SUAZILÂNDIA: Encontrar formas de cuidar dos orfãos do VIH

KANGCAMPHALALA, Suazilândia, 24/08/2010 – Em Kangcamphalala, comunidade assolada pela seca, Nomvula Dladla*, uma orfã devido à SIDA, está lavada em lágrimas. Esta jovem de 17 anos foi informada que a tia, o único membro da família ainda vivo com quem podia viver, falecera algumas horas antes devido a uma doença causada pelo VIH.

E se ela vivesse em qualquer outra parte do país, esse facto teria deixado Dladla desamparada.

Mas Dladla está em Kangcamphalala e vive na Residencial da Organização Religiosa de Cabrini para Orfãos e Crianças Vulneráveis, que também financia os seus estudos no Liceu de São Filipe. Ela é um dos 130 orfãos que vivem aqui e cujos pais faleceram principalmente devido a doenças relecionadas com a SIDA. Doze dos orfãos estão infectados com VIH e estão a ser tratados com medicamentos anti-retrovíricos.

A organização religiosa é um oásis de esperança numa comunidade que tem uma taxa de desemprego de cerca de 90 por cento. De acordo com a irmã Barbara Staley, directora da organização responsável pelo acolhimento das crianças, metade das 6.000 pessoas que desde 2004 fizeram o teste do VIH naquela zona são seropositivas.

“Isso resultou num número esmagador de orfãos nesta zona,” disse Staley. Afirmou ainda que a Organização Religiosa de Cabrini tinha estabelecido a Residencial com o objectivo de proporcionar um lar seguro aos orfãos do VIH.

Com excepção dos centros de cuidados que foram criados nos bairros, instalações onde os orfãos do VIH recebem alimentos e educação básica durante o dia, o governo não apresentou uma solução que resolva o problema dos agregados familiares chefiados por crianças. Há 130.000 orfãos e crianças vulneráveis na Suazilândia e a maior parte delas não tem familiares com quem possa viver, o que as torna vulneráveis a certos abusos como a violação.

Staley afirmou que, por exemplo, quando os pais de Dladla faleceram devido a doenças relacionadas com a SIDA quando tinha 10 anos, ela foi viver com um tio que a obrigava a vender cerveja e a dançar para os clientes. Mais tarde, foi recolhida pela tia, que era seropositiva.

“Em consequência, (Dladla) ficou viciada no álcool, porque costumava beber com os clientes, o que a levou à dependência. Tivemos de a ajudar a superar a sua dependência,” disse Staley. “Outras raparigas acabam por ser vítimas de abuso sexual.”

Embora Dladla afirme que gostava de viver com a tia, preferia ficar na Residencial, porque aí recebe refeições regulares e há sempre alguém que a ajuda a fazer os trabalhos de casa. São coisas que a sua tia doente não lhe podia proporcionar.

“Toda a gente é simpática aqui e temos a impressão de estarmos em casa, mas é claro que sinto falta da minha tia,” disse Dladla com tristeza.

As promotoras de saúde rural, mulheres que trabalham na comunidade e que promovem um tipo de vida saudável, propõem perto de 1.000 crianças carentes na zona para serem admitidas na Residencial. A Organização Religiosa de Cabrini faz depois uma avaliação das crianças de acordo com as suas necessidades.

Algumas crianças recebem auxílio a nível dos seus estudos, fardas e transporte de e para a escola. A organização também constrói casas para aquelas crianças cujas casas estão degradadas e fornece ainda medicamentos, incluindo anti-retrovíricos, às crianças que deles precisam.

“Levamos perto de 150 crianças para a Residencial, enquanto as outras recebem apoio sob a tutela das suas famílias,” disse Staley.

O pessoal da Residencial ajuda a criar as crianças com a ajuda de familiares, vizinhos e comunidade. As crianças passam o período escolar na Residencial e durante as férias visitam as famílias.

“Pais, familiares ou tutores podem visitar as crianças na Residencial e autorizamos as crianças a regressarem a casa para participarem em eventos familiares como casamentos ou funerais,” disse Sharon Singleton, funcionária responsável pela intervenção psicossocial.

Ela explicou que, se existe um problema com determinada criança, como mau comportamento, o pai ou tutor é chamado para ajudar a falar com a criança.

“O princípio orientador é trabalhar com a família da criança como co-progenitor de forma a promover os laços familiares existentes e, dessa maneira, fortalecer todo o tecido comunitário,” disse Staley.

*O nome foi alterado para proteger a identidade da menor.

Mantoe Phakathi

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *