FREETOWN, 12/05/2010 – Uma mulher sozinha: Josephine Bangali tira água do poço para ferver no lume e poder esterilizar os seus instrumentos. A clínica é feita de lama. Num dos seus três quartos encontra-se uma cama instável onde ela admite as pacientes; é também o quarto onde Bangali trabalha como parteira. Ela depende de uma lâmpada de querosene à noite, suplementada por uma lanterna quando tem meios para comprar pilhas. “As causas subjacentes à mortalidade materno-infantil têm um grande impacto e são enormes,” disse Bangali. “Se o governo quer resolver estes problemas, necessita de começar pela base.” E essa base está aqui na aldeia de Bellentin, onde Bangali é a única enfermeira que presta serviços em 15 aldeias – com 3.000 pessoas – da tribo de Bumpeh, no distrito de Moyamba, no sul da Serra Leoa. Na altura das chuvas, a água escava profundos barrancos nas estradas. Bangali disse à IPS que não há um fornecimento regular de medicamentos para satisfazer as necessidades das suas pacientes, especialmente mulheres grávidas e crianças com menos de cinco anos.
Cuidados demasiado dispendiosos? Patricia Kargbo, enfermeaira na Maternidade Christian Princess, principal centro hospitalar governamental em Freetown, um grande número de mulheres recusa-se a ir para o hospital para dar à luz – ou mesmo ir para as clínicas durante a gravidez, preferindo em vez disso ir às assistentes de parto tradicionais (APT). “Algumas mulheres preferem ser atendidas pelas assistentes de parto tradicionais – que não têm qualificações e são, na sua maioria, parteiras analfabetas – durante o parto, e algumas vezes acabam por pagar mais por estas assistentes do que teriam gasto nas clínicas ou hospitais. Em todos os casos onde há complicações, elas não as conseguem resolver e então correm para os hospitais mas, na maior parte das vezes, é demasiado tarde para se prestar ajuda” disse Kargbo. “Temos medo dos preços exigidos nos grandes hospitais,” explicou Santho Sessay, que deu à luz a quatro dos seus seis filhos em casa com a ajuda das APT. “Exigem que paguemos tudo e, se não pagamos, não somos atendidas, ao contrário do que acontece com as parteiras tradicionais. Elas ajudam-nos a ter os bebés, mesmo que não tenhamos dinheiro nessa precisa altura.”
“Na maioria das vezes tenho de comprar os meus próprios medicamentos na cidade e vendê-los às minhas pacientes com base na recuperação dos custos; porém, na maior parte das vezes, elas não os conseguem pagar, e isso significa que eu não consigo recuperar o meu dinheiro. O governo só me entrega um subsídio de cerca de 150.000 leones (35 dólares) por mês,” disse Bangali.
Às vezes acabam-se as luvas, e Bangali é forçada a cuidar das pacientes com as mãos descobertas, o que a coloca em risco numa zona onde poucas pessoas sabem o seu estatuto serológico.
Quando tem pela frente um caso que precisa de ser enviado para o hospital de Moyamba, a 65 quilómetros de distância, ela tem de andar a pé até à aldeia mais próxima, a 1.5 quilómetros de distância, para conseguir ter acesso à rede de telemóvel e chamar uma ambulância. O veículo leva muito tempo a chegar devido à má qualidade das estradas; às vezes, exige-se à família da paciente que pague o combustível para que a ambulância possa fazer a viagem de retorno.
De acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, uma em cada oito mulheres na Serra Leoa arrisca-se a falecer durante a gravidez ou parto. Uma em cada 12 crianças morrem antes do seu primeiro aniversário. Estes são alguns dos índices de mortalidade materno-infantil mais elevados em todo o mundo.
Durante o 49° aniversário da independência da Serra Leoa da Inglaterra, o governo anunciou que iria ampliar os cuidados médicos gratuitos a todas as grávidas, mulheres lactantes e crianças com menos de cinco anos.
O plano contempla a prestação de cuidados a 230.000 mulheres grávidas e perto de um milhão de crianças.
Cerca de 71 milhões de dólares foram afectados a este projecto pelos parceiros a favor do desenvolvimento – como a Ajuda Irlandesa, o Departamento para o Desenvolvimento Internacional do Reino Unido, o Fundo das Nações Unidas para a População, a UNICEF, a Organização Mundial de Saúde e o Banco Mundial.
Abass Kamara, funcionário responsável pela informação pública no Ministério Nacional da Saúde, disse que o ambicioso programa ainda apresenta uma lacuna em termos de financiamento de pouco mais de 20 milhões de dólares.
E no entanto… é suficientemente ambicioso?
Brima Sheriff, o director da Amnistia Internacional na Serra Leoa, afirma que, para se resolver o problema da mortalidade materno-infantil, é necessário alargar as actividades relevantes.
“Apesar destes enormes recursos injectados no sistema de saúde gratuito, o governo devia concentrar-se em melhorar as condições das estradas. Podemos comprar muitas ambulâncias mas, se as estradas não forem acessíveis, as ambulâncias não servem para nada,” disse à IPS. “E as mulheres e crianças continuarão a morrer porque não conseguem ter acesso a serviços de saúde gratuitos.”
No seu relatório de 2009 intitulado “Sem acesso: o custo da saúde materna na Serra Leoa”, a Amnistia Internacional afirma que os elevados níveis de mortalidade materna se devem a diversos factores, incluindo a falta de acesso aos serviços de saúde graças aos elevados custos (e receio desses custos), à má qualidade das redes de acompanhamento, à falta de pessoal médico com formação adequada e à quantidade insuficiente de medicamentos e equipamento médico.
Além disso, o relatório cita “a discriminação contra as mulheres e factores sociais que contribuem para o enfraquecimento do direito das mulheres a serviços de saúde e a falta de responsabilização a vários níveis no sistema de cuidados de saúde com vista a assegurar disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e qualidade dos serviços de saúde.”
“Julgo que vamos começar a ver um impacto considerável na capital, mas a lacuna a nível da implementação dos cuidados de saúde gratuitos irá alargar-se nos distritos, aldeias e vilas se o governo não providenciar estradas, energia eléctrica e água a todas as zonas do país de forma progressiva,” disse Sheriff.
A questão do pessoal formado é bastante grave. O porta-voz do Ministério da Saúde, Kamara, disse à IPS que só existem 825 enfermeiros registados no país; entretanto, o país precisa de outros 1.175. Também revelou que apenas existem cinco ginecologistas / obstetras – havendo só 75 médicos na sua totalidade – nos serviços governamentais em todo o país.
“O governo não consegue recrutar estes professionais devido à estrutura de baixos ordenados,” disse Kamara.
“Imaginem: um médico qualificado estava a receber menos de 400 dólares americanos por mês,” contou Sulaiman Conteh, médico no Hospital de Connaught, o maior em Freetown. “Realmente é uma insignificância e muitos dos nossos colegas não podem trabalhar no país por essas reduzidas quantias; por isso, estão a abandonar o país em direcção a outros países africanos e à Europa.”
Contudo, uma greve que teve lugar recentemente deu os seus resultados. O governo aumentou a despesa com os salários do sector da saúde para 125 milhões de doláres por ano, o que representa seis por cento do total das receitas domésticas arrecadadas.
Os benefícios da nova atenção centrada nas necessidades de saúde do país estão a começar a ser sentidos em lugares como Bellentin, onde Josephine Bangali está optimista.
“Muito recentemente, o governo regularizou os meus serviços, como parte da preparação do (programa) de saúde gratuito. Agora estou à espera de receber o meu primeiro vencimento no final deste mês, depois de ter passado quase um ano sem receber salário,” disse Bangali. “O facto de estarem preparados para fazer funcionar este (programa) é um bom sinal.”

