Em cinco anos nenhuma criança deveria nascer com sífilis ou HIV

Buenos Aires, 12/05/2010 – Com o tratamento adequado, a transmissão de mãe para filho do vírus da deficiência imunológica humana (HIV), causador da aids, e da sífilis congênita pode ser detida. Mas, ainda assim, milhares de recém-nascidos apresentam estas doenças a cada ano na América Latina e no Caribe. “Apesar de existir uma boa cobertura de atenção pré-natal, na América Latina e no Caribe é registrada uma baixa cobertura de partos institucionais, o que representa uma barreira muito importante para a implementação de uma estratégia de eliminação” destes males.

O parágrafo pertence à “Iniciativa regional para a eliminação da transmissão materno-infantil do HIV e da sífilis congênita na América Latina e no Caribe”, divulgada no final de 2009 pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPS). Esta estratégia considera um enfoque integrado de atenção às grávidas, para erradicar a transmissão vertical das duas doenças até 2015.

Para o HIV, a eliminação se entende como a redução dos casos a 2% ou menos e para a sífilis congênita uma incidência abaixo de 0,5 casos, ou menos, incluídos os nascidos mortos para cada mil nascidos vivos. Se na região há uma média de 0,3% de grávidas com o vírus, estima-se que entre 5.700 e 10.400 crianças nasçam infectadas por transmissão vertical durante a gestação, o parto e a amamentação.

Quanto à sífilis, calcula-se que há uma média de quase 4% de latino-americanas e caribenhas com a doença e pelo menos 164 mil crianças que nascem infectadas por ano. O médico Marcelo Vila, assessor da OPS em HIV e doenças sexualmente transmissíveis (DST) para Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, explicou à IPS que “com uma adequada atenção à grávida pode-se eliminar a transmissão das duas”. O “problema é que a condição médica nem sempre é suficiente, porque há problemas de acesso ao sistema de saúde e de cobertura. Nesse ponto a região não é homogênea”, acrescentou.

O Chile tem indicadores que o colocam perto da meta, já na Argentina, no Uruguai e Paraguai os dados variam muito de acordo com as regiões, acrescentou Vila. “O que a iniciativa da OPS propõe é garantir o acesso da mulher grávida ao controle pré-natal, ao diagnóstico e ao tratamento, se necessário, que é muito simples para atacar a sífilis”, insistiu o médico argentino.

Por seu lado, a médica Bertha Gómez, assessora regional da OPS em HIV e DST para os países andinos, disse à IPS que os recursos existem, mas persistem as diferenças no acesso entre regiões e países. “Em geral, em nossas nações (da região andina) há coberturas altas de controle pré-natal e de parto institucional, há vontade política, recursos humanos disponíveis para fazer o trabalho e tecnologias para o tratamento”, assegurou.

Na América Latina e no Caribe há países que mostram indicadores-modelos nesta matéria, como é o caso de Cuba e Chile, enquanto outros estão muito atrasados, como Haiti, Bolívia ou Paraguai, disse Gómez. O informe confirma que há nações que já fizeram “progressos significativos” para a eliminação da transmissão vertical das duas doenças, mas outros mostram “brechas importantes”. No geral, “as condições básicas para a eliminação das duas enfermidades estão ao alcance da região”, diz o informe da OPS. Os tratamentos e as ferramentas de diagnóstico são “simples e acessíveis”, ressalta.

A transmissão materno-infantil do HIV pode ser reduzida com o tratamento antirretroviral na gravidez, com o tipo de parto – recomenda-se cesariana – e com a substituição do leite materno, conclui o documento. Já a sífilis congênita pode ser interrompida apenas com a administração de uma dose adequada de penicilina na grávida, acrescenta o texto. No entanto, a organização alerta que a porcentagem de grávidas que faz exame para detectar o HIV na região não passa de 55%, na média.

Uma barreira é a falta de cuidado pré-natal, outra o parto atendido por pessoal não qualificado. Também há dificuldades de acesso a exames de diagnóstico e, quando são feitos, o resultado demora um tempo inaceitável. O estudo diz, ainda, que nos sistemas de saúde persiste a “fragmentação de serviços”, o que leva ao paradoxo de haver crianças que receberam o tratamento preventivo para evitar a transmissão do HIV e logo faleceram devido à sífilis congênita.

“O que ocorreu nos últimos 20 anos é que o HIV/aids ofuscou as outras DST e agora temos que voltar a ver todas porque, embora a sífilis seja curável, não está superada”, alertou Vila. O médico explicou que um terço das gestações de mulheres com sífilis que não recebem o tratamento deriva em morte do feto, outro terço em filhos afetados em diversos graus e apenas um terço em nascimentos de sadios.

Consultada pela IPS, Patricia Pérez, coordenadora da Comunidade Internacional de Mulheres Vivendo com HIV/aids (ICW), considerou que a iniciativa “é válida”, mas alertou que é preciso que as mulheres participem para avaliar se as práticas funcionam. “Um médico pode recomendar a uma mulher com HIV que não amamente o recém-nascido, mas é provável que, por necessidade, essa mulher dê o leite maternizado a outros filhos e amamente o recém-nascido”, alertou. Para Pérez, é necessária “uma política integral para a mulher” que a atenda não só na gravidez ou nos dias posteriores ao parto, mas ao longo de toda a vida. IPS/Envolverde

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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