A tecnologia agrícola escorre pelos dedos

Punta del Este, Uruguai, 28/05/2010 – Entregar tecnologia às comunidades para garantir a segurança alimentar não funciona se não forem consideradas as tradições e dinâmicas locais, concluíram participantes de um fórum por ocasião da Quarta Assembleia do Fundo para o Meio Ambiente Mundial (GEF). “Em Petrolina, no Estado de Pernambuco no Nordeste brasileiro, foram comprados pacotes tecnológicos para produzir banana e cebola, mas falharam porque não houve assistência técnica nem acompanhamento”, disse à IPS Espedito Rufino de Araújo, diretor do Projeto Dom Helder Câmara, do Ministério de Desenvolvimento Agrícola e do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida).

“Quiseram aplicar métodos que vêm de fora e desconhecidos para as pessoas”, disse Araújo, se referindo a uma iniciativa da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Paraíba, que contou com colaboração de organismos internacionais. Segundo o funcionário, frequentemente é feita a entrega de pacotes tecnológicos às comunidades “para combater a crise alimentar”, que pretendem ser sustentáveis com o meio ambiente e os recursos naturais, mas acabam sendo um fracasso.

“Por exemplo, no Nordeste do Brasil temos 110 diferentes áreas geoambientais. Não se pode pretender distribuir um mesmo pacote tecnológico aos 110 pontos que possuem culturas e condições socioambientais distintas”, disse ao término do painel “É possível alimentar o mundo e proteger o meio ambiente?”. O debate aconteceu no contexto da Assembleia do GEF, o mais importante instrumento financeiro de proteção ambiental. Este organismo foi criado em 1991 pelo Banco Mundial, e ficou independente em 1994. Hoje o Banco atua apenas como ente fiduciário.

Delegados dos 181 países-membros e de mais de 400 organizações não governamentais estiveram reunidos entre os dias 23 e 26, na cidade turística uruguaia de Punta del Este, para realizar a quinta rodada de reposição de fundos e definir as prioridades para o período 2010-2014. Um dos temas destacados nos encontros paralelos da Assembleia foi precisamente a relação entre segurança alimentar e proteção do entorno.

A produção agrícola do mundo precisa crescer 70% para alimentar os nove bilhões de habitantes projetados para 2050, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Mas a agricultura depende de recursos naturais limitados e gera um grande impacto nos ecossistemas. Neste contexto, torna-se vital desenvolver e disseminar novas técnicas, bem como resgatar outras. Um exemplo destacado no fórum foi um inovador sistema de irrigação desenvolvido no Oriente Médio.

Trata-se de uma rede de tubulações superficiais que podem ser enchidas com quase qualquer tipo de água (salgada, pura ou contaminada). Foi projetada pela multinacional britânica Design Technology & Irrigation em conjunto com o Fida e o governo da Jordânia, um dos países mais desérticos do mundo. “Nossa posição não é contra a transferência de tecnologias, mas de uma relação mais participativa. Temos que fazer isso com assistência técnica, pesquisa, acompanhamento e uma demonstração para que os agricultores incorporem os conhecimentos necessários”, destacou Araújo.

José Luis Tuquinga é um “chakarero” (sábio agrícola indígena) que trabalha no projeto Runa Kawasay para fortalecer organizações nativas e resgatar produtos tradicionais no Equador. Em sua opinião, “é preciso estar consciente de que a transferência tecnológica às vezes é imposta”, disse à IPS. Tuquinga explicou que a forma de viver dos nativos “é um sistema mais cristão, ligado à proteção da Pachamama (Mãe Terra). Pesticidas e insumos não aptos para a terra não funcionam”, destacou.

No projeto, financiado pelo GEF e executado pela FAO, emprega-se a sabedoria milenar e adubos orgânicos para resgatar alimentos tradicionais como a oca (uma espécie de tubérculo), a alface e a quinoa. Seu coordenador nacional, Marco Vivar, disse à IPS que nesse país foram elaborados muitos manuais técnicos, mas que às vezes não funcionam. “Em um percorrido por mais de 200 comunidades não encontrei um único indígena usando isto. Então a pergunta é o que estamos fazendo, e como?”, afirmou.

Do seu ponto de vista, a assistência técnica deveria complementar o trabalho realizado em nível local. “A ideia é respeitar as dinâmicas locais e complementar o que é preciso melhorar. Parece um principio básico e elementar, mas bem complicado de ser aplicado”, disse Vivar. Para o diretor da Divisão do Centro de Investimentos da FAO, Charles Riemenschneider, o aumento de 52% dos fundos do GEF acordado em Punta del Este, que aumentou para US$ 4,25 bilhões os recursos disponíveis para os próximos quatro anos, significa mais possibilidades de ampliar a transferência de tecnologias.

O GEF entrega recursos a países em desenvolvimento e nações com economias em transição para projetos de conservação, mudança climática, águas internacionais, degradação da terra, esgotamento da camada de ozônio e contaminantes orgânicos persistentes. A Assembleia do GEF, que concluiu suas sessões no dia 26, acordou formalmente se constituir em instrumento financeiro da Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação, adotada em 1994. As jornadas de ontem e de hoje foram de visitas a projetos financiados pelo GEF no Uruguai. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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