Ramala, 11/03/2010 – A beligerância das declarações de Irã e Israel, bem como movimentos militares no terreno, dão crédito à ideia de que a aversão e as discrepâncias ideológicas entre os dois países podem criar uma espiral de violência capaz de envolver todo o Oriente Médio em uma guerra. “A diplomacia e as sanções não funcionarão com o Irã. Seu presidente, Mahmoud Ahmadinejad, é um ideólogo messiânico. É um seguidor do clérigo xiita estremista Mesach Yazdi, que até o aiatolá Ruhollah Khomeini rechaçava por seu extremismo”, afirmou o analista político Dan Diker, do Centro de Assuntos Públicos de Jerusalém.
“O Irã ameaça destruir Israel há muito tempo, e esta linguagem deve ser levada a sério”, disse Diker à IPS. “Além disso, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) confirmou o que Israel vem dizendo há 15 anos: que o regime iraniano está empenhado em adquirir armas nucleares”, acrescentou. Meios de comunicação israelenses informaram que a Síria, considerada aliada do Irã, transferiu armas avançadas, do tipo que antes não se atreveria a entregar, à milícia xiita libanesa Hezbola (Partido de Deus).
O Washington Instituto for Near East Policy, um centro de estudos conservador e pró-Israel, informou que a “Síria pode ter entregue ao Hezbola mísseis antiaéreos russos que são disparados por um lançador apoiado no ombro (os Igla-S), que podem representar uma ameaça para os caças F-16 da força aérea israelense. As forças armadas de Israel também alertaram que, desde a segunda guerra entre Israel e Líbano, em 2006, o Hezbola manteve uma intensa atividade para fortalecer sua capacidade militar no sul do Líbano.
O ministro da Defesa israelense, Ehud Barak, disse que o Hezbola possui um arsenal de 45 mil mísseis e foguetes, muito maior do que o que era estimado. Um fato de difícil interpretação para os analistas é que o Irã está trasladando a totalidade de seu urânio de baixo enriquecimento para instalações sobre a terra. Até o momento, qualquer ataque teria implicado o uso de bombas que penetrassem construções do tipo casamata para alcançar o complexo nuclear subterrâneo iraniano. O plano de Teerã é provocar um ataque de Israel para confirmar o quanto são sérias as intenções israelenses.
O Irã argumenta que o urânio se destinará a melhorar a capacidade de um pequeno reator em Teerã usado na produção de isótopos para equipamentos médicos. Porém, outros especialistas dizem que esse país ficou sem locais adequados para armazenar o urânio enriquecido e por isso teve que mudá-lo de lugar em sua quase totalidade. Há vários anos, Israel também aumenta as apostas e endurece seu discurso ao enviar à mídia um fluxo constante de declarações advertindo sobre o perigo que o Irã representa e insinuando um possível ataque preventivo contra esse país.
Israel acompanha esse discurso com a pressão diplomática a favor de rigorosas sanções contra o Irã, bem como com exercícios militares preventivos e simulações de ataques contra a população civil. Israel também tem antecedentes de ataques militares reais contra seus vizinhos. Em 1981, bombardeou a usina nuclear de Osirak, no Iraque, e em 2007 atacou preventivamente uma suposta instalação nuclear na Síria. Além dos movimentos militares, o acalorado discurso de Israel e seus inimigos no Irã, Líbano e na Síria apenas avivam o fogo.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, comparou o desenvolvimento nuclear do Irã com “um trem descontrolado e a comunidade internacional a um automóvel à beira do colapso”. Teerã também alertou sobre a agressão israelense. Na semana passada, Ahmadinejad afirmou que Israel planeja atacar Síria e Líbano e prometeu que apoiaria estes dois países. Além disso, altos dirigentes iranianos, sírios e do Hezbola fizeram numerosos comentários sobre a probabilidade de uma guerra contra Israel.
Este panorama foi analisado há várias semanas quando Ahmadinejad se reuniu com o presidente sírio, Bashar Assad, em Damasco. Assad também se reuniu com líderes do palestino Hamas (Movimento da Resistência Islâmica) e do Hezbola. O Hamas reconheceu ter recebido apoio militar e financeiro de Teerã. O assessor de segurança nacional dos Estados Unidos, James Jones, sugeriu que Teerã “poderia tentar desviar a opinião pública internacional da iniciativa do governo Obama, que tenta reforçar as sanções contra o Irã, mediante um ataque a Israel através do Hezbola ou Hamas”, segundo o jornal israelense Haaretez.
Consciente da tensão na fronteira setentrional israelense, Washington exortou Israel e Síria a evitarem uma escalada na região. O vice-chanceler norte-americano, William Burns, fez uma visita – sem sucesso – a Damasco, quando tentou convencer Assad a parar de fornecer armas ao Hezbola. Assad negou que a Síria tivesse algo a ver com o envio de armamento. O jornalista e analista do Haaretez, Aluf Benn, acredita que tanto Ahmadinejad quanto Netanyahu protagonizam um jogo arriscado e pergunta o que acontecerá se a diplomacia e as sanções contra o Irã não funcionarem.
Benn questionou se Israel atacará o Irã ou será forçado a dar marcha à ré e admitir que a ameaça iraniana foi exagerada. O analista acredita que os dois governos apostam que apenas um deles sobreviverá a um enfrentamento futuro. O analista israelense Diker negou-se a discutir a possibilidade de um “ataque preventivo” de Israel contra o Irã. “Mas muitos funcionários árabes que também estão preocupados com a busca de hegemonia regional do Irã me disseram que a única maneira de lidar com a teocracia islâmica é pela ação militar”, afirmou Diker à IPS. IPS/Envolverde

