Nações Unidas, 11/05/2010 – No século XX, a população mundial de guepardos (Acinonyx jubatus) caiu 90%. Os que sobreviveram agora são os animais mais ameaçados da África.
Entretanto, graças a Laurie Marker, fundadora do Cheetah Conservation Fund (Fundo de Conservação do Guepardo), que durante 36 anos trabalhou para salvar estes animais da extinção, o animal terrestre mais veloz tem futuro.
A IPS conversou com Marker, ganhadora do prestigioso prêmio Tyler para Êxito Ambiental, mais conhecido como “Nobel da ecologia”.
IPS: Você começou sua carreira em um parque natural do Estado norte-americano do Oregon. Como foi parar na Namíbia?
LAURIE MARKER: Nessa época ninguém sabia nada sobre os guepardos, que se tornaram parte fundamental de minha pesquisa. Acabei na Namíbia em 1977, pesquisando sobre os guepardos. Na realidade, levei um de volta à África para verificar se ao retornar poderia aprender a caçar. E o ensinei a caçar.
IPS: Qual o tamanho do dano que os guepardos causam aos animais domésticos?
LM: Trata-se mais de uma percepção de ameaça do que de uma realidade. Em todo o mundo, os fazendeiros não gostam dos predadores, por isso um guepardo que pudesse ser visto era morto. Lamentavelmente, o mundo matou a maioria de nossos predadores.
IPS: O que os fazendeiros pensavam sobre os guepardos em 1977?
LM: Quando me mudei para a Namíbia as pessoas me diziam: “leve todos seus guepardos com você para os Estados Unidos”. Agora, de algum modo me aceitam bem, e quase pensam que os guepardos são animais especiais. Nos últimos 30 ou 40 anos, aprendemos muito sobre o sistema integrado da natureza e o papel das diferentes espécies, como as abelhas e os morcegos que são polinizadores fundamentais, e que um dos principais predadores também é um regulador de grandes sistemas saudáveis. O povoado onde vivo é chamado de “capital mundial dos guepardos”. Isso é muito interessante.
IPS: Como transmite à população a importância da biodiversidade?
LM: Por meio da educação, trabalhando com estudantes, agricultores comerciais e de subsistência e o governo, com o Departamento de Agricultura e os ministérios do Meio Ambiente e de Educação. Penso que as pessoas estão interessadas. A Namíbia foi o primeiro país que realmente incluiu a proteção ambiental em sua Constituição, assinalando que as pessoas e seu entorno natural estão interrelacionados. Depois de quase duas gerações, realmente se vê uma mudança.
IPS: Outro problema foi a perda de habitat devido à expansão das florestas espinhosas, um problema que limita a capacidade dos guepardos em divisar suas presas e também reduz o espaço aberto que precisam para caçá-las. Como se propagaram tão rapidamente?
LM: As florestas espinhosas surgiram há 50 ou 60 anos, quando os fazendeiros usaram essas terras para uma pastagem excessiva, e particularmente quando chegavam as épocas de secas. Quando desapareceu todo o pasto, porque as vacas o comeram, em boa parte dessa terra criou raízes a floresta espinhosa, que cresce muito rapidamente e tem raízes bastante profundas, absorvendo toda a água, o que impede o crescimento de pastagem. Para dizer de modo simples, esta floresta reduziu boa parte da biodiversidade, bem como do habitat.
IPS: Você propôs uma solução tanto para guepardos quanto para as pessoas. Como funciona?
LM: Cortamos as florestas e as convertemos em lascas. Em seguida, a partir delas, elaboramos um combustível ecológico, que se queima a temperaturas muito elevadas e gera emissões bastante baixas, por isso é neutro em matéria de carbono. Quando se consegue um impacto nas economias, é possível ajudar as pessoas a saírem de seu ciclo de pobreza.
IPS: Atualmente há cerca de dez mil exemplares de guepardo na África e na Ásia. Quantos devem existir para impedir sua extinção?
LM: Gostaria de duplicar essa população nos próximos dez anos. Há menos de cem anos havia cem mil desses animais.
IPS: Você usa um cão especial para proteger seus animais dos guepardos. Isto realmente serve para dissuadi-los?
LM: Estamos usando grandes variedades de cães da Turquia. Criamos e doamos aos produtores rurais. É um velho método europeu que as pessoas haviam esquecido. IPS/Envolverde


