Em guarda diante de uma possível nova guerra

Ramalá, Cisjordânia, 14/07/2010 – O serviço de inteligência de Israel alertou que não pode ser descartada uma nova guerra contra o Hezbolá (Partido de Deus) na fronteira com o Líbano, depois das tensões surgidas entre as forças de paz da Organização das Nações Unidas e partidários desse movimento xiita pró-iraniano.

Tanques da Unifil patrulham o sul do Líbano. - Jorge Aramburu/UN DPI Photo

Tanques da Unifil patrulham o sul do Líbano. - Jorge Aramburu/UN DPI Photo

“Israel deve estar pronto para qualquer provocação-surpresa ou foco de hostilidades”, disse à IPS o analista Dan Diker, do Centro para Assuntos Públicos de Jerusalém, recordando que a última guerra entre os dois lados, em 2006, “foi causada pela captura de soldados israelenses por parte do Hezbolá.

Naquele ano, guerrilhas do Hezbolá tomaram como reféns vários soldados israelenses na fronteira, o que desatou enfrentamentos entre o Estado judeu e esse movimento durante mais de um mês, até que a resolução 1701 da Organização das Nações Unidas (ONU) pôs fim às hostilidades. Entretanto, o analista Samir Awad, da Universidade Birzeit, próximo à cidade palestina de Ramalá, pensa que as probabilidades de um novo confronto militar em futuro próximo são escassas, e que as atuais tensões têm mais a ver com a política interna libanesa.

“Nenhuma parte quer uma guerra neste momento. Nem Israel, nem o Hezbolá estão dispostos a pagar o alto preço de um novo e sangrento conflito. Os acontecimentos no sul estão relacionados com uma luta de poder dentro do governo libanês”, afirmou Awad à IPS. A inteligência israelense informou sobre um aumento no contrabando de armas para o sul do Líbano através de sua porosa fronteira com a Síria. Também há informes de atividades dos Corpos de Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, na zona sul do Rio Litani.

A resolução 1701 chama pelo desarmamento das milícias libanesas (especificamente o Hezbolá) e exige que o sul do Líbano seja administrado pelas Forças das Nações Unidas no Líbano (Unifil) e pelo exército local. Israel foi obrigado, em 2000, a se retirar do que considerava sua “zona de segurança” na fronteira com o Líbano diante da forte resistência do Hezbolá.

As Forças de Defesa Israelenses alertaram para uma crescente atividade militar na aldeia libanesa de Al Khiam, e que células do Hezbolá se preparam para uma emboscada contra soldados israelenses. Al Khiam tem uma importância estratégica particular. Em 2007, uma bomba à beira de uma rodovia, supostamente colocada pelo Hezbolá, matou seis soldados espanhois da Unifil. O ataque foi visto por muitos como uma mensagem à força internacional sobre a capacidade do movimento para controlar a área. “O Hezbolá considera o Líbano como uma subcolônia do Irã. Enfrentar a Unifil com provocações é sua forma de lutar contra o que considera uma intervenção estrangeira em seu país, e uma maneira de mostrar à ONU quem é o chefe no Líbano”, disse Diker à IPS.

As tropas da Unifil encontram crescente resistência em Al Khiam. Nas últimas duas semanas, houve quase 20 enfrentamentos entre aldeões xiitas e soldados da força internacional. Os moradores, que simpatizam com o Hezbolá, atiraram pedras contra os soldados, tomaram suas armas, subiram nos tanques e em um caso quebraram a antena de um deles. As armas só foram devolvidas aos seus donos após a intervenção do exército libanês.

Por outro lado, as difíceis relações entre os diferentes setores dentro do exército libanês se agravaram depois que este tentou enfrentar o Hezbolá. Muitos oficiais são xiitas, e, portanto, simpatizam com o movimento. “O Hezbolá conseguiu reter suas armas apesar da resolução 1701”, ressaltou Awad. “Também conseguiu retirar apoio da coalizão governante 14 de Março, liderada pelo pró-ocidental Saad Hariri”, acrescentou.

“Além disso, continua se apresentando com sucesso como libertador da parte norte da aldeia de Ghajar. O governo libanês deve reconhecer que perde mais e mais poder diante do Hezbolá no sul e que já não controla todo o país”, declarou Awad à IPS. Para o professor Moshe Ma’oz, da Universidade Hebreia de Jerusalém, uma guerra no curto prazo parece improvável.

“Isto tem mais a ver com o Irã alertando Israel, por meio do Hezbolá, para que não o ataque. Também tem a ver com manter a dissuasão mútua, já que Irã e Israel sempre trocam alertas para não se atacarem”, afirmou Ma’oz à IPS. “Porém, isto poderia mudar caso Síria e Israel façam a paz. A Síria insinuou várias vezes que deseja obter um acordo com Israel, sob seus próprios termos, naturalmente. Se isso ocorrer, o Irã poderia atuar por meio do Hezbolá para desbaratar os planos”, ressaltou. IPS/Envolverde

Mel Frykberg

Mel Frykberg began her journalism career reporting on unrest in black townships, including Soweto, in South Africa during the apartheid era. She later worked as a journalist in Sydney, Australia. Mel has worked as a journalist in the Middle East for over a decade. She has reported for a number of major international publications from Gaza, Jerusalem, Beirut, Cairo, and Amman where she has lived. Mel also edited local magazines and newspapers in the region and is a frequent commentator on the Israeli/Palestinian conflict on National Public Radio in the United States. Frykberg studied journalism in the U.K.

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