Barcelona, Espanha, 23/07/2010 – Ao contrário de outros imigrantes, chegados à Espanha em busca de um trabalho para melhorar suas condições de vida, o brasileiro Flávio José Carvalho da Silva, de 39 anos, veio para esta cidade porque se apaixonou por uma catalã. Formado em sociologia e antropologia com mestrado em política na Universidade Federal de Pernambuco, Flávio José conheceu quem agora é sua mulher durante uma das reuniões do Fórum Social Mundial no Brasil.
Há cinco anos vive nesta capital da comunidade autônoma da Catalunha, nordeste do país, e desde abril engrossa os números do desemprego, em meio à segunda onda da crise financeira global, que tem a Europa como protagonista e que, no caso da Espanha, destruiu vorazmente postos de trabalho.
Neste país de 47 milhões de habitantes, junho terminou com quase quatro milhões de pessoas sem trabalho, 20% da população economicamente ativa. O Ministério do Trabalho e da Imigração informou que o número total de desempregados aumentou 11,7% com relação a junho de 2009. E, no caso dos estrangeiros, o crescimento foi de 20,4%.
Flávio José chegou a trabalhar na vindima de um povoado próximo de Barcelona, mas depois conseguiu trabalhos mais de acordo com sua formação, embora sempre com contratos temporários. Trabalhou em organizações de moradores e imigrantes e depois na Associação para a Cooperação Internacional de Barcelona, onde ajudou a organizar a base de dados de seus membros, até ser demitido. Seu seguro-desemprego está para terminar e não vê perspectivas, por isso ele e sua mulher pensam no retorno com os dois filhos, disse à IPS.
Flávio José duvida que os brasileiros estejam voltando. O certo é que muitos preparam as malas com destino à Espanha, pelo número de consultas que chegam sobre como instalar-se em Barcelona. Ele acredita que no Brasil se mantém o desejo de emigrar, porque o real está estável, o que permitiu economizar e assumir riscos de provar o gosto de viver em outros países. Quanto à crise, os brasileiros aprenderam a driblar seus efeitos há muito tempo.
No caso de Barcelona, soma-se o fato de ter clima quente, com praias, diversão e cultura, como o Rio de Janeiro, e um ambiente de trabalho como em São Paulo. A cidade é “como uma miniatura do Brasil, com brasileiros de todas as classes sociais e todo tipo de trabalho”, afirmou. Pode ser que a crise abra uma oportunidade de trabalho para ele. “Vejo quantos precisam de apoio e ideias para projetos”, disse, e organizar grupos e sobreviver nas dificuldades é parte de sua experiência desde quando vivia no Brasil.
Flávio José integra uma rede que busca organizar os migrantes brasileiros, para exigir melhores serviços nos consulados do país e mais assistência aos residentes no exterior, e vai se candidatar a membro do Conselho de Brasileiros no Mundo, que deve ser criado no final do ano. “O governo brasileiro não tem ideia de como vivem seus cidadãos no exterior, nem imagina que há gente passando fome na fila da Caritas”, uma organização assistencial católica, alertou.
Miguel Pajares, pesquisador da Universidade de Barcelona, disse à IPS que um estudo sobre imigração e trabalho, cujos resultados serão divulgados em agosto, revela que em 2009 a chegada de imigrantes se manteve semelhante à de 2008, quando em outubro eclodiu nos Estados Unidos a crise financeira que se tornou global. Contudo, houve uma grande mudança, segundo a pesquisa da qual Miguel participou, elaborada pelo Observatório Permanente da Imigração (OPI) do Ministério do Trabalho. Agora, se está perto do equilíbrio entre os que chegam e os que partem, ressaltou.
Durante o auge migratório dos primeiros sete anos desta década, chegaram à Espanha anualmente entre 600 mil e 700 mil estrangeiros. Em 2009, segundo pesquisa do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 400 mil imigrantes abandonaram a Espanha. Entre os latino-americanos, as colônias que mais retornam parecem ser as de Colômbia, Equador e Bolívia, embora não existam dados confirmados a respeito, informou Miguel.
Ele acredita que o fluxo de imigrantes para a União Europeia voltará a ser alto quando a crise for superada, mas na Espanha o processo será mais tardio, porque o desemprego no país é o dobro da média do bloco. Além disso, a destruição do emprego é muito acelerada e a geração de postos de trabalho é lenta.
Entre 2008 e 2009, o OPI realizou uma pesquisa intitulada “Os imigrantes brasileiros na estrutura socioeconômica espanhola”, com dois objetivos: traçar o mapa sociodemográfico sobre eles e apoiar sua inserção. Um dos pesquisadores, Leonardo Cavalcanti, cientista social especializado em migrações e professor em várias universidades, disse à IPS que os brasileiros tradicionalmente preferem Estados Unidos e Portugal como destinos para emigrar.
No entanto, entre 2004 e 2008, foram tardiamente atraídos pela bonança espanhola e a população de brasileiros no país passou de 40 mil para 120 mil pessoas. Apenas em 2007, o coletivo brasileiro se fez mais visível para as autoridades e começou a ser impedida a entrada. A situação virou crise em fevereiro de 2008, quando no aeroporto de Madri foi proibida a entrada de um estudante brasileiro de pós-graduação em física e de outros quatro viajantes, em conexão para Lisboa para participar de um encontro científico. A ameaça do Brasil de aplicar reciprocidade no trato dos espanhois em seus aeroportos e os protestos dos meios de comunicação reverteram estas ações.
As mulheres representam 60% do coletivo brasileiro, o menos documentado dos imigrantes e que majoritariamente chega a esta nação europeia para “conseguir um trabalho e uma vida melhor”, segundo a pesquisa. Todos os imigrantes agora enfrentam os cortes do governo em serviços sociais e programas de acolhida. Ainda assim, “para muitos é preferível estar na Espanha do que retornar aos seus países”, destacou Leonardo.
Este especialista acredita que é importante pesquisar como se integram na Espanha e no resto da Europa os filhos de imigrantes nascidos no continente. “Ninguém sabe como será o futuro destas crianças, se serão nacionais de segunda classe ou terão o mesmo acesso ao trabalho que os filhos de espanhois”, ressaltou. IPS/Envolverde

