Palestina-Israel: Casas vazias, um problema à porta

Jerusalém, 17/06/2005 – O destino de aproximadamente 1.600 casas em terras palestinas que cerca de 7.500 colonos judeus deverão abandonar em meados de agosto se transformou em uma batata quente, tanto para Israel quanto para a Autoridade Nacional Palestina (ANP). Era de se esperar que Israel, cujo primeiro-ministro, Ariel Sharon, promoveu o desmantelamento unilateral de assentamentos judeus em territórios ocupados, procurasse evitar a divulgação de imagens de palestinos entrando triunfalmente nas casas vazias. Por outro lado, era previsível que os palestinos, ansiosos por entrarem nas casas dos ocupantes em retirada, quisessem mantê-las intactas.

Mas nada está resolvido ainda. Após sugerir inicialmente que as casas dos colonos fossem demolidas para poupar aos seus ex-ocupantes o desgosto de as verem ocupadas por palestinos, Sharon explicou que o assunto ainda não está decidido. A razão é que o exército israelense se opõe à demolição porque esse trabalho atrasaria de maneira significativa a retirada da faixa de Gaza e exporia os soldados a um risco maior de ataques por parte de grupos radicais palestinos. Se as casas forem demolidas "teremos de manter forças militares, guardas de segurança e pessoal para destruí-las no meio de território inimigo, e ninguém garante que não haverá ataques terroristas", advertiu o ministro da Defesa, Shaul Mofaz.

Mofaz acrescentou que, na qualidade de ministro da Defesa, não está preparado "para colocar em risco soldados israelenses para destruir as casas de colonos. Seria muito difícil para mim olhar nos olhos das mães de soldados israelenses e explicar-lhes que seus filhos morreram porque insistimos em demolir essas casas", afirmou o ministro à televisão de Israel. No momento, Sharon adia a decisão, em meio à pressão do exército por um lado, e às vozes de seu partido, Likud, e dos colonos por outro, que pedem a demolição das casas. O principal adversário de Sharon dentro do Likud, o ministro das finanças e ex-primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, advertiu que deixar em pé as casas dos colonos seria para os palestinos "uma grande vitória moral".

"Devemos impedir que assassinos palestinos herdem as casas de suas vítimas e dancem sobre seus terraços agitando bandeiras do Hamas e da Jihad Islâmica (grupos extremistas islâmicos)", disse Netanyahu, o principal opositor do governo ao plano de retirada unilateral. Mas a questão das casas também é uma dor de cabeça para as autoridades palestinas. Primeiro comentou-se que a ANP pretendia que ficassem intactas para poder usá-las para abrigar refugiados, mas posteriormente vários funcionários reclamaram sua demolição. Segundo o ministro e negociador palestino Saeb Erekat, as casas não são adequadas às necessidades dos palestinos.

Alguns líderes palestinos também expressaram em particular o temor de saques e disputas pelas casas, após a saída dos colonos. Além disso, se Israel destruí-las, a ANP não terá o problema de decidir quem irá herdá-las. Mohammad Shtayyeh, ministro palestino da Habitação e Obras Públicas, disse este mês que se Israel não demolir as casas a ANP o fará, e as substituirá por blocos de apartamentos, mais adequados às necessidades da densa população da faixa de Gaza do que as casas ajardinadas dos colonos. "Se Israel não destruir as casas dos colonos, nós o faremos", advertiu.

Segundo Shtayyeh, a maioria dos membros do gabinete palestino está a favor da demolição, para fazer um uso mais eficiente do escasso território de Gaza. O escombro das demolições – disse – seria usado para construir um porto na faixa de Gaza no Mediterrâneo. A primeira vez que o governo israelense retirou colonos judeus foi no início dos anos 80, quando Israel deixou o deserto do Sinai como parte do acordo de paz com o Egito. O homem encarregado dessa operação, há 23 anos, foi o próprio Ariel Sharon, que supervisionou a demolição de todas as casas construídas nesse território.

Agora talvez deva realizar a mesma tarefa. O mandatário deve decidir-se logo, porque faltam apenas dois meses para a retirada. Enquanto isso, ouve as vozes do exército que o advertem dos riscos para os soldados, as de Washington exortando a não demolir as casas e da direita política que pede urgência na demolição. Com seu plano de retirada de Gaza, Sharon desagradou um grande setor de sua base eleitoral, do qual necessitará em 2006, ano de eleições. (IPS/Envolverde)

Peter Hirschberg

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