tomam a água da comunidade, interrogam, detêm e intimidam a população com o simples argumento de que estão aplicando a lei federal sobre armas de fogo e explosivos, e ainda que estão combatendo o narcotráfico", dizem os relatórios. "Vou ser claro, alguém se mete com determinados interesses, e esse é o problema, por isso estou aqui (na prisão)", disse á IPS em novembro, pouco depois de ser preso, o camponês Felipe Arreaga, membro da OCESP. Declarações semelhantes haviam sido dadas por Montiel e Cabrera, que desde que deixaram a prisão vivem na semi-clandestinidade e fora de Guerrero, por medo de sofrerem atentados. (IPS/Envolverde)

Diego Cevallos

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