ALIMENTAÇÃO-BOLÍVIA: Pobres, gordos e mal nutridos

Buenos, Aires, 05/04/2010 – Fruta? Apenas banana. Verdura? Cebola, se estiver picada em um cozido. Carne? Não, porque engasgam e apenas aceitam salsichas. Carina Ramírez diz que seus filhos “são raros”. Consomem nada além de pão, macarrão, doces… Por isso, estão quadrados (gordos)”, afirma. A mulher que respondeu à pergunta da IPS é mãe de cinco filhos menores de 13 anos. Arrecada a vende roupa usada em Buenos Aires. Seu ex-marido recebe seguro-desemprego que destina, em parte, para comprar alimentos. Para ela, a farinha e o leite são fundamentais. “Se falta leite fico louca, porque as crianças bebem a toda hora”, afirma.

Ramírez acrescenta que seus filhos não comem quase nenhuma fruta, nem verdura ou carne magra, que sabe serem alimentos mais nutritivos e menos calóricos. Acredita que isso acontece porque seus filhos “são raros”. Contudo, para os especialistas o fenômeno, em geral, se explica pela falta de acesso familiar a uma dieta rica, variada e equilibrada. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPS) alerta que a obesidade e as doenças crônicas a ela associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças coronárias, alguns tipos de câncer e osteoporose, aumentam rapidamente na região e afetam predominantemente os mais pobres.

Ouvida pela IPS, a doutora Cecilia Albala, do Instituto de Nutrição e Tecnologia dos Alimentos da Universidade do Chile, disse que, entre todos os fatores de risco das doenças crônicas, “a obesidade é a que mais cresceu na região, e hoje é a principal enfermidade nutricional em países latino-americanos”. A obesidade e a má nutrição eram “problemas tradicionalmente considerados extremos opostos, mas agora são colocados como diferentes formas de desnutrição”, explicou. Albala afirmou que há uma “inadequada nutrição pré-natal, pós-natal e infantil”, seguida por “exposição a dietas ricas em gorduras, de alta densidade energética e pobres em micronutrientes”.

A OPS situa este assunto como novo desafio para a saúde pública na América Latina e no Caribe, onde 53 milhões de seus 561 milhões de habitantes são obesos, afirma Abala. Ela também diz que os preços dos alimentos estão ligados ao maior consumo de produtos ricos em gorduras saturadas, açúcares e sal, bem como com poucos micronutrientes. O problema não é de disponibilidade, mas de acesso aos alimentos, disse a antropóloga argentina Patricia Aguirre, autora do trabalho “Ricos magros e gordos pobres” (2004) e “Estratégias de consumo: o que comem os argentinos que comem” (2005).

“Em sociedades de mercado, a segurança alimentar não depende da disponibilidade, mas do poder de compra”, disse Aguirre à IPS. “Os alimentos são escolhidos pelo preço” e os energéticos são mais baratos do que os nutrientes, ressaltou. Por isso, o problema da desnutrição típica, que se reflete em meninos e meninas de “pele e osso”, vai dando lugar à obesidade e à má nutrição, alertou.

O nutricionista argentino Sergio Britos concorda. “Ainda se acredita que a criança com saúde é gordinha e a de baixo peso é que comove, mas, na realidade, ambos podem estar mal nutridos se a dieta à qual têm acesso possui excesso de hidratos de carbono, gorduras e açúcares e um grande déficit de micronutrientes”, explicou à IPS. “A alimentação dos mais pobres não é, necessariamente, escassa em quantidade, mas é ruim em qualidade”, acrescentou Britos, da Escola de Nutrição da Universidade de Buenos Aires.

Britos disse que a última Pesquisa Nacional de Nutrição na Argentina reflete essas tendências. Com baixo peso aparecem 3,8% das crianças entre seis meses e cinco anos que foram estudadas, e 6,6% delas são obesas. Além disso, foi registrado um déficit de nutrientes, a ponto de 16% destas crianças apresentarem anemia (falta de ferro). No caso das grávidas, essa carência chega a 30,5%.

Considerando a América Latina e o Caribe em sua totalidade, a OPS diz que a anemia afeta 16 milhões de menores de cinco anos e 32 milhões na faixa de cinco a 14 anos. Já às grávidas com baixos níveis de ferro somam cinco milhões. Há também carências de iodo e vitaminas A e B12, que levam a doenças crônicas. “Os obesos pobres escondem sua má nutrição com batatas e macarrão”, diz Aguirre.

“São as novas formas da fome. Os pobres não comem o que querem nem o que conhecem, mas o que podem”, e entre suas possibilidades raramente está consumir carne magra, lácteos em quantidade, frutas ou verduras, acrescentou. “Na cesta dos pobres comprovamos a importância que tem o preço na hora de escolher alimentos”, acrescentou. Abundam macarrão e carne gorda e quase não há frutas e verduras, caras e que rendem pouco. São as estratégias que as famílias desenvolvem para poderem comer, afirma.

Há 30 anos, ricos e pobres comiam parecido, mas desde então abriu-se uma brecha, alerta o especialista. Famílias com mais recursos têm acesso a 250 alimentos, enquanto entre os pobres a compra se restringe a 22 produtos. “São dietas pobres em cálcio, ferro, vitaminas e minerais”, assegurou. Esse desequilíbrio se reflete em corpos “mais grossos e baixos. Não é desnutrição aguda típica, mas desnutrição crônica com obesidade. Na América Latina, a obesidade ocorre em grupos com menor nível socioeconômico, fortemente associados à baixa renda”, e é muito mais comum ainda entre mulheres pobres, ressaltou. IPS/Envolverde

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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