Alcântara, Brasil, 06/07/2010 – A instalação de uma base espacial em seu território alterou a forma de vida que, por um século e meio, mantiveram neste município do Estado do Maranhão os habitantes dos quilombos, as comunidades agrícolas comunitárias de antigos escravos.
Cada uma dessas comunidades do município se desenvolveu com culturas, dialetos, formas produtivas e regulamentos internos diferentes. Porém, o que as uniu foi estarem nas terras escolhidas, em 1983, pelo Ministério da Aeronáutica para instalar o Centro de Lançamento de Alcântara, uma cidade que é patrimônio cultural do país desde 1948. Um acordo entre os governos permite que os Estados Unidos usem a estação de lançamento de foguetes e acompanhamento de satélites desde 2000.
A 22 quilômetros da capital, São Luis, quase 80% dos 19 mil habitantes de Alcântara vivem dos também chamados remanescentes de quilombos e sobrevivem da pesca, agricultura e silvicultura, praticadas com métodos tradicionais. A base e suas sucessivas expansões não incluíram nenhuma consulta às comunidades nem contemplaram a continuidade de suas atividades econômicas, embora a Constituição de 1988 as reconheça como territórios originários.
Na área expropriada viviam 503 famílias em 48 comunidades, e quando o centro começou a operar cerca de 312 famílias de 32 quilombos foram transferidas para “agrovilas”, conjuntos de casas de alvenaria e alguns serviços básicos, como escola, igreja, centro social e casa da farinha de mandioca, alimento essencial para os quilombolas.
Desde 1986, foram formadas sete agrovilas, cujas famílias enfrentam o impacto da total alteração de sua antiga organização social e econômica. A divisão da propriedade extinguiu, por exemplo, o sistema secular de “uso comum da terra”, e cada unidade hoje é insuficiente para manter as famílias. A fonte complementar de subsistência, a pesca, ficou quase impraticável pela distância de praias e rios e pelo controle do litoral mantido pela base.
Em 1992, surgiu o Movimento das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Alcântara (Montra) para fazer ouvir suas demandas específicas junto ao centro espacial. As líderes também ajudaram a criar, em 1999, o Movimento de Trabalhadores Afetados pela Base Espacial, e depois integraram o Fórum de Apoio a Comunidades de Alcântara, em que organizações de todo tipo defendem os direitos dos descendentes dos escravos fugitivos ou libertados.
Algumas das consequências do deslocamento das famílias quilombolas foram o êxodo rural, a formação de assentamentos precários de palafitas e ocupações da zona urbana de Alcântara, além da violência. “A desagregação sociocultural das famílias trouxe a prostituição infanto-juvenil, muitos casos de gravidez precoce e aumento das doenças sexualmente transmissíveis”, afetando principalmente meninas e adolescentes oriundas dos quilombos, disse à IPS Fátima Diniz Ferreira, militante e ex-coordenadora do Montra.
Cajueiro, a 14 quilômetros da cidade, é um dos sete quilombos deslocados para agrovilas, onde as famílias sobrevivem plantando mandioca, milho, arroz e pescando no riacho mais próximo. As mulheres contribuem para a renda familiar, de US$ 110 mensais, com a extração artesanal de óleo de babaçu, palmeira predominante no Maranhão à qual os quilombolas dão múltiplos usos. Cada litro desse óleo usado para alimentação, limpeza e cosmética, é vendido a US$ 2,6 em São Luis ou Alcântara. “Somos 30 quebradoras de coco, e eu trabalho com isso desde os 18 anos, mas as jovens não querem fazer esse serviço porque é muito duro”, contou Zildene Torres da Silva, de 33 anos, casada e com dois filhos, que chegou à agrovila ainda menina.
Cada quebradora de coco consegue entre US$ 21 e US$ 27 mensais com o óleo. Basília Diniz Silva, de 58 anos, queixa-se que é um trabalho muito duro para tão pouco dinheiro. “Passamos muito calor, frequentemente adoecemos, porque é preciso bater com o pilão e depois levar ao fogo”, disse durante visita da IPS à agrovila. A pior parte – asseguram – fica com as jovens do novo Cajueiro, onde tem apenas uma escola primária. “As jovens aqui não têm futuro, trabalham no campo, ajudam os pais, se casam e pronto”, disse Araújo.
Torres, mãe de uma adolescente, diz que os jovens de Cajueiro quando conseguem terminar o primário, se querem continuar estudando têm de ir para Alcântara. Sua filha, de 14 anos, acrescenta que depois do secundário não há mais nada para fazer, a não ser ir para outro lugar. Regina Lúcia de Azevedo Pacheco, coordenadora do Centro de Formação para a Cidadania, participou de um projeto que se desenvolve em Alcântara, desde 2005, com a cooperação do Centro de Cultura Negra. O projeto forma o professorado nos centros urbanos do Estado em história da cultura africana e sua resistência no Brasil, de maneira a facilitar uma visão crítica da própria realidade.
As jovens têm poucas perspectivas. “O sonho da universidade está muito longe da maioria, limitadas a um futuro de tarefas domésticas, ter filhos muito cedo ou emigrar para centros urbanos e trabalhar como empregada doméstica, ou ainda engrossar a fila dos desempregados ou subempregados”, disse Pacheco. Se querem continuar os estudos, têm de partir, e isso não é fácil para as economias familiares quilombolas. “Às vezes, as meninas repetem vários anos a última série da escola primária porque não têm como sair de suas comunidades”, afirmou.
Além disso, atualmente a base espacial se prepara para lançar foguetes e pretende estender sua área de cobertura, o que diminuirá ainda mais o espaço para os quilombos. As comunidades buscam um pronunciamento do Tribunal Federal que determine o cumprimento do compromisso de não ampliar a instalação em áreas quilombolas de alto rendimento. Pacheco considera que há um processo de extermínio dos quilombolas de Alcântara, que vivem em ameaça perpétua, apesar da resistência de suas comunidades e de a maioria não querer deixar para trás a terra onde nasceram e cresceram, nem sua história individual e coletiva. IPS/Envolverde


