PARIS, 14/07/2010 – (Tierramérica).- A indústria automobilística europeia continua elevando sua contaminação do clima e não há perspectivas de mudanças radicais para evitar uma catástrofe ambiental.

Congestionamento na Alemanha. As tendências indicam que cresce, ao invés de diminuir, o uso de automóveis - Julio Godoy/IPS
De fato, o aumento desses gases emitidos pelo transporte terrestre da UE registrado desde 1990 supera as reduções obtidas mediante motores mais eficientes, segundo um informe da Agência Europeia de Meio Ambiente (Aema). O estudo “Para um Sistema de Transporte Eficiente com o Uso dos Recursos” concluiu que as emissões do transporte terrestre do bloco aumentaram 28% entre 1990 e 2007, enquanto no mesmo período a UE reduziu em 5% sua contaminação total com gases que provocam o aquecimento global.
O aumento registrado não inclui o transporte marítimo nem aéreo internacional, e é inclusive maior, segundo Jacqueline McGlade, diretora-executiva da Aema. “Se incluirmos os setores vinculados ao transporte, como criação e manutenção de infraestrutura, produção de veículos, exploração de petróleo e outros combustíveis, então o transporte gera quase um terço de todas as emissões de gases-estufa”, explicou Jacqueline ao Terramérica. O setor automobilístico é responsável por quase 19,3% das emissões totais do bloco, diz o estudo publicado em abril.
Uma área emblemática do fracasso é o trem. Em 1997, 50% das mercadorias dos 12 países do leste europeu que hoje integram a UE eram transportados por via férrea. Atualmente, apenas 30% seguem por esta via. Na Europa ocidental, o trem transporta 18% das cargas, o mesmo que em 1997. E tampouco há aumento no transporte humano de longa distância, que continua em 20%. Menos trem é igual a mais transporte rodoviário e aéreo, dois setores que cresceram, respectivamente, 43% e 35%, entre 1997 e 2007.
Os cientistas alertam que evitar uma mudança climática desastrosa exige que a temperatura global não aumente mais do que dois graus até 2050, o que só se conseguirá reduzindo em 50% as emissões mundiais de gases-estufa para esse ano. Aos países industrializados cabe uma redução entre 80% e 95%. E vários estudos indicam que, para a UE, isto exigiria uma diminuição de 80% das emissões do transporte nos próximos 40 anos, meta que Jacqueline considera impossível. “Nenhum dos cenários considerados no relatório de 2010 permitiria uma redução dessa envergadura”, destacou.
O potencial maior está em combinar melhorias técnicas nos motores, para reduzir drasticamente a queima de combustíveis, revolucionar as rotinas de mobilidade pessoal e incentivar a redução de viagens, afirmou Jacqueline. “As reduções desejadas serão possíveis somente com políticas de transporte que não se apoiem exclusivamente em melhorias tecnológicas”, completou. As formas como as pessoas se movimentam devem mudar em beneficio de sistemas coletivos de baixa emissão, ou de opções individuais como caminhar ou andar de bicicleta. O progresso técnico deve ser aplicado para reduzir o consumo de combustível fóssil e introduzir motores elétricos.
As avaliações não levam ao otimismo, e não apenas no âmbito europeu. Segundo um estudo do Instituto de Prognósticos Ambientais da Alemanha intitulado “Consequências de uma Motorização Global”, a proporção de automóveis por pessoa não para de crescer. A frota mundial de automóveis se multiplicará por 4,5 até 2030, chegando a 2,3 bilhões de unidades, diz a pesquisa após analisar as tendências em 122 países. Isto duplicaria o consumo de combustível e as emissões de dióxido de carbono do transporte, afirma o estudo que é feito desde 1995 e cuja última atualização foi em 2008. “Se esta previsão se concretizar, uma catástrofe ambiental global seria inevitável”, sustenta o informe.
Em 2006, as emissões médias de dióxido de carbono dos carros europeus eram de 160 gramas por quilômetro. Em 2009, a UE impôs a meta de 130 gramas/quilômetro para toda a frota de veículos de passageiros à venda em 2015 e de 95 gramas até 2020. É possível chegar a 2040 com 30 gramas/quilômetro, disse ao Terramérica a especialista em transportes Franziska Achterberg, do capitulo alemão do Greenpeace. “Só é preciso que os governos e a indústria automobilística sejam mais ambiciosos e honestos em suas intenções de mitigar a mudança climática”, acrescentou.
Uma pesquisa encomendada pelo Greenpeace ao Centre for Business Relationships Accountability, Sustainability and Society, da britânica Universidade de Cardiff, diz que em 2020 a indústria automobilística europeia poderá chegar a 80 gramas por quilômetro e a 30 em 2040. O estudo, apresentado em maio, cujo título poderia ser traduzido para “Reduzindo o Limite: Opções para que a Indústria Automotiva Europeia Consiga 80 Gramas de Dióxido de Carbono por Quilômetro em 2020”, apresenta diferentes cenários que combinam avanços técnicos para consumir menos gasolina, presença crescente de veículos leves e motores elétricos, alimentados por fontes renováveis.
* O autor é correspondente da IPS.

