Iraque: Enxurrada de más notícias para o Pentágono

Washington, 15/06/2005 – Na trilha da resistência iraquiana, as más notícias sobre o Iraque ressurgiram e se instalaram em uma publicação do próprio Departamento de Defesa dos Estados Unidos, após ter desaparecido por um breve tempo depois das eleições de 30 de janeiro nesse país do Golfo. As principais notas das últimas edições do Early Bird -uma recopilação diária de aproximadamente 50 artigos de imprensa que circula entre os burocratas da segurança nacional norte-americana – se referem ao Iraque. E em tom nada otimista. O primeiro artigo da edição de segunda-feira, extrato do jornal Usa Today e intitulado "Pesquisa: OS Estados Unidos perdem a paciência com o Iraque", cita a última pesquisa feita pelo instituto Gallup, segundo a qual quase 60% do público norte-americano é favorável a uma retirada parcial ou completa das tropas de seu país, que invadiram o Iraque em março de 2003.

O segundo artigo foi publicado no The Philadelphia Inquirer sob o título "Oficiais militares não podem acabar com a insurgência". A nota começa dizendo: "Um crescente número de altos militares norte-americanos no Iraque conclui que não há uma solução militar de longo prazo para uma insurgência que matou milhares de iraquianos e mais de 1.300 soldados norte-americanos nos últimos dois anos". Em contrapartida à confiante afirmação do vice-presidente, Dick Cheney, feita a duas semanas, de que a insurgência iraquiana estava "em seus últimos estertores", um oficial citado no artigo, que supervisiona o treinamento dos soldados iraquianos, comentou como é fácil para a resistência repor suas forças. "Não podemos acabar com eles. Matamos um e criamos três", disse.

A terceira nota do Early Bird, do New York Times, parece dirigida a aumentar a tensão criada pela primeira. O trabalho das tropas no Iraque "pode levar anos", diz o título. O texto do artigo destaca que generais que há quatro meses previam a retirada de 140 mil soldados até o final deste ano, agora dizem que "poderá demorar dois anos, talvez mais". Essa mensagem é otimista quando comparada com a nota principal da edição do Early Bird do último dia 10, intitulada "Construindo o exército iraquiano: Missão improvável", uma co-autoria de Anthony Shadid, o único que fala árabe fluentemente nos principais meios de imprensa norte-americanos. O artigo de quase três mil palavras, publicado no The Washington Post faz referência à enorme distância política e cultural que separa os soldados norte-americanos dos árabes sunitas com os quais devem trabalhar no norte do Iraque, onde a resistência é mais forte.

Um dos autores da nota esteve "embutido" na tropa norte-americana, enquanto Shadid esteve em uma unidade iraquiana durante três dias. Além de documentar o sentimento generalizado de desconfiança e desprezo mútuos, bem como o equipamento, a proteção e a tecnologia imensamente superiores dos soldados norte-americanos, o artigo relata incidentes de insubordinação da unidade iraquiana. "A investigação revelou reticências de soldados muçulmanos em invadir mesquitas e casas até questões cotidianas básicas", diz a reportagem. "Desde o terreno, posso dizer com certeza que (os soldados iraquianos) não estarão prontos antes da minha partida", afirmou o tenente Kenrick Cato ao Washington Post. "E sei que regressarei ao Iraque, provavelmente em três ou quatro anos. Tampouco creio que estarão prontos então", acrescentou.

Como reflete a mais recente pesquisa do Gallup, estas e outras histórias afetam a opinião pública norte-americana que, após uma breve bolha de entusiasmo depois das eleições de janeiro, se tornou cada vez mais pessimista a partir de fevereiro. De fato, na semana passada, outra pesquisa, esta do The Washington Post e do ABC News revelou que, pela primeira vez desde o início da guerra, mais da metade dos cidadãos acreditam que a invasão do Iraque não aumentou a segurança dos Estados Unidos, e quase 40% descreveram a situação nesse país do Golfo como semelhante à da guerra do Vietnã (1960-1975). "O constante fluxo de notícias negativas procedentes do Iraque enfraquece o apoio às operações militares norte-americanas nesse país", advertiu Andy Kohout, diretor do Centro de Investigações Pew para as Pessoas e a Imprensa, que fez sua própria pesquisa.

Segundo o Centro Pew, o recorde de 46% dos norte-americanos se mostra partidário da retirada do Iraque, embora sem distinguir entre retirada parcial e completa, como a pesquisa do Gallup. O medo de que o Iraque se transforme em um novo Vietnã também foi mencionado por 35% dos entrevistados, segundo o Centro Pew. Outros 47% acreditam que os Estados Unidos ainda podem estabilizar a situação. Stephen Kull, do Programa de Atitudes sobre Política Internacional da Universidade de Maryland, acredita que as últimas pesquisas não indicam que o governo de George W. Bush possa se ver obrigado a determinar uma retirada, em parte porque nenhum líder com credibilidade apresentou um plano alternativo. Apesar disso, "os últimos dados criam um problema político para o presidente, porque afetam sua própria popularidade", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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