Infância: África paga o preço da inércia

Berlim, 14/06/2005 – Se o processo de desenvolvimento da África subsaariana continuar no ritmo atual, a região não alcançará a meta do milênio de reduzir a mortalidade infantil antes de 2015, mas somente um século depois. Isto significa que morrerão 28 milhões de crianças que se salvariam se fosse cumprido o objetivo no prazo estabelecido, adverte o último Informe sobre Desenvolvimento Humano, produzido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). "Estes números deveriam servir de alerta para os líderes do Grupo dos Oito países mais industrializados", disse Kevin Watkins, diretor do informe, em uma reunião em Berlim.

O relatório analisa tendências de diferentes indicadores relacionados com a mortalidade infantil, a pobreza e a educação, entre outros, e os compara com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pelos países-membros da Organização das Nações Unidas em 2000. Especialistas indicam que, para alcançar essas metas, é crucial que os países ricos aumentem seus fundos destinados a atividades de desenvolvimento e, também, ofereçam condições de comércio mais justas e alívio da dívida externa das nações mais pobres. Os líderes do G-8 realizaram certos avanços nesse sentido ao oferecerem o cancelamento do total da dívida dos Países Pobres Muito Endividados, na reunião de ministros das Finanças realizada na sexta-feira e sábado, em Londres.

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio incluem a redução da pobreza extrema e da fome pela metade, educação primária universal, redução da mortalidade materna em três quartos e da mortalidade infantil em dois terços, e combate à aids, malária e outras doenças, bem como a promoção da igualdade de gênero. As metas específicas devem ser cumpridas até 2015 e têm como referência os níveis de 1990, mas, são poucos os países que estão a caminho de cumpri-las nesse prazo. "A inércia tem um alto custo em termos de vidas e potencial humano perdidos na África", disse Watkins, acrescentando que os números apresentados são uma tendência que pode mudar mediante políticas nacionais e cooperação internacional eficazes.

Mas, se a tendência não mudar, 19 milhões de meninos e meninas estarão fora da escola em 2015 na África subsaariana, diz o informe. Nessa região, a mais pobre do mundo, vivem 37% dos 115 milhões de crianças que não freqüentam a escola, mas, se prevê que essa porcentagem aumentará. Tanzânia, Quênia, Uganda e Ruanda conseguiram algum progresso em matéria de matrícula escolar, mas, não quanto ao término do curso primário, acrescenta o documento. O G-8 está integrado pelos sete países mais industrializados (Grã-Bretanha, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão e Estados Unidos) mais a Rússia. Entre 6 e 9 de julho próximo, seus máximos governantes se reunirão na localidade escocesa de Gleneagles.

Muitos grupos da sociedade civil aguardam decisões críticas para o desenvolvimento por parte dessa cúpula. Tilmann Brück, especialista em desenvolvimento do Instituto Alemão para a Pesquisa Econômica, disse que o G-8 deve adotar quatro medidas: aumentar a ajuda ao desenvolvimento, oferecer alívio da dívida, aceitar acordos comerciais justos e por fim aos conflitos. "São vários itens, que se complementam, não se pode escolher um e deixar outro de lado", disse à IPS. Por exemplo, para reduzir a mortalidade infantil e aumentar a escolaridade é essencial que os pais tenham emprego, para poderem custear os serviços de saúde e enviá-los à escola, explicou.

Mas, os países industrializados não oferecem aos pobres um acesso justo aos seus mercados, porque levantam barreiras ou subsidiam seus próprios produtos. "Se colocarmos no mercado produtos a preços muito abaixo dos custos de produção na África, os agricultores africanos não poderão vender sua produção", disse Brück. Quase a metade do orçamento da União Européia se destina a subsídios agrícolas, mas o presidente da França, Jacques Chirac, disse à imprensa, na sexta-feira passada, que não estava disposto a aceitar mudanças a esse respeito. O informe do Pnud observa que, se for alcançada a meta de reduzir à metade o número de pessoas que vivem na extrema pobreza, com menos de um dólar por dia, se deverá ao extraordinário crescimento da China e Índia, os países mais povoados do mundo.

Mas, a África subsaariana nem chegará perto dessa meta. Segundo projeções da ONU, em 2015, cerca de 353 milhões de pessoas da região viverão na extrema pobreza, 219 milhões a mais do que atualmente. Isso significa que a porção regional da pobreza do planeta aumentará de 29% para 53%. O desenvolvimento da África e a mudança climática figuram no topo da agenda da próxima cúpula do G-8. em cúpulas anteriores predominaram temas puramente econômicos. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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