Bangcoc, 10/06/2005 – Após sofrer escassez de alimentos e ser vítima do trabalho forçado, uma mulher de 30 anos da minoria étnica karen fugiu de sua aldeia na Birmânia para a fronteira com a Tailândia. O tratamento recebido por um jovem karen de 19 anos nas mãos do exército birmanês em sua aldeia não foi muito melhor. "Nos batiam regularmente e tínhamos de fazer muito trabalho pesado. Davam socos no meu nariz e no rosto e me batiam com uma vara nas pernas", contou. Outra mulher dessa etnia relatou o brutal assassinato de sua filha por parte de militares. "Quando os soldados dispararam contra minha filha de 13 anos, seus intestinos saltaram para fora. Sofria muito e gritava, mas não podíamos fazer nada para aliviá-la. Morreu depois de uma hora", contou.
Estes testemunhos, publicados em um informe divulgado nesta quinta-feira pela organização Human Rights Watch são os últimos de um crescente acúmulo de provas que apontam para o regime militar da Birmânia com o pior quanto ao abuso das comunidades minoritárias em todo sudeste da Ásia. "A discriminação de minorias está muito disseminada na Birmânia. Não existe um abuso tão sistemático em outras partes dessa região", declarou Brad Adams, diretor da HRW para a Ásia, em entrevista após a apresentação do informe de 70 páginas sobre deslocamentos forçados e outros abusos contra a etnia karen. "Embora o mundo tenha condenado acertadamente o tratamento dado a Aung San Suu Kyi (líder opositora que está presa e prêmio Nobel da Paz por sua resistência pacífica à ditadura militar), também deve se concentrar no deslocamento brutal dos karen e de outras comunidades étnicas", exortou Adams.
A HRW entrevistou 46 membros da etnia karen sobre suas experiências de deslocamento forçado. Em conjunto, os 46 disseram que isso ocorreu com eles mais de mil vezes em suas vidas, cinco delas mais de cem vezes. "As mulheres são as mais vulneráveis destes abusos", que se estendem a outras minorias, disse à IPS Gum Khong, investigadora da Associação de Mulheres Kachin da Tailândia (KWAT). A junta militar reprime os direitos religiosos e culturais dos kachin, disse. "Não podemos construir igrejas e discriminam nossa literatura", acrescentou Khong. Um relatório divulgado pela KWAT em meados de maio pôs uma luz sobre outros fatores, como políticas de desenvolvimento insustentável e o abandono econômico da região kachin.
Muitas mulheres dessa etnia caíram vítimas de traficantes, que as levam para a China onde são obrigadas a se prostituírem ou acabam vendidas como esposas, diz o relatório. "Várias desapareceram sem deixar rastro", acrescenta. Entretanto, mulheres da etnia shan sofrem violações sistemáticas por parte de soldados birmaneses. "A violação de mulheres se transformou em uma política do exército em seus ataques a comunidades étnicas", disse Hseng Noung, da Rede de Ação de Mulheres Shan, em declarações à IPS. Dois relatórios divulgados pela rede em 2003 e 2004 documentaram mais de 700 casos de violação de meninas e mulheres por soldados birmaneses na região dos shan, leste do país. Estes abusos aprovados pelo governo afetam quase todas as minorias étnicas, disse Noung. "Naturalmente que a junta militar tenta negá-los, mas é a realidade. As minorias não estão protegidas", afirmou. As etnias karen, shan, kachin, mon e karenni constituem quase 35% dos 62 milhões de habitantes da Birmânia, de maioria birmanesa. (IPS/Envolverde)

