NACÕES UNIDAS: Países pequenos querem fiscalizar o G20

Nações Unidas, 25/03/2010 – Quando o Grupo dos 20 (G20) assumiu em 2008 a vanguarda da luta contra a crise financeira, surgiu o temor de que esse âmbito de potências industrializadas e economias emergentes assuma, cedo ou tarde, o papel da Organização das Nações Unidas Agora, alguns membros pequenos e médios da ONU, que não querem ficar fora das decisões, começam a falar forte. Uma coalizão de 23 membros, chamada Global Governance Group, ou 3G, estabeleceu como meta evitar que a legitimidade da ONU acabe sequestrada pelo G20.

“A ONU é o único organismo mundial com participação universal e legitimidade inquestionável”, afirma o 3G em carta enviada ao secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon. Os debates do G20 deveriam reconhecer e refletir esta realidade, mas também garantir que suas ações e decisões complementem e fortaleçam a ONU, acrescenta a carta. Dentro do G20 há um grupo variado de nações. Há os mais poderosos, que também são membros da elite do G8: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia.

Em seguida aparecem Austrália, México, Turquia e Coreia do Sul, categorizados como nações industrializadas, seguidas por Arábia Saudita, Argentina, Brasil, China, Índia, Indonésia e África do Sul, países em desenvolvimento, aos quais se soma o bloco da União Europeia, de 27 membros. O 3G reclama também que seja formalizada a participação do secretário-geral da ONU nas reuniões preparatórias e cúpulas do G20. Este ano, o grupo tem cúpulas marcadas para a cidade canadense de Toronto, em 26 e 27 de junho, e em Seul, dias 11 e 12 de novembro. A carta também pede “flexibilidade suficiente do G20 para incluir alguns outros atores em discussões sobre problemas específicos”.

As últimas cúpulas do G20 contaram com participação de organizações regionais, como Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), União Africana, Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec) e Nova Aliança para o Desenvolvimento da África (Nepad). Para o 3G, esses organismos regionais não só devem participar plenamente do G20 e de seus processos como fazê-lo de um modo formal. O novo 3G é formado por Bahamas, Barein, Barbados, Botsuana, Brunei, Chile, Costa Rica, Emirados Árabes Unidos, Filipinas, Guatemala, Jamaica, Liechtenstein, Malásia, Mônaco, Nova Zelândia, Panamá, Catar, Ruanda, San Marino, Senegal, Cingapura, Suíça e Uruguai.

“A ONU tem suas próprias fortalezas”, disse à IPS o embaixador de Cingapura, Vanu Gopala Menon, um dos mentores do 3G, diante da pergunta se o G20 finalmente desbancará as Nações Unidas. Além de sua legitimidade e participação universal, tem uma Carta e a capacidade de tomar decisões vinculantes para a comunidade internacional, acrescentou. E, graças a muitas de suas agências que atuam no terreno, goza de alcance global”, ressaltou. “O G20, suas ações e decisões deveriam complementar e fortalecer a ONU”, insistiu Menon. Porém, outros temores foram expressados à IPS por um diplomata africano que pediu para não ser identificado.

As nações do G20 que também são membros do Grupo dos 77 países em desenvolvimento (Brasil, Arábia Saudita, Argentina, China, Índia, Indonésia e África do Sul) poderiam assumir posturas difusas, como defender a causa do mundo pobre e proteger seus próprios interesses econômicos ao mesmo tempo que os do mundo industrial, disse a fonte. “Vale a pena controlar como os países em desenvolvimento do G20 fazem suas apostas no que originalmente foi um clube dos homens ricos”, disse.

Quase de maneira antecipada, disse, pelo menos um chefe de governo de um grande país em desenvolvimento não participou no ano passado das sessões da Assembleia Geral da ONU para estar presente na cúpula do G20 que acontecia nos Estados Unidos, embora as duas reuniões tenham sido sucessivas. “O encontro do G20 foi, provavelmente, mais importante do que as sessões das Nações Unidas”, disse. “Pode ser um anúncio do que está por vir”, prosseguiu. Perguntado sobre a razão para criar o 3G, Menon disse à IPS que, desde novembro de 2008, o G20 assumiu uma função catalisadora de medidas mundiais para responder às crises econômica e financeira.

Embora esse papel tenha permitido adotar ações decisivas e novas que conseguiram evitar que a crise virasse depressão, há muitas dúvidas, disse Menon. Por exemplo, como serão tomadas no futuro as decisões sobre questões econômicas globais, o que representará o processo do G20 para as Nações Unidas e como as medidas que este grupo tomar afetarão o resto dos países que integram a ONU. Diante destas questões, surgiu o 3G, afirmou Menon. “Pensamos que para as deliberações do G20 se traduzirem em ações efetivas em nível mundial devem ser mais consultivas, inclusivas e transparentes”, acrescentou.

Isso requer o desenvolvimento de mecanismos eficazes para comprometer e consultar todos os países-membros da ONU, disse o diplomata. Em contraste, o 3G não está concebido como um grupo exclusivo, ressaltou. “Estamos abertos aos países que concordam com nossas ideias comuns”, disse. Essas ideias foram expressas no texto intitulado “Fortalecendo o contexto para o compromisso dos não-membros do G20”, que circulou na semana passada como um documento das Nações Unidas. IPS/Envolverde

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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