América Latina cresce em um mundo cheio de incertezas

Santiago, Chile, 23/07/2010 – Mais investimentos em capital fixo para melhorar a competitividade, maior valor agregado às exportações de bens e serviços, e reformas tributárias para financiar políticas sociais são alguns dos desafios da América Latina e do Caribe para enfrentar o incerto panorama econômico mundial. “Esse ano vamos crescer bem, mas no próximo a taxa será menor e as perspectivas de futuro são muito incertas”, disse à IPS Osvaldo Kacef, diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

É possível que “as taxas de crescimento no futuro não sejam suficientes para que o mercado de trabalho possa absorver toda a mão-de-obra necessária para que, por essa via, melhore a situação social”, afirmou o especialista, considerando que a quantidade de pobres passou de 180 milhões de pessoas, em 2008, para 189 milhões, em 2009, 34% da população regional. Esse cenário “obriga a manter políticas públicas que levem renda a setores que ficam fora do mercado de trabalho”, o que exige “pactos fiscais sólidos” para que os Estados tenham os recursos necessários, acrescentou.

Os países da América Latina e do Caribe recuperarão o caminho do crescimento esse ano, com uma inesperada expansão de 5,2%, em média. Em 2011, entretanto, a variação do produto interno bruto seria de apenas 3,9%, segundo projeções da Cepal divulgadas ontem em Santiago. Isto permitirá que o desemprego na região caia de 8,2% da população economicamente ativa, em 2009, para 7,8% este ano. O PIB da América Latina e do Caribe caiu 1,9% no ano passado, devido à crise econômica global originada nos Estados Unidos em meados de 2008, a pior desde a Grande Depressão de 1929.

Segundo o Estudo Econômico da América Latina e do Caribe 2009-2010, os países que liderarão o crescimento este ano são Brasil, com expansão projetada de 7,6%; Uruguai e Paraguai, com 7% cada; Argentina com 6,8% e Peru com 6,7%. Mais abaixo aparecem República Dominicana, cujo crescimento econômico é estimado em 6%, Panamá com 5%, Bolívia com 4,5%, Chile com 4,3%, México com 4,1%, Colômbia com 3,7%, Equador e Honduras com 2,5%, e, finalmente, Nicarágua e Guatemala com 2%.

Por outro lado, o PIB da Venezuela diminuirá 3%, devido, entre outras coisas, à redução das exportações de petróleo, que caíram 30,4% em 2009, e ao racionamento elétrico que acontece no país. Já a economia do Haiti também retrocederá 8,5% devido ao terremoto de janeiro, embora para 2011 se projete que vai liderar o crescimento regional com 7%, graças aos trabalhos de reconstrução. O Chile, também afetado por um terremoto e um tsunami em fevereiro, seguirá o Haiti no próximo ano com 6% de expansão do PIB.

Para Osvaldo, o cenário de incerteza, por causa da crise que a União Europeia enfrenta, obriga os países da região a manter seus equilíbrios macroeconômicos, mas sem desestimular a competitividade, a investir em capital fixo e exportar bens e serviços com maior valor agregado. “A região tem déficit de investimento em capital fixo, em particular infraestrutura, maquinário, estradas”, explicou. Por outro lado, “às vezes, os dirigentes políticos dão muita ênfase no controle da inflação, e a taxa de câmbio fica como uma variável residual”, afirmou. “Contudo, a taxa de câmbio real afeta a destinação de recursos no longo prazo”, ressaltou. A seu ver, os países podem avançar em controles na entrada de capitais estrangeiros especulativos e não produtivos.

Neste momento, as principais economias do mundo discutem sobre a estratégia mais adequada para continuar enfrentando os golpes da crise econômica internacional. A secretária-executiva da Cepal, a mexicana Alicia Bárcena, distinguiu entre a postura dos Estados Unidos e do México, que defendem os estímulos fiscais para reativar a economia, e a de alguns países da Europa, que apostam em reduzir seus enormes déficits fiscais à custa da redução de benefícios sociais. Segundo Alicia, a recomendação da Cepal se aproxima mais da dos países emergentes e dos Estados Unidos, em termos de não eliminar os estímulos de forma drástica.

Em 2008, a maioria das exportações de bens da América Latina foi para os Estados Unidos, totalizando 40,7%, vindo em seguida a Europa com 13,9%, a China com 4,8% e Japão com 2,2%. No entanto, 18,2% das vendas foram distribuídas no comércio interregional e o restante a outras regiões. “Isso explica que, em termos regionais, a América Latina e o Caribe estão mais expostos às flutuações dos mercados dos Estados Unidos do que às dos outros destinos”, diz o estudo da Cepal. No entanto, a América do Sul é mais vulnerável à crise da União Europeia, especialmente Argentina, Chile, Peru e Uruguai, “países onde o peso estimado das exportações para esse bloco é maior ou igual a 4% do PIB”, acrescenta. IPS/Envolverde

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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