Cidade do Cabo, 12/05/2010 – A saúde pública da África do Sul sofre escassez de mais de 80 remédios diferentes, incluindo vacinas e medicamentos contra tuberculose e hipertensão. A gravidade da escassez varia de província para província, e de um hospital a outro, dependendo da capacidade dos respectivos administradores. Especialistas atribuem a situação a diversos fatores, como falta de farmacêuticos competentes, um ineficaz processo de licitação e falta de habilidade de algumas companhias na área da distribuição.
“Distribuição e consumo de medicamentos formam uma cadeia com muitos elos. Cada um deve funcionar de forma excelente para que um paciente receba o seu”, explicou Elma de Vries, ex-presidente da Associação de Médicos Rurais da África Austral. “Lamentavelmente, faltam alguns elos, ou estão quebrados”, acrescentou. A África do Sul tem cerca de nove mil farmacêuticos trabalhando, mas há 10.824 registrados, segundo Andy Gray, conferencista sobre terapias e administração de medicamentos na Universidade de KwaZulu Natal. Apenas 1.746 trabalham no setor público. A maioria escolhe o setor privado ou empregos no exterior, que são melhor remunerados.
Em alguns hospitais é o pessoal da enfermagem que administra as drogas, muitas vezes sem a devida capacitação para essa tarefa. Além disso, “alguns hospitais e clínicas públicas carecem de sistemas computadorizados, o que significa que não podem receber pedidos ou dar ordens suficientemente rápidas”, disse Gray. “Quando não há farmacêuticos, depende do pessoal da enfermaria entregar as ordens. E se a supervisão é inadequada, os remédios se perdem”, ressaltou.
A escassez de remédios armazenados é outro elo fraco da cadeia de fornecimento. “Os hospitais obtêm suas reservas dos depósitos provinciais, mas existe um grande número de problemas em alguns deles, onde a falta de capacitação faz com que a administração seja ruim”, afirmou De Vries. Mesmo se todos os sistemas nos depósitos funcionassem bem, o governo limita a quantidade de reservas que os hospitais podem conseguir, e por isto passam a depender dos laboratórios beneficiados por licitações estatais, explicou.
Mas Gray apontou vários inconvenientes nessas companhias. “Falta de pessoal capacitado e outros recursos, o que torna difícil para os fabricantes entregar as grandes quantidades de remédios solicitadas”. Os fabricantes “enfrentam um processo errático de ordens. Algumas províncias pedem um milhão de unidades de um medicamento específico, mas acabam comprando três milhões, ou podem fazer um pedido grande um mês e nada pedir nos próximos três”, acrescentou. Agora, a África do Sul carece da vacina Trivalente, contra a gripe H1N1.
O Instituto Nacional para Doenças Contagiosas confirmou que a escassez ocorreu porque o Departamento Nacional de Saúde destinou 1,3 milhão de doses para vacinar portadores de HIV menores de 15 anos, trabalhadores da saúde e empregados de aeroportos, centrais marítimas e outros tipos de terminais. Esta campanha sanitária é parte dos preparativos para a Copa do Mundo de futebol, que começa em junho e atrairá turistas de todo o planeta.
Isto levou as farmácias, públicas e privadas a ficarem sem vacinas. Segundo o instituto, “os problemas de produção” são outra das razões, “já que uma das cepas na vacina não cresceu bem”. Os “fabricantes não estão dispostos a produzir remédios que não gerem bons lucros. Se há uma queda no preço de certo medicamento, reduzem sua produção. Não querem ter dinheiro na prateleira na forma de mercadorias desvalorizadas”, disse Gray.
Em abril ficou escasso o antirretroviral Tenofovir no hospital de Thafalofefe, na Província Oriental do Cabo. O problema foi rapidamente resolvido, graças à intervenção de ativistas. Vuyiseka Dubula, porta-voz da Campanha de Ação por Tratamentos, que defende os direitos dos portadores de HIV, disse à IPS que a organização está “preocupada com a falta de remédios contra tuberculose e de antibióticos”.
Por sua vez, Marije Versteeg, do Projeto em Defesa da Saúde Rural, informou que faltam medicamentos contra tuberculose em áreas da província de Mpumalanga. “É uma grande preocupação, porque as pessoas precisam continuar tomando os remédios. Se param, isso pode causar uma resistência à droga, o que dificulta o tratamento”, explicou. O problema pode ser resolvido – segundo Gray – com a capacitação de mais farmacêuticos, melhoria da administração em todos os níveis e a revisão do processo de licitação. IPS/Envolverde

