ISRAEL-PALESTINA: A paz depende de máquinas demolidoras

Jerusalém, 06/07/2010 – Os enfrentamentos na disputada Jerusalém oriental voltaram a ocorrer depois que Israel acelerou seus planos de demolição de casas, deixando cerca de mil palestinos sem teto. Além disso, Israel continua despojando de sua qualidade de residentes centenas de habitantes locais. Quatro membros do Conselho Legislativo Palestino de Jerusalém receberam ordem de abandonar o país. Dentro da panela de pressão em que rapidamente se converte a parte oriental da cidade, o bairro de Silwan é um crucial cenário de atritos.

Isto ocorre após a aprovação pela municipalidade de Jerusalém da demolição de 22 casas palestinas (outras 66 estão na lista de espera), com o objetivo de deixar espaço para um parque temático judeu e uma ampliação dos bairros judeus. Tudo isto é ilegal sob o direito internacional. A municipalidade afirma que as casas palestinas foram construídas sem autorização. Mas os palestinos enfrentam uma batalha burocrática quase impossível de vencer, para obter tais autorizações, apesar da escassez crônica de moradia.

Ao mesmo tempo, as autoridades israelenses facilitam os assentamentos judeus em Jerusalém oriental, embora isto viole resoluções da Organização das Nações Unidas. O Comitê de Planejamento e Construção Distrital de Jerusalém divulgará em breve novo projeto para a expansão dos bairros judeus na área oriental da cidade, a maioria deles em terras que pertencem a palestinos.

Os soldados israelenses “podem passar com os tratores sobre os cadáveres dos meus familiares. Não abandonaremos nossos lares. Prefiro morrer a ver meus filhos sem teto. Não estou preparado para viver em uma barraca de campanha”, disse à IPS o contador Fakhri Abu Diab, porta-voz do Comitê da Área de Bustan, em Silwan, que tenta combater as demolições. Abu Diab, pai de cinco filhos cuja casa os israelenses vão demolir, acrescentou que as demolições “deixarão cerca de 1.500 palestinos sem ter para onde ir, e 62% dos sem-teto serão crianças”.

Os habitantes de Bustan tentam em parte colaborar com a municipalidade de Jerusalém. Contrataram arquitetos a um custo elevado para poderem apresentar um plano alternativo que incorpore áreas verdes ao seu bairro, e também salvar as casas. “Os planos foram rechaçados porque não encaixavam com os planos de judaizar o lugar”, disse Abu Diab. A municipalidade de Jerusalém é categórica quanto a destruir casas palestinas e desalojar os moradores de Silwan, mas não mostra a mesma determinação com os colonos que os tribunais israelenses ordenaram que abandonassem as redondezas.

Em 2008, a Corte Suprema de Israel ordenou a um grupo de colonos que desalojasse o prédio de apartamentos Beit Yonatan, em Silwan. O prefeito direitista de Jerusalém, Nir Barkat, se negou a lacrar o edifício ou expulsar os colonos judeus ilegais. Por outro lado, os moradores do prédio pretendem contratar guardas de segurança para desalojar várias famílias palestinas que vivem em uma antiga sinagoga iemenita da área.

Outro ponto importante de atritos são as ordens de expulsão emitidas contra quatro membros do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), radicados em Jerusalém e integrantes do Conselho Legislativo Palestino, após terem sido libertados de prisões israelenses. Foram presos em represália depois que, em 25 de junho de 2006, combatentes do Hamas sequestraram o soldado israelense Guilad Shalit.

Três dos quatro membros do Conselho se entrincheiraram na sede da Cruz Vermelha em Jerusalém, depois da ordem de deixar o país esta semana. Eles disseram que não abandonarão o escritório até haver uma resolução política ou diplomática da crise. O quarto integrante está preso por não ter deixado o país há várias semanas. Entre os que os apóiam, está a Autoridade Nacional Palestina (ANP), em uma incomum demonstração de solidariedade com o Hamas. O presidente da ANP, Mahmoud Abbas, do moderado partido Fatah, recebeu os membros do Conselho Legislativo em seu escritório de Ramalá. Os líderes de algumas congregações cristãs de Jerusalém também dão apoio aos quatro palestinos.

Enquanto isso, outras centenas de habitantes de Jerusalém oriental continuam vivendo com medo de perder suas casas, na medida em que as autoridades de Israel despojam da mesma palestinos que viveram ou estudaram no exterior por mais de sete anos. As autoridades israelenses também advertiram que os palestinos que participarem de manifestações poderão ter a mesma sorte. IPS/Envolverde

Mel Frykberg

Mel Frykberg began her journalism career reporting on unrest in black townships, including Soweto, in South Africa during the apartheid era. She later worked as a journalist in Sydney, Australia. Mel has worked as a journalist in the Middle East for over a decade. She has reported for a number of major international publications from Gaza, Jerusalem, Beirut, Cairo, and Amman where she has lived. Mel also edited local magazines and newspapers in the region and is a frequent commentator on the Israeli/Palestinian conflict on National Public Radio in the United States. Frykberg studied journalism in the U.K.

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