Washington, 10/06/2005 – Nove espécies de golfinho e botos estarão extintos dentro de poucas décadas se não forem tomadas medidas para impedir que estes mamíferos morram presos em redes de pesca, advertiu o Fundo Mundial para a Natureza (WWF). O documento "À beira da extinção: Prioridades globais para salvar golfinhos e botos ameaçados pela pesca incidental", identifica as populações mais ameaçadas, da Argentina a Zanzibar. A idéia é converter este estudo do WWF em um manual para funcionários nacionais e mundiais, especialmente para os da Comissão Baleeira Internacional (CBI), que se reunirá na próxima semana na Coréia do Sul.
"Quase mil baleias, golfinhos e botos morrem por dia em redes e artefatos de pesca, e algumas espécies são levadas á beira da extinção", disse Karen Baragona, do programa de conservação de espécies do WWF. "Elaboramos este ranking para ajudar os governos e as agências a destinarem seus investimentos com melhor rendimento". A divulgação do informe coincidiu, nos Estados Unidos, com uma proposta de destinar US$ 5 milhões anualmente a ações para reduzir em todo o mundo a morte acidental de mamíferos marinhos e tartarugas presos em artefatos de pesca. O projeto de lei nesse sentido foi apresentado no Congresso pela senadora Bárbara Boxer.
"Pedimos urgência ao Congresso para aprovação desta lei e para usar nosso relatório com a finalidade de destinar melhor os recursos nos lugares" onde são necessários, disse Baragona. "Estas mortes acidentais podem ser significativamente reduzidas, freqüentemente com soluções simples e baratas". As companhias de pesca norte-americanas implementaram entre 1993 e 2003 medidas que reduziram em dois terços a morte de cetáceos (Baleias, golfinhos e botos) presos em trasmalhos (gillnet, em inglês).
O trasmalho é um tipo de artefato de pesca que combina três redes sobrepostas com malhas de tamanhos diferentes, de modo que o peixe pode passar sua cabeça, mas não consegue tirá-la dali quando tenta voltar, pois fica preso pela superfície sobressalente de suas guelras. Os trasmalhos são, em geral, jogados como enmalle. Com esta técnica, o extremo inferior da rede é mantido no fundo do mar por um lastro e o superior é mantido por flutuadores. Assim, a malha forma uma espécie de parede desde o fundo do mar até a superfície. As tecnologias que permitiram reduzir a mortalidade de cetáceos presos acidentalmente nesse artefato não está disponível no Sul em desenvolvimento.
As modificações destes artefatos para reduzir essas mortes incluem o uso de cordas avermelhadas incandescentes, fáceis de se perceber, e materiais rígidos, que podem ser quebrados por animais de porte maiores do que os peixes que se pretende apanhar. Mais de 300 mil baleias, golfinhos e botos morrem afogados por ano, incapazes de subirem à superfície do mar para respirar por estarem presos em redes. Golfinhos e outros grandes cetáceos têm dificuldades para perceber a rede. Assim, ficam presos nelas com freqüência e, impossibilitados de subirem à superfície para respirar, acabam se afogando.
Cientistas especialistas em golfinhos e botos consultados para o estudo do WWF estabeleceram uma lista das espécies mais ameaçadas por esse tipo de rede e as que têm mais possibilidades de se recuperarem rapidamente se forem adotadas medidas. As prioridades, segundo os técnicos, se situam em nome espécies. A primeira da lista é o golfinho do Irraqaddy. Estes 500 cetáceos são ameaçados não só pelos artefatos de enmalle em rios e lagos do sudeste da Ásia, mas também por redes caranguejeiras no estreito de Malampaya, nas Filipinas. Os trasmalhos também são um perigo para os golfinhos- corcundas ou focinho de garrafa na costa meridional de Zanzibar, que somam 230, o boto comum do mar negro, os golfinhos de Spinner e de Fraser nas Filipinas, o golfinho- corcunda no litoral atlântico africano, o boto-de-burmeister do Peru, a franciscana da Argentina, Uruguai e Brasil e o golfinho Comemrson na Argentina.
Para cada caso devem ser tomadas medidas diferentes. Quanto ao golfinho do Irrawaddy, os pescadores deveriam utilizar sons para impedir a aproximação dos cetáceos e recolher suas redes com maior freqüência. Além disso, deveriam se estabelecer em áreas onde seja proibida a pesca com trasmalho. Os especialistas recomendam em países como Zanzibar, onde a captura de golfinhos-corcundas e focinho de garrafa está proibida, que incentivem o turismo de avistamento de baleias e uma pesca mais seletiva. (IPS/Envolverde)

