Bruxelas, 18/03/2010 – Muitas das empresas automobilísticas, que há três anos conseguiram relaxar os padrões da União Europeia (UE) para reduzir a contaminação dos automóveis, agora tentam frear uma iniciativa para otimizar o gasto de combustível das caminhonetes. As propostas discutidas em Bruxelas, sede da Comissão Europeia, órgão executivo da UE, preveem que as caminhonetes não emitam mais de 135 gramas por quilômetro de dióxido de carbono, um dos gases causadores do efeito estufa, até 2020.
A iniciativa implica liberar 68 gramas por quilômetro a menos que o permitido a uma caminhonete média em 2007. Teoricamente, a medida tem o objetivo de reduzir a incidência do transporte na mudança climática, acelerado pelo aquecimento global causado pelos gases-estufa. As emissões de dióxido de carbono diminuem na maioria dos setores, mas no transporte aumentaram 36% entre 1990 e 2007. As caminhonetes representam 12% dos veículos leves de carga da União Europeia e aumentaram 50% entre 1997 e 2007.
A indústria automobilística diz estar comprometida com a redução do impacto ambiental dos veículos, mas realiza uma campanha energética contra os novos padrões propostos. “Não é factível” alcançar esse objetivo até 2020, disse Sigrid de Vries, porta-voz da Associação de Fabricantes Europeus Automóveis (Acea). “É muito fácil culpar a indústria de frear tudo”, protestou. “O setor não se opõe a essas normas. Mas esse tipo de veículo tem limitações técnicas. É fácil dizer que podem ser cumpridos os novos objetivos para reduzir as emissões, mas a que custo?”, acrescentou de Vries.
Por sua vez, os ativistas consideram que os argumentos da indústria automobilística são infundados. Algumas das grandes empresas do setor já provaram a possibilidade de melhorar a eficiência no uso de combustível dos novos modelos que surgirem no mercado. As últimas caminhonetes da empresa alemã Volkswagen, a T5, por exemplo, economizam 10% mais de combustível do que as de 2007. A coalizão ambientalista belga Transport and Environment (T&E) sustenta que os fabricantes de veículos usaram argumentos similares há três anos, quando convenceram os governantes europeus a relaxarem as metas para reduzir a contaminação causada pelos automóveis.
Os avanços tecnológicos mostraram, nos últimos anos, que suas desculpas eram enganosas, segundo a T&E. Os dois veículos mais vendidos na Europa, o Volkswagen Golf e o Ford Focus, têm modelos que consomem 99 gramas de combustível por quilômetro, o que mostra que as empresas do setor não têm grandes obstáculos para melhorar a eficiência das caminhonetes nos próximos dez anos. “Os grupos de pressão do setor automobilístico resistem às restrições sobre o dióxido de carbono, mas os engenheiros provaram que estavam equivocados”, afirmou Kerstin Meyer, da T&E. “Agora atacam os objetivos de longo prazo previstos para as caminhonetes, mas a experiência indica que seus argumentos não são críveis”, acrescentou.
De fato, Meyer pretende atingir uma meta mais ambiciosa do que o recomendado pela Comissão Europeia para as caminhonetes e chegar a 125 gramas por quilômetro. A falta de eficiência é uma desnecessária perda de recursos econômicos e as medidas para reduzir a contaminação são sensatas a partir desse mesmo ponto de vista. “As empresas gastam cerca de US$ 41 bilhões por ano em combustível para as caminhonetes”, disse Meyer. “Esse dinheiro vira fumaça e poderia ser um melhor investimento em capacitação, tecnologia e inovação”, acrescentou.
Os ministros do Meio Ambiente da UE discutiram, no dia 15, os novos padrões para as caminhonetes, propostos pela primeira vez pela Comissão Europeia em outubro de 2009. No debate, vários governantes trataram de reformar a proposta da Comissão para introduzir de forma paulatina a redução de emissões de gases-estufa nos próximos anos. A iniciativa prevê redução em duas etapas: primeiro baixar para 175 gramas/quilômetro até 2016, e depois passar a 135 gramas/quilômetro até 2020.
Alemanha, Grã-Bretanha, Itália e Polônia pressionam para que o cronograma de redução comece depois do que propõe a Comissão Europeia. Os governos, alguns dos mais fortes da UE, afirmam que o plano atual será muito pesado para os fabricantes de caminhonetes. Também querem um acordo para que haja um processo de avaliação formal em 2013 sobre a factibilidade de alcançar esse objetivo em 2020. Entretanto, a comissária europeia para políticas sobre mudança climática, Connie Hedegaard, disse que o projeto original é realista.
Além disso, Hedegaard assegurou que cada proprietário de uma caminhonete economizará mais de US$ 2,7 mil durante a vida útil de seu veículo. “Proteger o setor automotivo europeu para que não cumpra os ambiciosos padrões em matéria de mudança climática apenas dificultará a inovação e os amparará até a morte”, disse a ativista Franziska Achterberg, da organização ambientalista Greenpeace. “Após anos de inatividade, o setor finalmente dá mostras de se colocar em movimento no que diz respeito ao uso eficiente do combustível. A UE precisa fixar altos padrões e não desperdiçar a oportunidade”, acrescentou. IPS/Envolverde

