Ramalá, Cisjordânia, 14/07/2010 – O serviço de inteligência de Israel alertou que não pode ser descartada uma nova guerra contra o Hezbolá (Partido de Deus) na fronteira com o Líbano, depois das tensões surgidas entre as forças de paz da Organização das Nações Unidas e partidários desse movimento xiita pró-iraniano.
Naquele ano, guerrilhas do Hezbolá tomaram como reféns vários soldados israelenses na fronteira, o que desatou enfrentamentos entre o Estado judeu e esse movimento durante mais de um mês, até que a resolução 1701 da Organização das Nações Unidas (ONU) pôs fim às hostilidades. Entretanto, o analista Samir Awad, da Universidade Birzeit, próximo à cidade palestina de Ramalá, pensa que as probabilidades de um novo confronto militar em futuro próximo são escassas, e que as atuais tensões têm mais a ver com a política interna libanesa.
“Nenhuma parte quer uma guerra neste momento. Nem Israel, nem o Hezbolá estão dispostos a pagar o alto preço de um novo e sangrento conflito. Os acontecimentos no sul estão relacionados com uma luta de poder dentro do governo libanês”, afirmou Awad à IPS. A inteligência israelense informou sobre um aumento no contrabando de armas para o sul do Líbano através de sua porosa fronteira com a Síria. Também há informes de atividades dos Corpos de Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, na zona sul do Rio Litani.
A resolução 1701 chama pelo desarmamento das milícias libanesas (especificamente o Hezbolá) e exige que o sul do Líbano seja administrado pelas Forças das Nações Unidas no Líbano (Unifil) e pelo exército local. Israel foi obrigado, em 2000, a se retirar do que considerava sua “zona de segurança” na fronteira com o Líbano diante da forte resistência do Hezbolá.
As Forças de Defesa Israelenses alertaram para uma crescente atividade militar na aldeia libanesa de Al Khiam, e que células do Hezbolá se preparam para uma emboscada contra soldados israelenses. Al Khiam tem uma importância estratégica particular. Em 2007, uma bomba à beira de uma rodovia, supostamente colocada pelo Hezbolá, matou seis soldados espanhois da Unifil. O ataque foi visto por muitos como uma mensagem à força internacional sobre a capacidade do movimento para controlar a área. “O Hezbolá considera o Líbano como uma subcolônia do Irã. Enfrentar a Unifil com provocações é sua forma de lutar contra o que considera uma intervenção estrangeira em seu país, e uma maneira de mostrar à ONU quem é o chefe no Líbano”, disse Diker à IPS.
As tropas da Unifil encontram crescente resistência em Al Khiam. Nas últimas duas semanas, houve quase 20 enfrentamentos entre aldeões xiitas e soldados da força internacional. Os moradores, que simpatizam com o Hezbolá, atiraram pedras contra os soldados, tomaram suas armas, subiram nos tanques e em um caso quebraram a antena de um deles. As armas só foram devolvidas aos seus donos após a intervenção do exército libanês.
Por outro lado, as difíceis relações entre os diferentes setores dentro do exército libanês se agravaram depois que este tentou enfrentar o Hezbolá. Muitos oficiais são xiitas, e, portanto, simpatizam com o movimento. “O Hezbolá conseguiu reter suas armas apesar da resolução 1701”, ressaltou Awad. “Também conseguiu retirar apoio da coalizão governante 14 de Março, liderada pelo pró-ocidental Saad Hariri”, acrescentou.
“Além disso, continua se apresentando com sucesso como libertador da parte norte da aldeia de Ghajar. O governo libanês deve reconhecer que perde mais e mais poder diante do Hezbolá no sul e que já não controla todo o país”, declarou Awad à IPS. Para o professor Moshe Ma’oz, da Universidade Hebreia de Jerusalém, uma guerra no curto prazo parece improvável.
“Isto tem mais a ver com o Irã alertando Israel, por meio do Hezbolá, para que não o ataque. Também tem a ver com manter a dissuasão mútua, já que Irã e Israel sempre trocam alertas para não se atacarem”, afirmou Ma’oz à IPS. “Porém, isto poderia mudar caso Síria e Israel façam a paz. A Síria insinuou várias vezes que deseja obter um acordo com Israel, sob seus próprios termos, naturalmente. Se isso ocorrer, o Irã poderia atuar por meio do Hezbolá para desbaratar os planos”, ressaltou. IPS/Envolverde


