Porto Príncipe, 14/06/2010 – Milhares de vítimas do terremoto de janeiro no Haiti correm o risco de terem de abandonar os locais onde estão abrigados, já que os donos de terrenos estão impacientes com os acampamentos improvisados em suas propriedades. O tremor de 12 de janeiro, de sete graus na escala Richter, deixou mais de 220 mil mortos e mais de um milhão de desabrigados. Em um acampamento localizado no sujo estacionamento do clube Palais de L’Art, no centro de Porto Príncipe, o temor e a frustração aumentaram, conforme as semanas se converteram em meses e as autoridades não dão uma palavra sobre quando haverá moradias sustentáveis disponíveis.
O dono do clube fechou com cadeado, no dia 7, um portão de metal, obrigando pelo menos 150 habitantes das barracas a pular um muro parcialmente derrubado, de 1,5 metro de altura, para terem acesso aos seus abrigos e pertences. “Se tivéssemos outro lugar para ir, não estaríamos aqui, sofrendo dessa maneira”, disse Reynold Louis-Jean, que lidera o comitê organizador do acampamento. “Temos idosos, pessoas que perderam membros. Agora temos de carregá-los para que possam entrar e sair”, acrescentou. O dono da propriedade “está tentando nos expulsar e não podemos aceitar isto”, disse, enquanto as famílias transportavam baldes com água sobre o muro, já que a Cruz Vermelha deixou de fornecer água ao acampamento.
Joseph Saint-Fort, o dono do Palais de L’Art, disse estar reparando o muro derrubado, o que impedirá totalmente o acesso ao local. Uma montanha de blocos de concreto aguarda em seu terreno. Em cartas e reuniões que aconteceram durante dois meses, o governo haitiano e funcionários de organizações não governamentais disseram a Saint-Fort que esperasse até que pudessem encontrar um terreno para transferir o acampamento. Mas sua paciência acabou. Durante semanas alertou que se ninguém pagava pelo uso de sua propriedade ele fecharia o portão. “Ninguém fez qualquer proposta. Terão de me obrigar a deixar que essas pessoas fiquem. Tenho contrato com muita gente desde antes do terremoto. Não é que eu seja ambicioso, simplesmente este é o lugar que usava para ganhar a vida”, afirmou.
O governo haitiano e a Organização das Nações Unidas concordaram, em abril, com uma moratória temporária para as retiradas forçadas dos acampamentos. Disseram que nenhum proprietário deveria expulsar os que vivem nas barracas, a menos que haja um espaço alternativo que atenda aos padrões humanitários mínimos. “Tomamos a decisão juntos. Contudo, aplicá-la é outra história”, disse à IPS o ministro do Interior, Paul Antoine Ben-Aimé. “Até agora não comunicamos nada à população”, acrescentou.
Não está claro se a moratória vigora. Mas isso não parece importar, porque nada é cumprido. “Em boa parte, estamos em uma zona cinza, em termos do que realmente é aplicado e do que não é”, disse Ben Majekodunmi, da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah). Segundo ele, os capacetes azuis não podem implementar uma moratória aos despejos e as autoridades haitianas parecem não estar sabendo da medida. “Este é um problema enorme que não pode ser abordado caso por caso. Temos de ter uma política” sobre o assunto, disse Majekodunmi à IPS.
O governo haitiano enviou em abril uma carta a Saint-Fort, dizendo que ao norte de Porto Príncipe haveria terras disponíveis para as quais seria possível mudar o acampamento. O proprietário disse que desde então o Ministério do Interior não entrou em contato com ele. Já no pátio de uma escola metodista particular, no bairro residencial de Petionville, 200 famílias acampam nas imediações de uma quadra de basquete. Mulheres que trabalham como vendedoras ambulantes dizem que comumente a entrada do acampamento está fechada quando precisam sair, bem cedo pela manhã.
A organização humanitária World Vision distribuiu barracas de campanha, mas “enfrentou problemas” ao instalar latrinas e fornecer água ao acampamento, segundo um de seus voluntários. “A entidade está criando um problema ao dar ajuda”, disse por telefone à IPS o pastor Thelesier Elysee. “Temos muita gente ocupando o espaço e criando insegurança. Precisamos que os levem” para outro lugar, disse, antes de desligar abruptamente o telefone. Outros pastores que administram a escola se negaram a dar declarações a respeito.
Frequentemente, a capital haitiana é catalogada como “lotada”. Porém, o bairro de Tabarre, no norte da cidade, está salpicado de terrenos verdes vazios que se estendem ao longo de movimentadas estradas. No centro de Porto Príncipe, o governo e a ONU seguem adiante com seus planos de reassentar milhares de refugiados dos acampamentos instalados em torno do palácio de Fort National, uma das áreas mais afetadas da cidade. Segundo um documento interno, a Cruz Vermelha canadense esteve “para começar a construção de abrigos transitórios”, mas no último momento teve de suspender o projeto em Fort National.
Os abrigos transitórios são casas diminutas que oferecem mais estabilidade e proteção às condições meteorológicas extremas do que as barracas e as lonas. Os especialistas preveem uma temporada de furacões muito ativa, que oficialmente começou na semana passada. No Palais de L’Art, as famílias já têm de enfrentar as fortes chuvas da tarde, que entram pelas frestas das barracas, somando-se à pressão do dono do local para que saiam. “Necessitamos que nos deem outro lugar, mas não há nenhum lugar para onde possamos ir”, disse à IPS Michel Odinor, com o peito nu, sob um típico aguaceiro vespertino. IPS/Envolverde
* Blog de Ansel Herz http://mediahacker.org

