MULHERES-PARAGUAI: Novo olhar policial sobre a violência sexista

Assunção, 25/03/2010 – Os oficiais Juan Cantero e Karin Colmán terminam alguns turnos deprimidos e esgotados.

Oficiais de polícia na divisão que atende casos de violência intrafamiliar - Natalia Ruiz Díaz/IPS

Oficiais de polícia na divisão que atende casos de violência intrafamiliar - Natalia Ruiz Díaz/IPS

Mas se recompõem rápido porque sentem que seu trabalho em uma delegacia de polícia da capital do Paraguai é importante. Eles integram uma nova divisão para atender mulheres e crianças maltratadas.

Ambos têm 24 anos e trabalham desde 25 de fevereiro na Divisão de Atenção Especializada a Vítimas de Violência contra a Mulher, a Infância e a Adolescência da Sétima Delegacia, uma das duas de Assunção onde foi implementada a iniciativa, que se estenderá paulatinamente por todo o país.

“Normalmente, nas delegacias chegam todo tipo de denúncias e entre elas as de violência intrafamiliar, por isso muitas vezes não se dá atenção e acompanhamento adequados a quem denuncia”, disse Cantero à IPS.

Para sua colega Colmán, a formação e especialização é fundamental, porque a maioria dos policiais carece de perspectiva de gênero e apenas com ela a atenção pode ser apropriada.

Alguns dados e investigações levaram as autoridades paraguaias a identificar nas delegacias um ponto crítico da assistência às vítimas de violência dentro da família.

Por exemplo, o número de emergência 911 recebeu no ano passado 17 mil chamados para esse tipo de violência. Mas apenas 286 foram formalizados na delegacia.

No Paraguai, com 6,2 milhões de habitantes, as mulheres e as meninas são as principais vítimas da violência no âmbito familiar.

Em média, uma mulher morre a cada dez dias por violência sexista e durante 2009 foram 32 as assassinadas, segundo registros governamentais.

O estatal Centro Paraguaio de Estudos da População estabeleceu, com dados de 2008, que 16,8% das meninas e adolescentes sofrem violência física antes dos 15 anos e 20% viu ou ouviu seus pais ou padrastos maltratarem fisicamente suas mães.

As novas divisões policiais nasceram dentro do Comitê Interinstitucional de Atenção Integral a Vítimas de Violência, criado em 2008 pelos ministérios do Interior e da Saúde Pública, e pelas secretarias da Mulher e da Infância e Adolescência.

Seu objetivo é criar mecanismos para proteger e promover os direitos humanos, com um componente transversal de igualdade de gênero, e foi ali onde foram identificados os procedimentos policiais como o “calcanhar de Aquiles” da atenção à violência intrafamiliar.

O Ministério do Interior decidiu, então, criar estas divisões, com financiamento da cooperação espanhola.

Para María Liz Román, coordenadora do Coletivo de Mulheres 25 de Novembro, a iniciativa significou “um passo primordial na luta pela erradicação da violência baseada em gênero”.

“Muitas mulheres suportaram o desinteresse dos policiais no momento de fazer a denúncia, ouvindo frases como “volte para casa, ele é seu marido”, ou “quem sabe o que você fez” eram comuns nessas ocasiões”, disse à IPS a coordenadora da organização que assessora vítimas de maus-tratos sexistas.

Mercedes, de 39 anos, e que pediu para não citar o sobrenome, é uma dessas mulheres a quem a delegacia assustou mais do que os golpes do marido. Pelo menos por três vezes entrou em uma próxima de sua casa, sempre com hematomas visíveis, quando não com o lábio cortado.

Mas quando via no mesmo espaço, todos misturados, detidos e denunciantes, e um policial nada afável que pedia para falar, diante de todos e rapidamente, ela se inibia, pensava nas ameaças do marido de que a mataria se o denunciasse, e dava meia volta, sem que ninguém a interpelasse sobre os visíveis sinais de maus-tratos.

Suas duas filhas, de 14 e 17 anos, insistem para que denuncie e se oferecem para acompanhá-la, enquanto no bairro as vizinhas comentam que há policiais que são diferentes. Mas “me assusta meu marido ficar mais louco, embora por minhas filhas um dia me anime e volte a entrar”, disse à IPS.

O oficial Cantero assegura que agora está consciente de que a violência dentro da família é um grave problema social no Paraguai, que exige um tratamento policial diferenciado.

“As vítimas são atendidas como pessoas vulneráveis. É preciso ter paciência com elas e ajudá-las para se sentirem seguras e saberem que terão uma resposta”, explicou.

A nova divisão conta com 30 oficiais, com idades entre 24 e 30 anos, que depois de selecionados foram treinados por dois meses sobre temas como direitos humanos, perspectiva de gênero e condutas que evitem “fazer da vítima uma nova vítima”.

A oficial Colmán contou que as denúncias são feitas de forma pessoal e privada e as vítimas são orientadas sobre todos os passos a seguir.

Desde que foi aberta, esta divisão recebeu 110 denúncias, 48 por violência física contra mulheres e dez por ameaças de morte. As mulheres fizeram 57 denúncias e meninos, meninas e adolescentes outras 29.

Também atendem consultas de delegacias de todo o país sobre como proceder em alguns casos.

Na fase-piloto, são seis delegacias que terão a divisão e que foram selecionadas por seu alto histórico de casos de maus-tratos entre familiares. Três em Assunção e três em outras cidades.

Colmán acredita que a troca de experiências é fundamental. “Nos juntamos para ver o que estamos fazendo bem e o que fazemos de errado, para melhorar os procedimentos, disse. IPS/Envolverde

Natalia Ruiz Diaz

Natalia Ruiz Díaz escribe para IPS desde Paraguay, como periodista free lance. Ejerce la profesión desde 1995, y ha trabajado en los diarios Noticias y La Nación de su país, cubriendo noticias sociales y políticas. En su calidad de comunicadora social, desarrolla acciones de difusión y comunicación institucional para organizaciones no gubernamentales y agencias de cooperación internacional en materia de derechos humanos, ambiente y género.

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