ELEIÇÕES-SUDÃO: Apoio dos EUA desperta críticas

Washington, 07/04/2010 – As últimas declarações do enviado dos Estados Unidos ao Sudão, nas quais fazia previsões de eleições críveis nesse país africano, despertaram severas críticas a Washington. A afirmação de Scott Gration de que as eleições serão o “mais livres e justas possíveis” foi feita em um momento em que os principais partidos de oposição sudaneses realizam um amplo boicote contra o governo de Cartum.

Na semana passada, o candidato Yassir Arman, principal rival do presidente Omar Al Bashir, decidiu se retirar das eleições citando razões de segurança, o contínuo conflito na região de Darfur e supostas irregularidades no processo eleitoral. Arman recebeu o apoio do Movimento de Libertação do Povo do Sudão (SPLM), organização armada do sul que lutou contra o regime de Cartum na que é conhecida como Segunda Guerra Civil Sudanesa (1983-2005).

Este conflito terminou quando o SPLM e o governante Partido Nacional do Congresso, do presidente Bashir, assinaram o Completo Acordo de Paz, no Quênia. Os sudaneses irão às urnas nos dias 11e 13 deste mês, pela primeira vez em mais de 20 anos, para eleger novo presidente, membros do parlamento e autoridades municipais. Apesar do propagado boicote da oposição, o enviado norte-americano saiu em defesa do processo.

Os membros da comissão eleitoral “me disseram que as eleições começarão em tempo e forma, e serão o mais livres possível”, disse no sábado Gration em Cartum. “Estas pessoas fazem todo o possível para garantir que o povo do Sudão tenha acesso aos locais de votação e que os procedimentos e processos garantam transparência”, assinalou. O SPLM abandonou a disputa presidencial, mas permanece na luta por cargos parlamentares e locais. E agora, com Arman fora da camapanha, Bashir não tem adversário que realmente signifique uma ameaça.

A preocupação pelas irregularidades no sistema eleitoral, combinada com o processo iniciado contra Bashir em 2009 no Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia, por crimes de guerra e contra a humanidade, levam muitos a perguntar por que Washington decidiu apoiar tão expressamente as eleições. “Os comentários de Gration sobre o Sudão há tempos carecem de credibilidade”, afirmou John Prendergast, cofundador do “Enough Project”, do Centro para o Progresso Norte-Americano, uma iniciativa contra os genocídios e os crimes contra a humanidade.

“Tem um resultado em mente, sem nenhuma referência aos fatos no terreno”, acrescentou Prendergast, ex-diretor de Assuntos Africanos no Conselho de Segurança Nacional durante o governo de Bill Clinton (1993-2001). Também criticou que a política dos Estados Unidos para o Sudão esteja baseada em um “pensamento de desejos”. A declaração de Gration passa a ideia de que dizendo que algo é bom, será bom, afirmou. Por seu lado, Bashir prometeu realizar as eleições. “Diante nós, os dias estão contados. Não haverá adiamento, atraso, nem cancelamento”, disse o presidente em um comício no dia 3, no leste do país, segundo a agência de notícias Bloomberg.

Ainda não está claro como o mandatário reagirá diante do boicote da oposição, mas já ameaçou negar-se a realizar o referendo sobre a independência da região semiautônoma do Sudão do Sul, como estabelece para 2011 o Completo Acordo de Paz. Sudão do Sul é povoado em sua maioria por indígenas negros cristãos e animistas, enquanto o norte é dominado por árabes muçulmanos. Alguns veem a pressão do governante Partido Nacional do Congresso para realizar eleições como um esforço para fortalecer seu combatido presidente. Porém, se Bashir não tem rivais nas urnas, dificilmente pode conseguir a legitimidade de que precisa.

“Creio que a legitimidade que Bashir obterá nestas eleições é praticamente nula”, disse à IPS o analista Eric Reeves, do norte-americnao Smith College. “A questão é quanto honestamente a União Europeia, o Centro Carter, Japão e outros declararam o que viram em termos de fraude nos censos, no processo de registro e no comportamento do regime e das forças de segurança às vésperas destas eleições”, afirmou.

Em uma declaração feita em meados de março, o Centro Carter – organização sem fins lucrativos criada pelo ex-presidente Jimmy Carter, prêmio Nobel da Paz – expressou preocupação pelo “clima de insegurança” e pela limitada capacidade dos candidatos para realizar sua campanha e expressar livremente suas opiniões. As condições seriam ainda mais graves em Darfur, onde cerca de 300 mil civis foram massacrados pelas milícias árabes Janjaweed, apoiadas por Cartum, segundo dados da Organização das Nações Unidas. IPS/Envolverde

Mohammed A. Salih

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