Durban, África do Sul, 08/06/2010 – O governo da África do Sul não tem vontade política para lutar contra a tuberculose, embora esta seja uma das principais doenças e causa de morte infantil neste país, afirmam especialistas. O sistema de saúde pública não está capacitado para diagnosticar e tratar os menores que contraíram a bactéria.
“Não se atende à enfermidade como se deveria e precisamos mudar isso urgentemente”, disse Tsholofelo Mhlaba, pesquisadora da fundação Health Systems Trust, na segunda Conferência sobre Tuberculose, realizada nesta cidade sul-africana na semana passada. “Para isso precisamos, basicamente, revisar o sistema de saúde e destinar mais dinheiro aos programas contra a tuberculose infantil”, acrescentou.
Cerca de noves milhões de pessoas contraem a bactéria a cada ano no mundo, e um terço delas vivem na África, segundo a Organização Mundial da Saúde, e mais de 15% são menores, cerca de 450 mil crianças. Não há estatísticas precisas sobre a quantidade de casos pediátricos de tuberculose em muitos países africanos, incluída a África do Sul, o que torna muito difícil a implementação de programas efetivos de saúde, dizem os especialistas. “Enquanto não soubermos como e onde os menores são infectados, não poderemos intervir de forma apropriada. Precisamos de muito mais pesquisa na África do Sul e um melhor sistema de registro e informação”, disse Mhlaba.
O Departamento de Saúde não se concentra em menores porque, ao contrário dos adultos, raramente transmitem a doença, explicou Mhlaba. Cerca de 750 mil crianças morrem na África do Sul antes dos cinco anos, 6% dos quais devido à tuberculose, segundo especialistas. “Se queremos melhorar a saúde infantil, devemos nos concentrar na doença”, disse Ben Marais, pesquisador do Departamento de Pediatria da Universidade de Stellenbosch, perto da Cidade do Cabo. “As crianças são seriamente afetadas e, quanto menores são, pior é”, acrescentou.
Os especialistas reclamam que os programas contra a tuberculose infantil sejam integrados aos dos adultos. Os pesquisadores “finalmente se dão conta da gravidade da tuberculose em crianças”, disse Peter Vranken, diretor na Suazilândia do Centro para Controle e Prevenção de Enfermidades, órgão público dos Estados Unidos. “O diagnóstico, a atenção e o tratamento da doença são muito complicados, mesmo sem levar em conta infecções como o HIV e a resistência da bactéria a diversos remédios”, acrescentou.
A tuberculose se manifesta de diferentes formas em crianças, por exemplo, com uma pneumonia. Uma radiografia não necessariamente mostra a infecção. Além disso, se é muito pequeno para, por exemplo, tossir, não se pode fazer uma análise de escarro para identificar a presença de bactérias nos pulmões e nos brônquios. É muito comum crianças com HIV contraírem a tuberculose porque seu sistema imunológico está muito debilitado. Entre 40% e 60% têm ao menos um episódio da enfermidade em sua vida. Quando a criança tem o vírus causador da aids, é muito mais difícil diagnosticá-la.
“É difícil diferenciar a tuberculose de outras infecções pulmonares oportunistas”, explicou Prakash Jeena, professor de Pediatria e Saúde Infantil da Universidade de KwaZulu-Natal, em Durban. “A tuberculose pediátrica não está bem estudada e o diagnóstico clínico ou por meio de radiografia não é confiável”, concordou Heather Zar, a presidente do Departamento de Saúde Infantil do Hospital Infantil da Cruz Vermelha na Cidade do Cabo, sul do país. O estudo da doença em crianças deve receber o mesmo orçamento e a mesma atenção que em adultos e devem ser aplicados os mesmos padrões de diagnóstico, acrescentou.
Para isso, é preciso melhorar a capacitação do pessoal da saúde, não só nos hospitais mais importantes, mas também em clínicas públicas de subúrbios e áreas rurais distantes. A organização Médicos Sem Fronteiras lançou um programa-piloto em 2009, com enfoque no paciente e uma atenção descentralizada para tratar a tuberculose, em Khayelitsha, um dos maiores municípios pobres da África do Sul, a 35 quilômetros da Cidade do Cabo. Também é capacitado o pessoal médico para diagnosticar e tratar a tuberculose, nos casos de menor e maior resistência da bactéria ao medicamento.
“É hora de aproximar o diagnóstico e o tratamento das pessoas”, disse a coordenadora da Médicos Sem Fronteiras em Khayelitsha, Andiswa Vazi. As pessoas muito pobres, que vivem fora das cidades, não podem se dirigir regularmente a um centro de saúde, o que leva à interrupção do tratamento e ao consequente aumento da resistência aos medicamentos. “É importante que as crianças que dependem de um acompanhante para receber tratamento tenham uma clínica próxima de onde vivem”, acrescentou. IPS/Envolverde

