Haiti: Outra mudança de regime problemática

Washington, 17/06/2005 – Enquanto a violência no Iraque não cede, a situação no Haiti, outro país onde os Estados Unidos teve papel-chave para mudar o regime, também vai de mal a pior, segundo observadores em Washington. O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que deve decidir se prorroga o prazo de sua missão de paz no Haiti (Minustah), acreditava que a esta altura já haveria quatro milhões de pessoas registradas para votar nas eleições que marcadas para dentro de quatro meses. Mas até agora, somente foram registrados 65 mil. A intenção do Conselho é que no começo do próximo ano se instale em Porto Príncipe um governo eleito nas urnas.

Um sinal ainda mais desanimador do caos e da insegurança que reinam na nação mais pobre da América é a crescente quantidade de "balseiros" que tentam fugir da ilha de La Hispaniola, compartilhada por este país a oeste e com a República Dominicana a leste. Em maio, a Guarda Costeira norte-americana recolheu nas proximidades da ilha e devolveu ao seu país mais de 400 haitianos, o dobro da média mensal de 200, registrada desde janeiro. E apenas nos 10 primeiros dias de junho a Guarda Costeira, que aumentou sua presença nas águas próximas do Haiti, encontrou em alto mar quase 300 balseiros (que utilizam balsas para fugir do país). "Os haitianos se espalham pelos arredores, por lugares que nunca haviam ido antes", disse Jocelyn McCalla, diretora da Coalizão Nacional pelos Direitos Haitianos, com sede em Nova York. "San Cristóbal e Nevis, Dominica, Barbuda, Ilhas Virgens, Turcas e Caicos, Bahamas e Jamaica… esses países estão aterrados pelo que está ocorrendo".

O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e o governo de George W. Bush solicitaram ao Conselho de Segurança que aumente em 10% o efetivo de 7.400 soldados e policiais hoje presentes no Haiti que integram a Minustah. Bush e seus colaboradores consideram, inclusive, enviar às vésperas das eleições uma força de meio milhar de seus próprios soldados ao Haiti ou nos mares que o rodeiam. Mas alguns analistas insistem em que tais passos seriam insuficientes, devido à anarquia e à criminalidade reinantes. Um dos objetivos da Minustah é combater os grupos armados constituídos por ex-soldados e simpatizantes do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, deposto e exilado à força no dia 29 de fevereiro de 2004 com a anuência dos Estados Unidos e da França. No sábado passado, por exemplo, aconteceram 11 seqüestros, apenas em Porto Príncipe.

"Se esgota o tempo para evitar que o Haiti se converta em um fracasso perpétuo", disse Mark Schneider, diretor do escritório em Washington do Grupo Internacional de Crise (IGC), organização acadêmica com sede em Bruxelas que propõe medidas mais fortes para acabar com o caos. O Conselho de Segurança deveria ampliar o mandato e o tamanho da Minustah, segundo Schneider. A missão teria, por exemplo, que assumir o controle da Polícia Nacional Haitiana de cinco mil efetivos. Também deveria somar três mil agentes internacionais de polícia aos 1.300 já presentes no país. Por outro lado, Schneider propôs que a ONU estabeleça tribunais internacionais para examinar casos críticos que envolvam figuras políticas, entre elas o ex-ministro Yvon Neptune, que apelou para a greve de fome em protesto por seu status de preso há 11 meses sem julgamento.

A prisão de Neptune é "embaraçosa" para o governo Bush, disse nesta quinta-feira o jornal The New York Times. Há apenas dois meses o ex-governante foi formalmente acusado de envolvimento em um massacre em St. Marc, durante a insurreição de ex-soldados que ajudaram na queda de Aristide. Schneider considerou que o ex-ministro da Justiça Bernard Gousse, que renunciou na última quarta-feira, havia "politizado" seu ministério ao acelerar as acusações contra Neptune e outros dirigentes do partido de Aristide, o Lavalas, e não as previstas contra ex-soldados e policiais corruptos. O IGC também solicitou à Minustah que coloque o desarmamento das milícias ilegais em sua lista de prioridades, de modo a acelerar o processo antes das eleições.

Para isso, o Conselho de Segurança deveria enviar pelo menos duas brigadas de ação rápida, de um milhar de efetivos cada uma, explicou Schneider. Mas as recomendações do IGC não são suficientes, segundo McCalla. "Não somente se deve controlar a polícia, como também o governo", disse à IPS, ao mesmo tempo em que se mostrou favorável ao adiamento das eleições. Como no Iraque, o governo de George W. Bush subestimou as dificuldades da transição depois de ter forçado a queda e o exílio de Aristide. "Haviam convencido a si mesmos de que o Haiti seria um passeio, e que tudo que precisavam para conseguir a cor rosa era tirar Aristide dali, enviar tropas por uns dois meses, instalar um novo governo, enviar uma força internacional. Não aconteceu dessa maneira", concluiu. (IPS/Envolverde)

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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