Bangcoc, 15/04/2010 – Parece difícil que a paz retorne às ruas de Bangcoc. Depois da sangrenta repressão do fim de semana, o governo da Tailândia começou a perseguir os líderes de um maciço protesto democrático. O enorme acampamento policial de Marukhathayawan, vizinho de Hua Hin, localidade turística ao sul da capital, é um dos seis lugares preparados para alojar os dirigentes da Frente Unida pela Democracia e contra a Ditadura, cujos seguidores, que usam camisas vermelhas, somam centenas de milhares desde meados de março.
A Frente Unida reivindica a dissolução do parlamento e a realização de eleições gerais. A Tailândia é uma monarquia constitucional, mas desde o golpe de Estado militar de 2006 as Forças Armadas institucionalizaram uma tutela permanente. “Foram designados seis lugares diferentes para alojar os presos, segundo o decreto de estado de emergência”, disse Panitan Wattanayagorn, porta-voz do governo do primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva. Entre outras instalações, serão levados para duas “bases de controle fronteiriço, em Hua Hin e Lopburi”, acrescentou.
Essas bases policiais e militares “não são prisões”, disse Panitan. As autoridades “seguirão a mesma política de detenções aplicadas nas turbulentas províncias do sul do reino, onde a insurgência causou quase quatro mil mortes nos últimos seis anos”, afirmou. Uma força militar de 400 homens de Lopburi, sede das tropas especiais do exército, vai liderar as ações contra os dirigentes dos camisas vermelhas, aplicando todo o poder que têm com o estado de emergência. A polícia, autorizada a agir sem ordem judicial, já começou a bater nas casas de alguns líderes.
“O governo de Abhisit faz uma aposta. Há conflitos legais e de segurança que deverá enfrentar”, disse à IPS um diplomata ocidental. “Mas com esta temperatura política, as paixões vão arder mais, o que provocará uma resposta agressiva”, alertou. Esse é o resultado que a administração de Abhisit já conseguiu quando enviou tropas para dissolver um protesto da Frente Unida no dia 10, em um setor histórico de Bangcoc, usando munição letal. Começou, então, uma furiosa batalha que até ontem deixou 18 civis e cinco soldados mortos e mais de 850 feridos, a maioria civis.
No dia 12, Abhisit falou de atos “terroristas”. Há evidências de que homens armados, usando máscaras e camisas pretas, dispararam contra o exército por trás das fileiras de manifestantes vermelhos armados apenas com varas de bambu e paus. “O objetivo mais imediato é separar os terroristas das pessoas inocentes”, disse o primeiro-ministro, um patrício educado na britânica Universidade de Oxford, em uma mensagem transmitida pela televisão a todo o país. “O governo pede a cooperação das pessoas inocentes para isolar o movimento, e às autoridades que procedam com as medidas apropriadas para resolver o problema”, acrescenta.
“Acusar ‘terroristas’ pelo banho de sangue não elimina o fato de que o ocorrido foi um enorme erro de inteligência”, disse um diplomata asiático em uma entrevista. “Pelo que dizem os militares e o governo, não esperavam uma resposta desse tipo. De onde obtêm a informação e o quanto se pode crer em seus dados?”, perguntou. De fato, as próprias autoridades haviam acusado de inclinações violentas a Frente Unida, ao “culpar os camisas vermelhas por quase 30 misteriosas explosões em Bangcoc nas últimas semanas”, acrescentou o diplomata. “Até agora, nenhum camisa vermelha foi detido por essas bombas. Mas se havia um vínculo, então o exército deveria ter previsto os problemas do dia 10”, afirmou.
A presença de provocadores, ou a “terceira mão”, como são chamados na Tailândia, acrescenta outro problema ao governo de Abhisit: indivíduos dentro do exército que aproveitam uma repressão das autoridades para provocar o caos. Várias testemunhas confirmaram que os mascarados de negro que atiraram contra os militares agiam com grande eficiência e alto grau de treinamento. “As tentativas do governo de não se responsabilizar pelas mortes, dizendo que suas tropas não usaram projéteis letais, não passam de propaganda”, disse o acadêmico alemão Michael Nelson, que se dedica a escrever sobre este país.
Este discurso destina-se a justificar “a permanência deste governo, ao contrário do que ocorria desde a década de 70, pois os governos sempre renunciavam logo após uma repressão violenta de manifestantes”, disse Nelson à IPS. “É uma tática de sobrevivência difícil. Esta administração já tem 23 cadáveres nos ombros”. A pressão cresce por parte dos camisas vermelhas, que parecem contar com apoio de setores de todas as classes sociais, mas especialmente dos pobres das cidades e das áreas rurais empobrecidas do cinturão arrozeiro do nordeste.
Rádios comunitárias dessas áreas divulgam duras denúncias de simpatizantes da Frente Unida, comovidos pelos mortos e feridos. “Não podemos permitir que Abhisit continue no governo”, disse à IPS um produtor de arroz da província de Udon Thani. “Seremos mais pessoas a ir a Bangcoc se ele continuar no poder”. A Frente Unida, cujo patrono político é o fugitivo magnata e ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra (2001-2006), se converteu em imã do descontentamento antigovernamental.
Desde meados de março, sua reclamação por novas eleições reuniu até 150 mil manifestantes em determinados atos. A cobrança de novas eleições obedece ao questionável mecanismo que permitiu a formação do governo de Abhisit: um acordo fracassado com os militares em lugar do mandato popular. “É evidente que a sobrevivência do governo depende do apoio dos militares”, disse Nelson. IPS/Envolverde

