Papa chega a Portugal com catolicismo em queda

Lisboa, 12/05/2010 – O Papa Bento 16 começou ontem uma visita de quatro dias a Portugal, marcada por um ambiente incômodo para ele e os fiéis católicos, devido às acusações de proteção hierárquica a sacerdotes pederastas e à distribuição gratuita de preservativos por ativistas.

Ativistas distribuem preservativos antes da missa do Papa em Lisboa. - Mario de Queiroz/IPS

Ativistas distribuem preservativos antes da missa do Papa em Lisboa. - Mario de Queiroz/IPS

Esperavam pelo Papa índices desanimadores sobre a quantidade atual de católicos, em queda livre desde 1977, quando a Igreja começou a perder fieis, segundo estimativas. No último censo, de 2001, meio milhão de pessoas disseram ter passado para o campo agnóstico.

Embora 84,5% dos 10,6 milhões de portugueses digam se identificar com a tradição católica, apenas 18,7% deles seguem as práticas dessa religião. Modestos 10,3% da população nacional comunga regularmente e apenas metade dos casamentos são feitos pelo rito católico, enquanto o divórcio, o aborto e o casamento entre homossexuais são permitidos por lei. Esses números devem ser digeridos pelo conservador cardeal alemão Joseph Ratzingher, investido Papa há cinco anos e que até então, e desde 1981, foi prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, herdeira da Sagrada Congregação da Romana e Universal Inquisição, de onde proibiu que personalidades como o brasileiro Leonardo Boff ou o suíço Hans Küng ensinassem Teologia.

Outra realidade incômoda para o Papa são os quase 15 mil jovens que aderiram à iniciativa “Preservativos para o Papa em Portugal”, criada em 20 de março pelos advogados Rita Barroso Jorge, Diogo Caldas Figueira e Joana Vieira da Silva. É “uma ação de sensibilização no âmbito da luta contra a aids, mediante a distribuição gratuita de preservativos”, explicou Rita à IPS.

A ativista considerou a operação juvenil um “êxito além de nossa expectativa, ao conseguir distribuir 18 mil preservativos em três horas, contra os 16 mil que prevíramos para cinco horas”. A ação, que tem apoio das principais associações de direitos da mulher e de homossexuais e lésbicas, entre organizações da sociedade civil, se repetirá hoje e amanhã em Fátima e no dia 14 na cidade do Porto, próximos locais de visita do Papa.

Por sua vez, Diogo recordou à IPS que em março de 2009, na África, o Papa reconheceu que a aids é uma tragédia mundial, “mas foi contrário ao uso de preservativos, garantindo que agravam o problema”. Nosso protesto nasceu “diante de tamanho afastamento do Papa da realidade e das graves consequências que suas declarações podem causar na luta contra a aids”, ressaltou. Outros aspectos da viagem serão mais tranquilos.

Ao contrário do ocorrido em outras latitudes do catolicismo, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) insistiu que “não há casos concretos de pedofilia” entre os pastores do clero lusitano. O bispo Antonio Marto, vice-presidente da CEP, disse que “ninguém, até agora, apresentou queixas concretas sobre casos precisos”. Apesar disso, Carlos Esperança da Associação Ateia Portuguesa (AAP), explica que os protestos contra a pederastia dentro da Igreja Católica se referem a casos registrados em todo o mundo. Informado sobre este ambiente, o Papa reconheceu em sua conversa com os jornalistas no avião, pouco antes de pousar em Lisboa, que “o perdão não substitui a justiça”.

A AAP reconhece que deve haver respeito por Bento 16 que deve ser recebido como chefe de Estado do Vaticano, mas, ao mesmo tempo, “este é um Papa que está sob suspeita de cumplicidade com o encobrimento de crimes de pedofilia na Igreja”. O fato denunciado de proteção a sacerdotes sob investigação permitiu dar passagem “ao propósito de incriminar judicialmente Bento 16 por cumplicidade, o que está sendo estudado por juristas de diversos países”, informou o ativista.

No entanto, criticou o governo do primeiro-ministro socialista José Sócrates por ter decretado feriado nacional hoje e aceitar a chamada “tolerância de ponte” amanhã, o que fará com que milhares aproveitem a ocasião para umas curtas férias. Ricardo Alves, presidente da Associação República e Laicidade (ARL), afirma que há uma “maioria silenciosa” de portugueses aos quais “em nada interessa” o Papa e cuja ausência no trabalho incidirá negativamente sobre a economia. Também “verão sua vida afetada pela falta de serviços, principalmente escolas e hospitais”, acrescentou.

A visita do Papa criou “um clima sufocante”, afirma Alves, que se declara contra a ponte festiva, porque os trabalhadores “são obrigados a tirar um dia de suas férias anuais para cuidar dos filhos já que as escolas e os jardins de infância fecham”. Em Lisboa, Porto e na área de Fátima já se observa preços que nada têm de caridade cristã: hospedagens que normalmente custam entre US$ 40 e US$ 80 por dia passaram para US$ 180 e US$ 385 entre os dias 11 e 14 deste mês. Se o lugar oferece um balcão privado “com vista para o Papa”, o preço pode chegar a US$ 250 o dia.

A atividade que não está indo muito bem é a do pequeno comércio, ao contrário do que ocorria com seu antecessor, João Paulo II, cuja figura estampada em medalhas, bandeirolas, camisetas, pratos de cerâmica, azulejos, cinzeiros e bugigangas variadas era sucesso de venda garantido. Com Bento 16 não há entusiasmo popular por produtos relacionados com sua figura. “As lembranças com a imagem do novo Papa são uma desilusão”, afirma Jaime Alexandre, comerciante de Fátima.

As vendas durante as efemérides das “aparições da Virgem de Fátima” em 13 de maio de 1971, com o Papa anterior, foram de US$ 32, em média. Hoje não passam de US$ 6,4. Isto acontece porque, “lamentavelmente, este Papa não é tão venerado como João Paulo II”, disse Alexandre. IPS/Envolverde

Mario de Queiroz

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