Montevidéu, 07/07/2010 – As doenças cardiorrespiratórias e de transmissão hídrica crescem junto com a mudança climática no Uruguai, enquanto a dengue e a malária rondam a fronteira. O aumento da temperatura propicia a presença de vetores de males erradicados há décadas, alertam especialistas. Os cada vez mais comuns eventos meteorológicos extremos que afetam o país têm especial impacto na saúde dos setores sociais de menor renda, aglomerados em moradias precárias e carentes de saneamento, como ocorre nos assentamentos irregulares que crescem de maneira exponencial desde a década de 90 em Montevidéu e sua área metropolitana, muitos localizados em terras baixas expostas às inundações.
Diarréia, focos de hepatite A e leptospirose são algumas das doenças que mais frequentemente aparecem em razão das enchentes e do mau manejo do esgoto, explicou à IPS a diretora da Divisão Saúde Ambiental e Ocupacional do Ministério de Saúde Pública, Carmen Ciganda. “Não são doenças produzidas especificamente pela mudança climática, mas estão associadas e incrementadas por inundações ou secas”, acrescentou. As patologias respiratórias atendidas no hospital Pereira Rossell, o principal centro de saúde infantil do país, passaram de 17,7% do total em 2003 para 23,3% em 2007, enquanto os casos de leptospirose subiram de 64 para 106 entre 2006 e 2007.
Ciganda alerta para as ameaças que até agora foram retidas nas fronteiras. “Se nosso clima se tropicalizar, teremos um cenário mais favorável para a presença de vetores que transmitem doenças como dengue, febre amarela e malária”, afirmou. A temperatura média anual do Uruguai aumentou 0,8 graus nos últimos cem anos e a média atual é maior na primavera e no verão do que era no começo do Século 20, enquanto as precipitações aumentaram sua magnitude e frequência nos últimos 50 anos.
Diante de um cenário como esse, os mais vulneráveis são os habitantes de bairros precários, com deficiências de serviços ou que carecem de rede sanitária, e as crianças e idosos, que precisam de cuidados de terceiros. Também os que residem na faixa costeira ou em áreas inundáveis. Cerca de 300 mil uruguaios vivem nos 566 assentamentos existentes, 37% dos quais formados na década de 90, segundo estudos publicados no ano passado. Desses bairros, 75% estão na periferia de Montevidéu e no vizinho Canelones, dois dos 19 departamentos em que está dividido este país com 3,3 milhões de habitantes.
Muralha resistente
O Uruguai é o único país da América Latina onde não há atualmente casos de dengue autóctones, apesar de a epidemia se expandir pelos vizinhos Brasil, Argentina e Paraguai. Os que aparecem são isolados e importados por pessoas que estiveram em áreas onde a enfermidade é endêmica. Tampouco há casos de malária, nem da temível febre amarela que assolou Montevidéu em 1857 e que, em 1870, dizimou a população da vizinha Buenos Aires.
Contudo, o estatal Sistema de Vigilância Entomológica detectou, em 1997, o reaparecimento do mosquito Aedes aegypti, vetor da dengue e da febre amarela, que fora eliminado em 1958. “Constatamos desde 2007 a presença do mosquito na capital. Os verões, e o fato de o frio do inverno começar apenas no final de maio, fazem com que os mosquitos não cheguem ao estado de letargia próprio do frio e se reproduzam por mais tempo”, disse à IPS o coordenador do Comitê Departamental de Emergência de Montevidéu, Daniel Soria.
O coordenador acrescentou que as fortes e repetidas chuvas, produto da variabilidade climática, complicam ainda mais os planos de luta contra a entrada da dengue e outras doenças no país. “Quando caem 50 ou 60 milímetros de água em menos de meia hora, entra em colapso o sistema de saneamento da capital e os moradores dos assentamentos são os que mais sofrem”, afirmou Soria.
Em Montevidéu, onde vivem 40% dos uruguaios, “o transbordamento dos principais riachos que cruzam a cidade – Miguelete, Pantanoso e Carrasco – causa grandes enchentes, e isso faz com que sejam necessárias evacuações constantes”, detalhou Soria. No Uruguai, quase 60 mil pessoas foram evacuadas e calcula-se que mais de meio milhão foram afetadas de diferentes formas, entre 1997 e 2008, devido às inundações causadas pelo aumento das chuvas em 30%, com previsão de que este fenômeno se acentue no futuro, segundo informes oficiais.
A última grande inundação, comparada apenas com a maior do Século 20, registrada em 1959, ocorreu em maio de 2007, devido a um recorde e chuvas superiores a 400% da média nessa época do ano. Como principal linha de ação, foi criado o Sistema Nacional de Resposta à Mudança Climática, integrado por vários ministérios. No inverno, funcionam centros de atenção em dois hospitais de Montevidéu, que, entre outras coisas, fazem um acompanhamento da hipotermia em pacientes e estudam a prevalência de casos de pneumonia e doenças pulmonares crônicas.
Essa tarefa também é realizada especialmente “nos departamentos de Artigas, Salto e Paysandú, onde são registradas as temperaturas mais altas e há maior vulnerabilidade por estarem na fronteira com Brasil e Argentina”, explicou Ciganda, acrescentando que também é feito um trabalho conjunto com os governos vizinhos. “Fortalecer a vigilância sobre determinadas enfermidades, criar planos de vigilância entomológica, instalar centros de atenção, monitorar vetores, capacitar e sensibilizar os profissionais da saúde são algumas das linhas de ação em nível regional”, informou Ciganda.
Estas e outras ações do sistema de saúde permitiram que ainda não seja detectado, em Durazno, “focos epidêmicos ou doenças prevalentes além das comuns da época, como as infecções respiratórias”, segundo María Bocchiardo, coordenadora da rede de Administração de Serviços de Saúde do Estado neste departamento. Neste distrito do centro do país, um dos mais afetados pelas inundações e onde ainda há pessoas evacuadas, não houve um aumento dos casos, nem uma gravidade diferente ou aumentada pelas cheias registradas em 2009, graças às medidas preventivas adotadas, disse a médica. IPS/Envolverde

